Sai Honestino, entra Costa e Silva. E a ditadura vai ganhando sua forma – em pontes e vinhetas de TV

Honestino Guimarães, como se sabe, foi um líder estudantil e militante contra a ditadura – estudava geologia na Universidade de Brasília – que desapareceu em 10 de outubro de 1973, após ser preso no Rio de Janeiro. Em março de 1996, sua família recebeu um atestado de óbito, sem explicar a causa da morte. Somente em 2014, recebeu anistia política “post mortem” e teve o atestado de óbito corrigido, tendo como causa de sua morte “atos de violência praticados pelo Estado”. O general Costa e Silva, como igualmente se sabe, comandou o Brasil entre março de 1967 e agosto de 1969, período de fortalecimento da repressão e de práticas de tortura. O Ato Institucional 5 (AI-5), que institucionalizou a perda de direitos, foi sancionado por ele em 1968. O primeiro é, para o ditador eleito Jair Bolsonaro, um desses “vermelhos” que deveriam deixar o Brasil – Ame-o ou Deixe-o, certo Silvio Santos? O segundo é um dos ídolos do ex-capitão, que tem em seu gabinete no Congresso fotos emolduradas de todos os generais-presidentes dos anos de chumbo – aliás, Bolsonaro levará sua galeria de ditadores zumbis para o Gabinete Presidencial?

Pois o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF, louco para se render à ditadura eleita, decidiu encher de orgulho o novo presidente e construiu uma perigosa ponte em um país que flerta com o fascismo, a intolerância e o ódio. Por ordem arbitrária da Corte, a “segunda ponte” do Lago Sul deixará de se chamar Honestino Guimarães para retomar o nome de origem, Costa e Silva. Uma lei de 2015, que renomeou a estrutura, foi declarada inconstitucional. O pedido foi feito, entre outros, por uma procuradora e deputada federal eleita Bia Kicis (PRP), que considerou o rebatismo “inconstitucional e autoritário” por não ter havido consulta popular. Nas redes sociais, Bia, que se declara fã do filósofo de direita Olavo de Carvalho e se concede a presidência do Instituto Resgata Brasil, comemora a súbita notoriedade. Cabe recurso, mas o gesto, em si, já é mais um sinal dos tempos negros que temos pela frente. A placa que antecede a ponte já foi pichada com o nome do ditador Costa e Silva.

Quem quiser consultar o processo pode ver aqui a lista dos saudosistas da ditadura responsáveis pelo pedido de troca de nomes.

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Da esquerda para a direita: Vinheta do SBT resgatando o slogan da ditadura de 64; o ditador Costa e Silva, em foto oficial sem farda; Post no Facebook da deputada federal eleita Bia Kicis, uma das responsáveis pela ação que mudou o nome da “segunda ponte” do Lago de Honestino Guimarães para Costa e Silva; Honestino Guimarães; “santinho” de outro ditador, Emílio Médici, na onda do Ame-o ou Deixe-o; o estudante torturado e assassinado, em carteirinha da época; Silvio Santos, o lambe-botas de ditadores; e uma foto clássica dos anos de chumbo.

Aguarda-se para breve novas mudanças de nomes em locais conhecidos na capital federal:
– Praça dos Três Poderes para Praça General Emílio Garrastazu Médici;
– Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida para Catedral Edir Macedo;
– Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek para Parque da Cidade Humberto de Alencar Castelo Branco;
– Torre de TV para Torre Brilhante Ustra;
– Centro de Convenções Ulysses Guimarães para Centro de Convenções Antonio Carlos Magalhães;
– Memorial JK para Memorial Ernesto Geisel;
– Memorial dos Povos Indígenas para Espaço Equestre João Figueiredo;
– Biblioteca Nacional de Brasília – Essa pode ser incendiada e virar um monumento aos soldados mortos por guerrilheiros de esquerda.

Sobre o “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, slogan da ditadura recriado pelo SBT do lambe-botas Silvio Santos para impressionar o ex-capitão, a emissora jura que deu meia volta, volver. “A emissora não se atentou para o fato de que a frase remetia ao período do regime militar”, explicou numa nota em que anunciava sua retirada. Foi um “equívoco”. Equívoco uma ova.

“Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, reprisa o SBT, repetindo o refrão da ditadura e expondo a holding eletrônica ufanista-religiosa montada para apoiar Bolsonaro

O ano era 1969. Eu, nascido depois do golpe, tinha três anos. A ditadura militar vivia um de seus movimentos serpentinos, sibilando rumo aos anos de chumbo da ditadura. O Alto Comando das Forças Armadas, que faziam as vezes de urnas na época, escolheu para seguir a linhagem o general ultradireitista Emílio Garrastazu Médici – outro dos ídolos de Jair Bolsonaro, junto com o torturador Brilhante Ustra. O ministro do Exército, Orlando Geisel, ficou encarregado de doutrinar a área militar. Delfim Netto cuidava de maquiar o “milagre econômico” para os mesmos, como o capitão quer fazer agora com os números do desemprego. Na Casa Civil, o professor de direito Leitão de Abreu era o Onyx Lorenzoni da ocasião, só que sem o implante e sem o diploma de veterinário – muito apropriado para pajear o “Cavalão”, um dos apelidos mimosos de Bolsonaro. Os guerrilheiros Carlos Marighella e Carlos Lamarca haviam sido assassinados no regime. Os direitos fundamentais do cidadão foram reduzidos a pó e as prisões facilitadas – tal qual planeja agora o juiz-político Sérgio Moro (aliás, que horário eleitoral gratuito magnífico ganhou no Jornal Nacional de terça, mais de 15 minutos e um bloco inteiro). Nas escolas, nas fábricas, na imprensa, nos teatros, a sociedade brasileira sentia a mão de ferro da ditadura. O governo gastava milhões de “cruzeiros” em propagandas ufanistas para entorpecer sua imagem junto ao povo.

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Da esquerda para a direita: Silvio Santos, já gagá, fazendo o mesmo programa de auditório tosco que servia na ditadura como circo para abafar o som vindo dos porões; a nova vinheta do SBT, “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, resgatando a campanha publicitária repulsiva do regime militar; o “Ame-o ou Deixe-o” dos tempos de Médici, igualzinho, sem tirar nem por; Silvio Santos nos gabinetes presidenciais de Sarney e Figueiredo – para quem criou o programa “A Semana do Presidente” (sim, eles estudam voltar com essa bajulação); e Médici, fumando, entre Figueiredo e Leitão de Abreu, no Maracanã, na onda do “Pra Frente, Brasil”.

Um dos slogans dessa propaganda dizia: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Isso me marcou muito nos meus primeiros anos de vida. Lembro como se fosse hoje de adesivos nos vidros de carros – geralmente fuscas, Aero Willys e Gordinis, com esse convite no melhor estilo “Cai fora, esquerdista/comunista”. Por isso, juro que achei que eram fake news – infelizmente estamos vendo as fake news transformarem-se em bad news – os primeiros cutucões de colegas horrorizados informando que Silvio Santos, o lambe-botas da ditadura, a quem deve sua concessão de TV – assim como a Globo -, tinha resgatado o bordão da ditadura, na forma de novas” vinhetas, para celebrar Bolsonaro. Mais do que bajular o ditador eleito, o que fez a ditadura inteira, SS (estou falando de Silvio Santos, não da Schutzstaffel) exumou um dos slogans mais repulsivos de uma ditadura que queria mesmo era ver toda oposição bem longe – ou no exílio ou torturados nos porões do regime. Era a maneira de distinguir os adversários do regime e a massa da população, desinformada pela censura na imprensa e nas artes – que vivia um dia-a-dia de alguma esperança em anos de uma falsa prosperidade econômica. O “Vai pra Cuba”, na época, era algo como “Vai pro Chile” – mas isso só até Allende ser deposto e Pinochet iniciar seu banho de sangue.

Silvio Santos, mais conhecido da maioria dos espectadores brasileiros como o ex-camelô que virou um grande milionário, morando atualmente em Orlando, na Flórida, o comunicador criador do Baú da Felicidade, do Show de Calouros, do Roletrando, do “Topa Tudo por Dinheiro”, o patrão do Lombardi – sua viúva perdeu ação trabalhista contra Silvio Santos, mesmo com mais de 30 anos de serviços prestados pelo marido -, do Jassa, do Pablo (“Qual é a Música?”), o importador de novelas mexicanas, o sovina que luta contra o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa para tirar o Teatro Oficina do Bixiga -, é, por trás dos dentes postiços, da peruca e do microfone retrô no peito, um manipulador de audiências a serviço de quem está no poder. Só não foi assim com o PT. A concessão da TVS – hoje SBT – foi dada a Silvio Santos durante o governo Figueiredo. Logo depois, o apresentador e empresário criou o programa para divulgar os feitos do governo. A “Semana do Presidente” era uma espécie de boletim paramilitar de divulgação dos atos do governo, custeado pelo Estado. No regime militar, foi usado como mais um recurso para estimular o ufanismo e tentar aumentar a popularidade do presidente carrancudo, que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo. Essa lástima, inclusive, deve ser recriada no governo Bolsonaro. Imagina, então, se colocarem antes dos filmes no cinema, como faziam, junto com o Canal 100 (esse, sim, saudoso).

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O juiz-político Sérgio Moro, já indicado pelo ditador eleito, Jair Bolsonaro, para ser o futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, deu uma “longa entrevista” em Curitiba para dizer que, tecnicamente, não é político, abanar a calda para as decisões polêmicas de Bolsonaro sobre direitos civis e admitir que foi convidado ainda durante o segundo turno da campanha, um escracho total que desmoraliza a prisão de Lula e a campanha.

SS não está sozinho. Como escrevi no artigo passado (sugiro que releia, curta, compatilhe), Bolsonaro não está só focado nas mídias sociais e sua fábrica de fake news, um de seus trunfos eleitorais, mas, reconhecendo o poder ainda exercido pelas TVs, monta uma holding eletrônica – com promessa de forte injeção de publicidade – de apoio ao seu governo fascista. O ex-capitão ultradireitista é a grande esperança da Igreja Universal de seu cabo eleitoral Edir Macedo/Record e de “pregadores” eletrônicos de outras denominações, como Silas Malafaia – da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, atualmente na Band, Josué Valandro Jr., pastor Presidente da Igreja Batista Atitude, e  pastor Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, entre outros, para usar a máquina pública para favorecer grupos religiosos, manter sua santa isenção fiscal e trucidar direitos sociais, especialmente a causa LGBT. Sem falsa modéstia, acertei na mosca.

Com fracasso de Crivella no Rio, Igreja Universal do Reino de Bolsonaro, junto com outras “igrejas”, aposta em holding eletrônica de suporte ao governo fascista

O apoio de Edir Macedo a Jair Bolsonaro nas eleições não foi trivial, mas uma negociação em bases sólidas, que inclui um acerto do novo governo para solapar o poder das Organizações Globo – talvez o único projeto em comum com o PT -, com uma forte injeção de publicidade no Conglomerado Universal de Comunicações, ampliação de concessões de rádios e TVs – nos moldes ACM no Governo Sarney, versão Edir Macedo – e a criação de um bloco eletrônico de apoio ao governo fascista, similar ao que está sendo costurado no Congresso com as bancadas evangélica, ruralista e da bala. Tudo isso junto à manutenção da máquina montada nas redes sociais, que trocará as fake news contra o PT por good news pró-Bolsonaro. O ex-capitão ultradireitista é a grande esperança da Universal e de “pregadores” de outras denominações, como Silas Malafaia – mais um pastor eletrônico, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que está há 35 anos ininterruptos na TV, atualmente na Band -, Josué Valandro Jr. – pastor Presidente da Igreja Batista Atitude central da Barra, conhecido como “pastor da família Bolsonaro”, por ser “padrinho” da futura primeira-dama -, pastor Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, e Marco Feliciano, o pastor metrossexual, ex-namorado de Alexandre Frota – segundo Frota! – que chegou a presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara – para usar a máquina pública para favorecer grupos religiosos, manter sua santa isenção fiscal e trucidar direitos sociais, especialmente a causa LGBT.

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A holding dos crentes seguidores de Bolsonaro em ação: Edir Macedo, dono da Record e da IURD, que virou livro e filme; Marco Feliciano, o metro-pastor, no Pânico; de novo Edir Macedo, reencontrando Silvio Santos, do SBT, outro velho puxa-saco de ditadores; Silas Malafaia, o Jesse Valadão da Chanchada Crente, ora com a família no palco da Assembleia de Deus, ao vivo; e Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, acarinhando o poder, no caso, Temer.

Com o retumbante fracasso administrativo do bispo da IURD Marcelo Crivella no Rio, que, mesmo admitindo concorrer à reeleição em 2020, tem menos chances de ser eleito que um demônio pedir dízimo durante exorcismo em Igreja, Bolsonaro tornou-se o “presidente dos sonhos” de quem quer mais do que levar fiéis para o céu. Este site tem informações seguras, baseado em contatos com fontes nas redações de diversos veículos afetados, que está sendo montado um rasteiro, mas eventualmente eficiente, projeto de poder, para tornar o Brasil uma República Fundamentalista, dessas que você se arrepia de ver assistindo episódios de “O Conto da Aia”. Com controle de redes sociais, diante da inoperância de seus “cuidadores”, e da mídia eletrônica, e conscientes que estão, como já disse Bolsonaro, referindo-se mais à Folha de S.Paulo, que a mídia impressa não apita mais nada,  pretendem ter o controle do noticiário. É muito claro que trata-se do espraiamento de um projeto de poder, formado por redações doceis, que nesta segunda, 05, foi marcado por uma limpa na TV Gazeta, que demitiu cerca de 80 profissionais, após um restabelecimento de “negociações com a Igreja Universal”. Além do diretor Dácio Nitrini e o editor-chefe Sérgio Galvão, foram dispensados todos os demais componentes da cúpula do jornalismo, comentaristas dos telejornais, inclusive Bob Fernandes – uma das poucas vozes ponderadas a questionar o significado da eleição de Bolsonaro – e o apresentador Rodolpho Gamberine, que recebeu a notícia em Paris, em férias. Só restou no Departamento de Jornalismo o suficiente para cumprir a cota de jornalismo exigida das concessões de rádio e TV.

Ali perto, no SBT, outro camelô de espaços editoriais, Silvio Santos, dono do SBT – e criador da nefasta “Semana do Presidente”, no governo do ditador João Figueiredo, e que seguiu até FHC -, vejam só, reencontrou-se após 17 anos, com o dono da Record, ele mesmo, Edir Macedo. Tiveram, no Templo de Salomão, em São Paulo – a nababesca sede da Igreja Universal em São Paulo -, uma “conversa produtiva”. O Domingo Espetacular, capitaneado por Paulo Henrique Amorim, vejam só, o isentão, exibiu “com exclusividade esse momento inédito na televisão brasileira”. Histórico para quem, PHM? Que Conversa Fiada, hem? E assim vai se formando, Record, Gazeta, SBT, quem sabe Band, a Rede Bolsonaro de Televisão. Agora se entende porque Bolsonaro quer extinguir a emissora pública do governo federal controlada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Pra que? Ou talvez ele mantenha – atenção, coleguinhas que votaram no Bozo, vamos acochambrar: Bolsonaro considera manter algumas emissoras controladas pela EBC – TV Brasil, TV NBR, rede da Rádio Nacional e Rádio MEC, além da Voz do Brasil. Para serem, claro, usadas como principal meio de comunicação com os eleitores. Mas mantenham-se reaças, inclusive nas mídias sociais. A parte evangélica e reacionária do pedaço está bem administrada.

E para não dizer que não falei dos católicos, Bolsonaro, que, por sinal concedeu entrevista à rádio católica TV Aparecida, foi linda a omissão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que, como Pilatos, lavou as mãos no segundo turno entre Deus e o Diabo, enquanto a tal Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil e suas igrejas afiliadas engajou-se com sermões e dízimos na campanha do Cramunhão. A CNBB vai comer o pão que o diabo amassou. A Universal, que já é dona da TV Record – fora o portal R7 e rádios em todo o país -, vai comandar o resto do pedaço. E bem-vindos ao conto da Aia.

O VAR eleitoral pode salvar a democracia

“Acho que dá (para virar), sobretudo com as denúncias de corrupção na campanha do Bolsonaro. (…) Se o TSE apurar as denúncias, estou confiante”.
Fernando Haddad à Reuters ao chegar no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

“Eu não tenho controle se tem empresário simpático a mim fazendo isso (pagando para impulsionar fake news nas redes e whatsapp). Eu sei que fere a legislação. Mas eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência”.
Jair Bolsonaro, num quase mea culpa, ao Antagonista

Aos 40 minutos do segundo tempo, o time dos Ogros da Caserna parece levar uma vantagem difícil de tirar. Quase impossível, se você acreditar no Ibope ou no Datafolha, que mostram Bolsonaro perto dos 60% dos votos válidos. Complicada mesmo no cenário da pesquisa CUT/Vox Populi, que dá Bolsonaro com 53% e Haddad com 47%. Se essa diferença for mesmo de 6 pontos percentuais, há esperança nas urnas. Mas uma grave denúncia contra Bolsonaro e o esgoto a céu aberto que virou sua campanha abriram um clarão de esperança. O pedido feito pelo PT para impugnar a candidatura de Bolsonaro, a partir de uma manchete da Folha de S.Paulo – reportagem de Patrícia Campos Mello, aliás, agressivamente atacada por seguidores de Bolsonaro -, mostrando a fábrica de fake news via whatsapp montada pela campanha do capitão, e custeada alegremente por um grupo de sangue-sugas, entre eles Luciano Hang, dono da Havan, o sujeito que é tarado pela Estátua da Liberdade – pode se tornar a bala de prata da campanha. Já criou um fato novo e deve ser fortemente explorado pela campanha de Haddad, ainda que, no TSE, ricocheteie no laquê impenetrável de Rosa Weber ou na peruca Luiz XV de Luiz Fux. Ele que já declarou, há pouco tempo, que a Justiça Eleitoral poderia anular o resultado de uma eleição se esse resultado for decorrência da difusão massiva de notícias falsas. Bom, Fux também prometeu absolver Zé Dirceu… Vale ler o The Intercept sobre as convicções de Fux.

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Haddad, entre a esposa, Ana Estela, e a vice Manuela: vítima de uma fábrica de fake news montada pela campanha de Bolsonaro e bancada por caixa 2 de empresários como o dono da Havan, só quer que a Justiça Eleitoral faça seu trabalho. Mas quem está lá é Luiz XV Fux, que prometeu combater as fake news e agora, com as provas nas mãos, brinca de estátua

O fato é que a ‘Fantástica Fábrica de Fake News’ de Bolsonaro é ilegal, caracteriza doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, ou seja, caixa 2 – hashtag #caixa2dobolsonaro. Em agosto, o El País já havia arranhado o tema. Na prestação de contas do candidato do PRN, digo, PSL, consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital, como tendo recebido R$ 115 mil para mídias digitais. Segundo a Folha, os contratos chegaram a R$ 12 milhões e, por meio de compra de “disparos em massa” pelo whatsapp para uma base de usuários, deveriam fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT a partir de domingo, 21, abrindo a última semana da campanha. Fux está esperando o que para pedir o VAR? “Basta prender um empresário e vão entregar a quadrilha toda”, sugeriu Haddad. Se Rosa e Fux descongelarem, pode – e devem – impugnar a candidatura de Bolsonaro e mudar completamente o pleito, que pode até ser remarcado. Bolsonaro, evidentemente, jura pela alma de Brilhante Ustra que isso é mentira. Ao site Antagonista, Bolsonaro disse não ter controle sobre o que empresários apoiadores dele fazem. Epa!

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Rosa Weber, que é presidente da Corte, foi acusada por colegas de pouco jogo de cintura ao lidar com situações de crise, como as fake news da tropa de Bolsonaro, e até com os próprios pares. Constrangimento e saia justa no TSE.
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Luiz XV Fux, fazendo cara de sério e prometendo combater as fake news na campanha eleitoral. Que tal cumprir dessa vez sua palavra, ministro?

 

O TSE adiou uma coletiva de imprensa que estava prevista para as 16h desta sexta, 19, e remarcou para domingo, 21, às 14h, na sede do tribunal em Brasília. Participariam a ministra Rosa Weber, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a advogada-geral da União, Grace Mendonça, o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, além do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), general Sérgio Etchegoyen.

O Whatsapp foi mais rápido. Enviou notificação extrajudicial para as agências Quickmobile, Yacows, Croc services e SMS Market determinando que parem de fazer envio de mensagens em massa e de utilizar números de celulares obtidos pela internet, que as empresas usavam para aumentar o alcance dos grupos na rede social. Além disso, a empresa teria banido do aplicativo contas associadas às agências citadas. Curiosamente, um dos filhos do Coiso, Flávio Bolsonaro, eleito para o Senado pelo Rio, choramingou nesta sexta, 19, pelas redes sociais que teve o seu número de telefone banido pelo WhatsApp. Epa! Em entrevista para a BBC, o WhatsApp disse que seria impossível fazer novas ações antes do segundo turno das eleições.

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Meme dos memes: Jair ‘Willy Wonka’ Bolsonaro, o dono da Fantástica Fábrica de Fake News, montada por seus amigos. Perguntado sobre o assunto, foi evasivo, dizendo que não controla o que os apoiadores fazem, abrindo a interpretação para quem acha que ela está por trás de tudo

A reportagem da Folha teve enorme repercussão no meio político e na mídia, mas, curiosamente, foi solenemente ignorada pela Globo, como pontuou o sempre atento blogueiro Maurício Stycer. O “Jornal Nacional” optou por falar do caso de forma indireta, citando a decisão do PT de pedir a inelegibilidade de Bolsonaro “por suposto esquema de divulgação de notícias contra o PT nas mídias sociais”, como disse William Bonner.

Fujão de debates, foi liberado pela equipe médica, ciosa de seus diplomas – os médicos Antonio Luiz Macedo e Leandro Echenique -, a participar pelo menos do último debate, na TV Globo, mas avisou que não iria. Sem atestado médico, caiu a farsa e ficou exposta a estratégia de quem não tem o que dizer. Bolsonaro é intelectualmente limitado, conhece quase nada além de temas militares e de suas obsessões anti-direitos humanos, e seria devorado por Haddad, um professor e um político preparado. Talvez Bolsonaro fosse se a adversária fosse Dilma. Mas Haddad seria um risco de expor o falso mito, que será, e está evidente, um marionete dos interesses que o elegem – empresariado oportunista e inescrupuloso, quatro estrelas saudosos de poder, ruralistas reacionários, maiorais evangélicos que querem expandir seus templos transformados em caixas registradoras e implantar o fundamentalismo, inclusive nas escolas. Nosso ‘Conto da Aia’ particular. Um pesadelo. A ascensão do subterrâneo, general Villas Bôas e seguidores do ex-capitão, Edir Macedo, Silas Malafaia e manipuladores eletrônicos dessa estirpe, economistas medíocres a serviço de um neoliberalismo ultrapassado e que massacra os trabalhadores.

Para alguns analistas, como Alon Feuerwerker, se é difícil que a denúncia contra Bolsonaro, sem uma ação da Justiça Eleitoral, mude os rumos das eleições, a tão pouco tempo dos brasileiros voltarem às urnas, elas podem ter colocado no coturno de Bolsonaro, se eleito, uma bomba relógio que precisará ser desarmada já em seus primeiros meses de governo. Impeachment? Pessoalmente, não acredito que um governo Bolsonaro dure dois anos.

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Temer, o impopular: do golpe parlamentar às vésperas de ficar sem mandato, sem foro privilegiado e com um processo cabeludo que, se o país fosse sério, o levaria em pouco tempo para o xadrez.

Já Temer – lembram dele, o quase ex-presidente?, o sujeito mais impopular da história – tem passado mais tempo com seus advogados no Alvorada do que passando laquê nos cabelos e cremes nas mãozinhas. O pedido de seu indiciamento no inquérito dos Portos, pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, junto com sua filha Maristela e amigos de longa data, é só o final melancólico de um governo que assumiu com um golpe parlamentar, capitaneado por ele e por Eduardo Cunha, junto com a tucanada ligada a Aécio Neves. A terceira denúncia era esperada e Temer tenta, em seus últimos respiros como presidente, a anulação do ato da Polícia Federal junto ao STF. Quem sabe, num possível governo Bolsonaro, a não prisão de Temer possa ser mercadoria para negociar um apoio do MDB à base parlamentar do capitão.