Bozonaro presidente leva Brasil à beira de abismo onde pode cair – ou se salvar. Fascismo esbofeteou democracia e liberdade foi enclausurada. Mas nossa desgraça política será o purgatório para uma volta por cima

(Cenário: sentado em um bar, ouvindo os fogos de artifício da classe média entorpecida pelo ódio e espremida em frente ao condomínio rico, na Barra da Tijuca, onde mora o adorador de Brilhante Ustra, ouvindo Pink Floyd bem alto para abafar o discurso do ditador eleito e dos “comentaristas” da GloboNews, Mervais e tais, e para ter condições de escrever algo para meus leitores, mesmo em depressão política)

Não achei que teria condições de escrever esse texto se essa tragédia acontecesse – de verdade. Pensei em lacrar o blog. Consegui, afinal, deixar esse registro – para a posteridade. Ainda mais morando no Recreio dos Bandeirantes, vizinho da Barra da Tijuca, onde milhares de fascistoides de classe média, moradores de condomínios caros, saúdam, com suas mordomias, pensões fraudulentas e negócios escusos, com fogos e palavras de ordem, a ascensão de seu igual. É como panfletar no abismo, mas lá vai. Pausa para escutar Haddad, que, como Roger Waters, o inglês cabra macho que o nordestino Ciro Gomes não foi, falar em “resistir”. Defender seus 47 milhões de eleitores, eu, modestamente, entre eles. A maioria do povo brasileiro preferiu o ódio ao amor, trocou a chance da esperança pelo projeto do ódio, deixou de eleger um professor, um democrata – movidos pelo antipetismo, pelo direitismo e pela ignorância política – para entronizar um ex-capitão ignorante, preconceituoso, misógino, e que idolatra a ditadura e torturadores. Foram cerca de 10 milhões de votos de diferença e apenas o Nordeste a, majoritariamente, honrar o país novamente. Viva o Nordeste! – de novo. Mas são mais de 47 milhões de votos de uma nova oposição – que não é PT, é o Brasil democrático. Contra os que se apropriaram de nossa bandeira, de nosso hino, até da camisa da seleção.

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“Talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora. Eu coloco a minha vida à disposição deste país. Tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o Brasil acima da própria vida, do próprio bem-estar. (…) Não tenham medo, nós estaremos aqui”.
Fernando Haddad em discurso após a vitória do fascista Bolsonaro

A partir de janeiro o Brasil, que já teve o operário Lula e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso como presidentes no pós-ditadura, terá pela primeira vez, pelo voto, de ser governado pela extrema-direita. Senhoras e senhores, com vocês Bozonaro, o candidato do nanico PSL, partideco de aluguel – assim como Collor, eleito pelo igualmente tosco PRN, e que sofreu algum tempo depois, um processo de impeachment por sua empáfia política, putrefação moral e incapacidade econômica – que já defendeu ao longo de sua vida militar e política medíocre praticamente todas as práticas antidemocráticas que existem. Serão anos de resistência, dias difíceis, como na ditadura. Dia após dia .

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No bar onde escrevo esse texto, a TV ligada na Globonews e funcionários incrédulos assistem o discurso do fascista Bolsonaro. “Vamos, junto ao Ministério da Educação, deixar de lado qualquer temática voltada para ideologia ou voltada para o desgaste dos valores familiares. A família estará em primeiro lugar”. Aguarda-se a primeira fogueira de livros “comunistas”

Como se confirmou, o discurso de Bolsonaro, seguido de uma coletiva tosca, não foi de união nacional, foi de divisionismo. Demonizou o “comunismo” e o “esquerdismo” e propôs, num discurso sem máscaras – transmitido em tempo real de sua casa, pelas redes sociais, com sua mulher de um lado, e uma tradutora de sinais, do outro -, que o “Exército” do país “marche” em sua só direção. “Não poderíamos mais continuar flertando com o populismo, o esquerdismo e o socialista da esquerda”, disse. Bolsonaro dividiu o país no voto e mostra que, votos contados, continuará mantendo essa divisão. Isso não tem precedentes em um país democrático – coisa que não somos, como se sabe, desde o impeachment fake de Dilma Rousseff por pedaladas fiscais.

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Ciro, o Cabra Frouxo, que preferiu admitir Bolsonaro e calcular uma candidatura para 2022, a apoiar Haddad no segundo turno. Enterro político e desonra a Leonel Brizola

A responsabilidade é de todos nós, que não fizemos o suficiente. De erros de estratégia política. Mas, principalmente, de um conluio entre um momento político atípico, a intromissão parcial da mídia cartelizada, uma eleição manchada por fake news pelo candidato da direita e um tempo curto demais para criar uma alternativa para as forças progressistas. Haddad e Manu mostraram-se, ao fim, as pessoas certas, mas faltaram alguns dias para a virada que se desenhava. E sobraram traições. Ciro Gomes, um Nordestino, região que liderou a resistência, se omitiu no segundo turno, traindo seu estado, o Ceará, sua região, a memória de Leonel Brizola, do PDT, seu partido de ocasião. Cabra frouxo que preferiu assumir o risco do país eleger Bolsonaro para ter alguma chance em 2022. Vai para o cadafalso dos traidores da Pátria.

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O inglês Roger Waters, fundador do Pink Floyd, zelou em seu tour por nossa democracia, em seu pelo Brasil, mais do que muitos brasileiros. Esfregou o #Elenão até na cara dos fascistas de Curitiba, 30 segundos antes da proibição de manifestações imposta pelo TSE

Ficam cenas (ainda ouvindo Waters) como o Estádio Major Antônio Couto Pereira, em Curitiba, penúltimo show da turnê de Roger Waters, fundador do Pink Floyd, que não se acovardou diante das ameaças de Bolsonaro e de ações judiciais que pediram para que não emitisse opiniões sobre as eleições. O #Elenão voltou ao telão do show, por 30 segundos, antes das 22h. Faltaram alguns minutos, Roger. Mas na próxima conseguiremos. Tudo uma questão de Time.

 

Vira, virou: campanha formiguinha vira votos e esclarece indecisos contra o fascismo. Haddad está perto de ser eleito

Você esperava mais de Ciro Gomes, em sua platitude política? Que ele, por exemplo, diante da perspectiva de que um fascista como Bolsonaro fosse eleito, apoiasse Haddad – como fizeram, por exemplo, os antipetistas Rodrigo Janot e Joaquim Barbosa, para citar duas adesões recentes, entre tantas outras? Que subisse no palanque final com Haddad, alavancando a virada que se anuncia? Que ao menos postasse um vídeo nas redes sociais deixando claro seu apoio a Haddad? Um telegrama, pelo menos – ainda existem telegramas? Uma mensagem psicografada, quem sabe. Eu já disse que os eleitores de Ciro são muito melhores do que ele, como os eleitores de Haddad são melhores do que o PT. Ciro, na véspera da eleição mais importante da história recente do país, fez como o flácido João Doria(na): flagrado na suruba, gravou um vídeo ao lado da esposa defendendo a família e, claro, culpando o PT. Nas redes sociais, o candidato derrotado à Presidência do PDT, de volta ao Brasil após viagem à Europa, não declarou apoio a Haddad, como parte da militância de esquerda ainda esperava, e disse que vai “preservar um caminho” para que os brasileiros possam ter uma “alternativa”. O pedetista reconheceu que “todo mundo preferia” que ele “tomasse um lado e participasse da campanha”, mas ressaltou que não o faria. Seguiu a linha já desenhada pelo irmão Cid, senador eleito graças ao PT, e que, traiçoeiramente, usou um ato público de apoio ao PT para exigir “desculpas” do partido. Não há dúvidas. Ciro não se importa que Bolsonaro seja eleito, desde que ele esteja no páreo em 2022. Por isso, vou repetir, sem pretender ser messiânico: não esperava outra coisa de Ciro. Minha esperança está em seus eleitores. E nos indecisos – que visivelmente podem e precisam ser esclarecidos, ainda que no trajeto para a urna.

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Letícia Sabatella montou uma banca no centro do Rio de Janeiro; a ex do omisso Ciro Gomes, Patrícia Pillar, se disponibilizou para o diálogo; Leticia Colin e Luisa Arraes também foram para a rua conversando com as pessoas e virando voto; Herson Capri foi às ruas pra dialogar com as pessoas e virar voto; Leandra Leal, Marina Person, Laura Carvalho e Renan Quinalha montaram sua frente da virada do Centro de São Paulo, assim como Mariana Lima, Enrique Diaz e Maria Flor, viraram votos nas ruas; Guta Stresser escolheu como frente o Metrô da Barra, no Rio; Paulo Betti, militante histórico, panfletou e virou votos.

Na virada deste sábado para domingo, completei com um táxi uma corrida para casa. Estava com meus filhos, voltando do Maracanã. Pensava na segurança deles, desconsiderando a dor no bolso. Moro no Rio de Janeiro e entre o Maracanã e a Barra da Tijuca há um mundo de desigualdade e medo que todo o Brasil conhece bem. Na reta final da corrida, já com os filhos na casa da mãe, eu e o taxista, um morador do subúrbio do Rio, mudamos o tema de futebol – ele Vasco, eu Flamengo – para política. Quando a corrida se encerrou, meu amigo continuava Vasco, nem pretendi o contrário, mas deixou de ser um indeciso, propenso a votar em Bolsonaro, ou um potencial voto em branco. Havia compreendido que Haddad era a melhor opção para o país. O vira-vira foi intenso nos últimos dias, do trabalho de formiguinha nas redes sociais até campanhas de rua, inclusive com a presença de artistas, que convidavam os indecisos a refletir. Com diálogo e olho no olho, banquinhas, afeto e muita paciência, se mobilizaram nas ruas de diversas cidades do Brasil e se disponibilizam a conversar com eleitores indecisos. Tudo pela onda da virada, que acredito ser real, e não uma fantasia da minha bolha social. O instituto Vox Populi, o que mais se aproximou do resultado real no primeiro turno, mostra um empate, com uma poderosa onda pró-Haddad. Podemos virar neste domingo. Acredite.

A virada começou. Haddad será presidente

Não, não sou vidente. E obviamente nesse título tem voto, tem torcida e tem uma mensagem para você: não desmobilize. Não vá na onda dos institutos de pesquisa, relativize o que você lê na mídia tradicional, ignore as fake news, tente reverter um voto que seja – começando dentro de casa – e não deixe de votar no domingo, 28. Em Haddad e Manu, obviamente. Mas também não é só torcida. A visão emocionante da multidão nos Arcos da Lapa, no Rio, na terça, 23, mais do que um ato de enorme simbolismo e exemplo para o país, chamado não por acaso de “Ato da Virada” em apoio a Fernando Haddad, encharca os democratas – não apenas esquerdistas, a luta se tornou maior, você sabe disso – de esperança e respaldam um sentimento de há uma mudança no ar. Haddad e Manu tornaram-se maiores do que Lula e o PT – vejam que forma tortuosa de minimizar o antipetismo insuflado pela mídia, pelos eleitores que tiraram o ódio do armário e pelo exército de fake robôs tolerados pela Justiça Eleitoral, agredida nesta reta final até o limite do intolerável. Tornaram-se a única alternativa ao ao ódio, ao preconceito e ao retrocesso representados, com todas as medalhas coloridas e sem glória, pelo casal 20 do fascismo Bolsonaro-Mourão. Os apoios enrustidos de Ciro Gomes e Marina Silva – “apoio crítico” numa hora dessas é quase omissão – ajudaram, assim como o apoio de peito aberto de Guilherme Boulos. Mas, propaganda eleitoral à parte, foram Bolsonaro, filhos e apoiadores que têm feito o trabalho de desconstrução de si mesmos – ao contrário do papelão do PT com Marina Silva nas eleições passadas -, mostrando-se sem pudor com os antidemocratas que são. Sim, eles são assustadores. Sim, eles representam a volta às trevas.

Para não dizerem que não falei de números, usemos a matemática insuspeita de quem não quer a virada – mas não pode se desmoralizar. A vantagem de Bolsonaro sobre Haddad nas intenções de voto espontâneas caiu sete pontos porcentuais entre as duas pesquisas realizadas pelo Ibope no segundo turno. Embora mantenha a liderança em todas as abordagens, o Coiso teve uma queda mais acentuada nas menções em que os entrevistados dizem em quem pretendem votar sem serem estimulados com os nomes dos candidatos. Passou de 47% das intenções de voto espontâneas na pesquisa divulgada em 15 de outubro para 42% no levantamento divulgado na terça, 23. Caiu, inclusive, entre os evangélicos – apesar dos esforços dízimos de Edir Macedo, Universal e Record. O sincericídio torpe da trupe da caserna parece estar vencendo os púlpitos. Haddad, por sua vez, passou de 31% para 33% entre as duas pesquisas — a diferença entre os dois caiu de 16 para 9 pontos porcentuais. A movimentação dos dois candidatos também se repetiu nos votos válidos, que leva em conta a pesquisa estimulada e descarta os votos em branco, nulos e indecisos. Bolsonaro passou de 59% para 57% enquanto Haddad foi de 41% para 43%. No quesito rejeição – esse é um dado crucial porque ajuda a mergulhar o pântano dos indecisos, por mais filtros que se coloque – Bolsonaro subiu de 35% para 40%, salto de 5 pontos percentuais. Em contrapartida, a rejeição a Haddad diminuiu de 47% para 41%, baixando 6 pontos, números que favorecem o candidato da Coligação “O Povo Feliz de Novo”.

Tem mais. Enquanto Haddad segue massacrando Bolsonaro no Nordeste, o que tende a ser ampliado no mata-mata do segundo turno, a guerra do Sudeste-Sul também dá sinais sólidos de mudança. Na capital de São Paulo, o ex-prefeito Haddad já aparece com 51% dos votos válidos, ultrapassando os 49% dos votos de Bolsonaro – segundo o mesmo Ibope. Algo está se movendo e, no caso de São Paulo, já foi apelidado pela mídia de “Bolsodoria”. O voto casado em Bolsonaro para presidente e Doria para governador, micou. Segundo o Ibope, a dupla Fascistão e Milionário tem nesse momento pior desempenho entre os paulistanos do que entre os moradores do interior de São Paulo. Na capital paulista, Haddad chega a estar numericamente à frente de Bolsonaro, enquanto Márcio França, candidato do PSB e adversário de Doria na disputa estadual, lidera com 18 pontos de vantagem em relação ao tucano. Memória breve: Doria renunciou ao cargo de prefeito para disputar o governo do estado pouco mais de um ano depois de assumir, em 2017, mesmo tendo se comprometido a ficar na prefeitura até o fim do mandato. A onda de ódio espalhada pelo capitão-fujão de debates incomodou de tal forma que o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do PSDB Alberto Goldman afirmou nesta quarta, 24, que irá votar em Haddad para presidente. Em um vídeo e texto publicados em sua página no Facebook, Goldman disse que “votará em Fernando Haddad contra a ameaça aos valores democráticos”. Dessitiu de votar nulo. Mais gente insuspeita tem feito essa reflexão.

Enquanto isso, naquele país que corremos o risco de ser amanhã – e onde até a mídia do país compara Trump a Bolsonaro – o envio de pacotes com explosivos direcionados a críticos do presidente norte-americano está consternando a sociedade norte-americana. A distribuição dos artefatos começou na segunda, 22, e teve como alvos membros ou apoiadores do Partido Democrata – oposição a Trump. Depois disso, foram “presenteados” George Soros, doador de campanha dos democratas, no estado de Nova York, o ex-presidente Bill Clinton r Hillary Clinton, adversária de Trump nas eleições de 2016, e o escritório do ex-presidente Barack Obama. “Violência política não têm lugar nos EUA”, diz agora Trump, porteira arrombada. Alguém aqui se lembra como Bolsonaro começou a aparecer na mídia?

Apocalipse: Ibope aponta vantagem dos mortos-vivos. Só resta a Ciro parar de pensar com o fígado e usar a cabeça. E Haddad trocar o coração pelos punhos

Por mim, bastava o título, mas, mesmo cansado, vou escrever um pouco mais. Não vou entrar no armário da pesquisa Ibope desta noite, “a primeira pesquisa de intenção de voto para presidente no 2º turno”, destaque na escalada do Jornal Nacional, manchete de todos os jornais amanhã, festa na bolsa, o mercado tendo orgasmos múltiplos, as multinacionais do petróleo dando banquetes, o comando das Forças Armadas vertendo lágrimas em suas fardas com medalhas sem guerra. Ou vou. Um pouquinho. O resultado  – partindo da premissa de que os números são confiáveis e não estratégia de desmobilização – quase confirma, há duas semanas das eleições, o apocalipse zumbi com a volta dos mortos vivos fardados, junto com os neoliberais disfarçados com sangue e tripas (alguém aqui assiste Walking Dead?), com capitães mandando em generais, economistas medíocres se lambuzando com planilhas, e eleitores mostrando que o antipetismo evoluiu para uma imbecilidade política que beira a demência. De resto, é ditadura igual, e, se não questiono a urna eletrônica, ao contrário do Bolsonaro – não mais, pelo jeito -, questiono a inteligência de quem a usa. Se, e se, os resultados do ibope – e pesquisas similares – estiver correto.

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No Dia dos Professores, o professor Haddad homenageou os mestres, deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro e antecipou que um general reacionário que defende revisar currículos e bibliografias usadas nas escolas, que pode ser seu ministro da Educação. Ciro? Ah, Ciro viaja…

Nos votos válidos, os resultados foram os seguintes, segundo o Ibope: Jair Bolsonaro (PSL): 59%, Fernando Haddad (PT): 41%. A rejeição a Haddad (“Não votaria nele de jeito nenhum”) chega a 47%, ultrapassando os 35% de Bolsonaro. Como é que é? Isto não é uma pesquisa, é um diagnóstico de tumor. Coordenador da campanha de Fernando Haddad à Presidência, o ex-governador da Bahia e senador eleito Jaques Wagner afirmou que a melhor estratégia para uma vitória na corrida presidencial seria o lançamento de Ciro Gomes (PDT) ao Palácio do Planalto. Peraí, o que eu não entendi? É fogo amigo ou traição – pura e simples? Ou existe mesmo um plano para levar Ciro Gomes triunfante de seu exílio de uma semana na Europa para transforma-lo no candidato da “frente-de-centro-esquerda-capaz-de-derrubar-o-fascista-bolsonaro”? Foi proposta da ex-candidata a vice de Ciro, senadora Katia Abreu, que sugeriu a substituição de Haddad por Ciro Gomes para “garantir a eleição”. Qual o jogo de Wagner? Qual o jogo de Ciro? Os eleitores do PT e de Ciro concordam com isso? Agora? Isso já não é curso de línguas, é aprender chinês em 15 dias.

Era o Dia dos Professores, e o professor Haddad deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o educativo Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro, uma das polícias mais truculentas do mundo – incensada pelo “Tropa de Elite” de Padilha, de “O Processo” -, e antecipou que um general reacionário pode ser seu ministro da Educação. Trata-se do general Aléssio Ribeiro Souto, já velho conhecido da campanha, que diz que “é muito forte a ideia” de se fazer ampla revisão dos currículos e das bibliografias usadas nas escolas para evitar que crianças sejam expostas a ideologias e conteúdo impróprio. Ele defende que professores exponham a “verdade” sobre o “regime de 1964” – revisionismo histórico, 1984, George Orwell, já falei disso aqui -, narrando, por exemplo, mortes “dos dois lados”. Ex-chefe do Centro Tecnológico do Exército, foi chamado a coordenar debates de ciência e tecnologia, mas acabou acumulando educação “por afinidade”. Contrário à política de cotas, defendeu o Estado de S.Paulo a “prevalência do mérito” e disse que, se a ideia for aceita por Bolsonaro, serão estudadas medidas “não traumáticas” para substituir as regras”.

Em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, Bolsonaro resumiu: o objetivo de seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. É um visionário, com os olhos no retrovisor. Estamos fodidos se esse cara for eleito. Até esse momento, a campanha torpe de Bolsonaro, rei das fake news, fujão de debates, conseguiu amplificar a PTfobia, e os petistas não conseguiram desconstruir a farsa que é Bolsonaro, nem contaram com os aliados de quem esperavam, pelo menos, decência.

Marielle vive. Não o fascismo

Marielle vive, apesar da impunidade do estado e da polícia, de Bolsonaro e seu candidato de direita ao governo do Rio, Heil Witzel – que participou, junto com dois candidatos do PSL, os ogros Rodrigo Amorim e Daniel Oliveira, da cerimônia fascista que quebrou a placa de rua que simbolicamente homenageava a vereadora do Psol ASSASSINADA no dia 14 de março no Estácio, região central da cidade – e, apesar do país grotesco em que estamos nos convertendo. Resistir é preciso, nos lembrou Roger Waters.

Neste domingo, 14, em ato em homenagem a Marielle, executada junto com o motorista Anderson Gomes, manifestantes distribuíram mil placas com o nome da parlamentar na Cinelândia, onde ficava a placa arrancada e depois destruída em comício em Petrópolis. Uma resposta esplêndida aos fascistas. Houve protesto contra o presidenciável Jair “Fujão de debates” Bolsonaro, do mesmo partido (“Ele não!)”, e gritos de apoio a seu oponente, Fernando Haddad (PT) (Haddad sim!). “Fascistas, fascistas não passarão!”, gritaram os manifestantes, exibindo as placas, no início da tarde, na capital fluminense.

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Hei Witzel, o candidato fascista ao Governo do Rio, que cercado de dois ogros candidatos do PSL, realizou uma cerimônia fascista em Petrópolis para destruir a placa que homenageava a vereadora assassinada Marielle Franco. Covardes e seres humanos abomináveis. No canto direito, o brasão alemão da família Witzel

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, participou do ato na Cinelândia, e ajudou a distribuir placas que, por orientação dos manifestantes, não foram penduradas nas ruas, mas guardadas “como memória”. Em minutos, as placas acabaram. Além de Mônica, estiveram presentes os pais da vereadora, Marinete da Silva e Antonio Francisco da Silva Neto, e parlamentares, como os deputados Marcelo Freixo e Jandira Feghali, além do ex-deputado Chico Alencar.

A campanha, veja só, foi promovida pelo site Sensacionalista, um noticiário satírico eletrônico, que propôs a campanha – essa, séria – “Eles rasgam uma, nós fazemos cem”, mas acabaram arrecadando o suficiente para mil placas. O objetivo inicial era conseguir R$ 2 mil, que seriam usados para a confecção de 100 placas. Em 20 minutos ele foi atingido. Chegaram a R$ 39.743, com 1.569 doadores – pessoas físicas e jurídicas.

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Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, participou de ato na Cinelândia, no centro do Rio, que distribuiu mil placas de rua em homenagem à vereadora executada em 14 de março; Mil placas foram confeccionadas com a iniciativa do site Sensacionalista, na campanha “Eles rasgam, nós fazemos”. Momento democrático em tempos fascistas

O ato foi a segunda homenagem a Marielle em dois dias. Na véspera, a Estação Primeira de Mangueira escolheu o seu samba-enredo para o carnaval de 2019. Adivinhe? O enredo “História para ninar gente grande”, de autoria do carnavalesco Leandro Vieira, se propõe a contar a história do Brasil e citará a vereadora assassinada.

Reviravolta no ar: o ódio está criando o medo – e o medo dessa vez, não só a esperança, pode derrotar o cramunhão

Os sinais estão em toda parte. Suástica tatuada com canivete na pele de uma jovem gaúcha, a placa de Marielle destruída – com a presença de um candidato ao governo do Rio, Heil Witzel, que apoia o Coiso -, o capoeirista Moa do Katendê morto a facadas após declarar voto no PT, o estudante curitibano agredido por um grupo em frente à reitoria da Universidade Federal do Paraná por usar um boné do MST, e muitos, muitos, casos, ao seu redor, ao nosso redor, não noticiados pela mídia que tenta forjar imparcialidade que nunca teve diante de candidatos tão desiguais. Em Pernambuco, uma jornalista foi agredida e ameaçada de estupro por dois homens depois de votar e disse que um deles vestia camisa do candidato do PSL. Só neste ano, segundo levantamento da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), foram registrados 137 de alguma agressão casos a jornalistas que cobrem a campanha.

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O ódio versus a Esperança. Mais nada.

Não por acaso, as agressões vêm do mesmo lado, o do candidato que defende armas para todos, ensina crianças de colo a atirar usando os dedinhos miúdos, metralha petistas no palanque com um tripé convertido em arma mortal (“Vamos fuzilar a petralhada”), defende torturadores e quer forrar a Esplanada de generais. E que sofreu, na pele, infelizmente, uma facada desferida por um dos debeis mentais que entraram nessa onda (ouça Bob Fernandes). Evocado por autores de atos de violência ocorridos em diversos locais do país nos últimos dias, o presidenciável do PSL disse que lamenta – com pouquíssima ênfase -, mas não tem como controlar o que chamou de “casos isolados”. E continuou seu discurso de ódio, de separatismo, de dissensão, de conflito.
Sento para almoçar. Uma mulher apavorada conversa com a amiga ao celular.
– O cara cismou que eu era gay e queria me agredir, o que posso fazer – diz a mulher ao telefone, com a amiga, lágrimas nos olhos.
Não consigo ouvir a amiga do outro lado, mas conversa-se um tempo sobre grupos de whatsapp e sobre pessoas pobres votando no Coiso.
– Ela não mora em Nilópolis? Casou com um negro? E é Bolsonaro?
Risos nervosos.
– O clima nesse país… eu nunca vi isso. É um clima de ódio, de preconceito, de perseguição que não tem paralelo.
A amiga pegunta algo sobre PT.
– Amiga, eu nunca votei no PT, nunca. Mas vou votar agora. Esse Bolsonaro não pode ser eleito. É o fim do pais.
A amiga argumenta.
– Não adianta. Eles só querem ouvir o que é igual ao que eles falam. Não querem dar ouvido ao que os outros falam. Eles são a cara do ódio. Me sinto na Alemanha nazista.
O país, que já viveu chacinas, como Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Corumbiara, Taquaril, Eldorado de Carajás, o país dos grupos de extermínio, das milícias, da polícia que mais mata, tem a chance final, em algumas semanas, de não tornar sua violência institucional e política de governo.

No deserto eleitoral brasileiro, a ordem hoje é desidratar Bolsonaro

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Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha, o vaqueiro nordestino que, em meio a uma discussão com um coronel, acaba matando-o e tem que fugir com sua esposa. Não precisamos chegar a tanto, é só exumar Exu.

Deus e o diabo na Terra do Sol, ou Haddad – ou Ciro – versus Bolsonaro, o “Coiso”, no Brasil que começa a ser reconstruído ou destruído neste 7 de outubro de 2018. Eu desço na portaria do prédio, estão o porteiro boa praça e o conhecido entregador do iFood, o almoço das crianças na bolsa térmica.
– Vocês vão votar em quem?
Não gosto de peguntar isso. Tenho medo do que vou ouvir. E me sinto invasivo. Não quero catequizar ninguém. Mas não me contenho. Nenhum deles tira mais do que 3 mil reais por mês, com bicos e tudo. Sei, por conversas anteriores, que moram longe, três, quatro horas para chegar ao trabalho todo dia – eu levo uma hora e meia, de ônibus e metrô -, vivem com dificuldade, pagam as contas por milagre. Sorridentes, os dois respondem juntos:
– Bolsonaro.
– Mas gente, pelo amor de Deus. Vão votar em um cara que defende tortura, quer a volta da ditadura, detesta mulheres, negros, gays, quer armar quem não sabe usar estilingue, enriqueceu na política junto com os filhos, que montar um Estado Fundamentalista – tive vontade falar de “Conto da Aia”, achei demais. Chegava outro porteiro. E nunca administrou nem condomínio! Isso se o General Vice não der um golpe – já viu Capitão mandar em General?
Sei que falei rápido demais. Eles se olham. A conclusão era lógica: eu era louco ou petista. O “cirista” não atingiu, ainda, o grau ofensivo do “petismo” pra quem está do outro lado. O “coiso” deles é o petismo. E eles mal conhecem o Haddad.
– Não voto no PT – diz um deles.
– O Haddad não fez nada como prefeito de São Paulo, arrisca o outro.
Onde vendem as cartilhas que distribuem pra essas pessoas? É pior que lobotomia – “Laranja Mecânica” e “Um Estranho no Ninho” perdem. Curso de behaviorismo nas escolas! Os 8 segundos no horário gratuito do TSE não podem ter feito tudo isso, nem os minutos extras doados por Edir Macedo na Record, o que o editor da Piauí, Fernando de Barros e Silva, no podcast Foro de Teresina chamou de “momento edição do debate Collor x Lula da TV Record”. Ele se referia à edição, no Jornal Nacional, que às vésperas da eleição de 1989, fez parecer que Collor havia tido uma vitória no debate bem maior do que a real. Na noite de quinta, 04, a Igreja Record do Reino de Deus concedeu ao capitão em suposta licença médica um imenso espaço, roubando parte da audiência do debate em que os outros estavam, e não concedendo nada nem de perto equivalente aos adversários.
– Pessoal, onde vocês leram que o Haddad foi mal prefeito? Ele foi ótimo (eu não tinha números, mas tinha na manga, se precisasse, as ciclovias, corredores e faixas exclusivas para ônibus, menos mortos e feridos em acidentes de trânsito, Rede Hora Certa, saneamento financeiro….). Quem foi bom prefeito, o Doria, o Kassab, o Serra, o Pitta, esse menino Bruno Covas? Gente, neto de Mário Covas, o que houve com essa geração, na hora em que mais precisamos.  Como escreveu Helena Chagas, no Divergentes, há um simbolismo entre esse reencontro com as urnas, em que dois projetos antagônicos de Brasil se chocam, e os trinta anos da Constituição cidadã de Ulysses Guimarães.

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Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha.  Que país sairá do primeiro turno? E do segundo?

Senti que não sabiam quem eram essas pessoas, afinal, moram no Rio, sua geopolítica. O entregador fez menção de ir embora, o porteiro começou a mexer em correspondências. Estava perdendo a atenção deles.
– Peraí, pessoal, vamos lá.
Encostei no balcão.
– Votem em quem vocês quiserem (tem sido meu recurso definitivo, meu final blow (Dragonball, pessoal). O PT errou, errou? Quem não errou? (Tive vontade de falar que prenderam o Lula sem provas e que Dilma foi catapultada num golpe parlamentar, mas senti que não havia tempo para isso). Mas vejam que é o presidente? Temer. Com o apoio do PSDB. OK, não querem o Haddad, votem no Ciro.
Percebi uma hesitação. O entregador admitiu que não ia poder votar em Bolsonaro porque o título dele é do Nordeste, e ele nunca transferiu. Há esperanças – e ela está nos detalhes. O porteiro piscou. Achei isso bom na hora.
Subi, banho para ir votar, com os filhos a tiracolo. Leio que os trackings mostram um crescimento do Ciro. E que as pesquisas mantém o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad. O tamanho da diferença entre os dois, na virada para o segundo turno, vai contar muito. É preciso desidratar o “Coiso”. E que Haddad ou Ciro, sabe-la Deus, quem passar para o duelo final, apoie rapidamente e claramente o outro. E, claro, que a maioria dos eleitores acompanhe. Só os dois juntos no segundo tuno vão impedir que a terra se abra e saia de lá um filme catástrofe. A TV anuncia a nona temporada de Walking Dead. Não sei se isso é um sinal. A essa altura sou capaz de pedir votos para nulidades como Alckmin, Meirelles e Amoêdo. Álvaro Dias não dá. Ele me lembra o Coringa, e sempre torci pro Batman.
Sites e portais fazem suas coberturas triviais, no piloto automático – como votaram os candidatos – “Ciro vota e diz estar confiante na chance de ir para o 2º turno”, ”
Cercado de aliados, Haddad vota em São Paulo”, “Bolsonaro vota e diz acreditar que vencerá no 1º turno”, “Quem for eleito é a vontade do povo’, diz Temer após votar em SP” – Quem é Temer mesmo? Filas pra votar, eleitores levados para delegacias por suspeita de crimes eleitorais, “agora é com você, eleitor”, mancheta o Uol.
Hashtag Medo.

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Ao compartilhar vídeo nas redes, e coloca-lo no intervalo do debate na Globo, a Burger King, com sua campanha “Whopper em Branco”, quis dizer que não apoia nenhum candidato nas eleições 2018. Não é mais do que obrigação, mas a campanha é risível – pão, cebola e maionese é o voto em branco – e confusa, já que prega sim que não se vote em branco, o que é um direito de qualquer um.

Ah, a campanha oportunista – mas publicitariamente bem intencionada, mas equivocada – do Burguer King, no intervalo do debate da Globo, incentivando “voto consciente”, desculpem as duplas de criação, é confusa. Parecem incentivar o voto em branco – um hambúrguer feito apenas de pão, cebola e maionese, a metáfora gastronômica do século – e não tal “voto consciente”. No vídeo, produzido pela agência David, pessoas explicam por que pretendem votar em branco nas eleições — a empresa jura que são depoimentos reais, gravados em São Paulo na semana passada – ah, Sampa. Preste bem atenção, a campanha é contra o voto em branco.

Moro Dredd, o exterminador de petistas, faz Palocci refém e tenta balear Haddad

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Em um mundo dominado pela miséria e corrupção, e onde a justiça e a lei precisaram ser dissolvidas, o juiz Moro Dredd, usando o bordão “Eu sou a lei!”, atira para matar. No último episódio dessa saga, ele sequestrou Antonio Palocci e, mesmo contra o Ministério Público, que não viu provas na sua “delação implorada”, divulgou para a mídia uma série de ilações, sem qualquer prova. Isso – tchan, tchan, tchan! – na semana de eleições presidenciais e afetando um dos candidatos presidenciais e o partido que odeia.

O mundo dos quadrinhos está de luto. Carlos Ezquerra, cocriador do Juiz Dredd, faleceu nesta segunda-feira, 01, aos 70 anos. Ezquerra criou o famoso anti-herói ao lado do escritor John Wagner, que ganhou adaptações cinematográficas com Sylvester Stallone e Karl Urban no papel título. Dredd é um vingador em um mundo apocalíptico, dominado pela violência, miséria e crimes, e onde a justiça e a lei precisaram ser dissolvidas. Ele assume com uma força tarefa a nova ordem e usa o bordão “Eu sou a lei!” – antes de executar sua vítima da vez. A tal “força de pacificação”, com alto poder de fogo e licença para prender, julgar, condenar e executar os criminosos na própria cena do crime, são os tais “Juízes”. Não, o cenário não é Curitiba, mas o que seriam as antigas cidades de Boston e Washington, e a força tarefa não se chama Lava Jato. Mas no nosso mundinho político, acovardado por acusações que vem até do hiperespaço, reapareceu a versão tupiniquim do juiz exterminador, Moro Dredd, em mais uma demonstração de que está mais para justiceiro aniquilador de petistas do que para um magistrado isento, independente, equilibrado, enfim, essas coisas fora de moda.

Mas por que estamos falando de Moro Dredd se a Lava Jato foi para as cucuias desde que o ex-presidente Lula foi encarcerado e impedido de participar do processo eleitoral e Dallagnol, Santos Lima e a oligarquia do MP sumiram do mapa (não acredite nos boatos de que prestam serviço pro bono para a campanha de Álvaro “Botox” Dias)? Ah, é que Moro Dredd, a seis dias das eleições, decidiu sequestrar Antonio Palocci, o alvo que lhe pareceu mais óbvio, e, acreditando poder atingir o PT e Haddad, mandou retirar o sigilo de parte do pré-acordo de delação “implorada” do ex-ministro no âmbito da Operação Lava Jato – o que, obviamente, ganhou a mídia proporcional que se esperava. Embora tenham sido feitas há quase sete meses, e rejeitadas pelo Ministério Público Federal (!) por inconsistência total e absoluta, as delações sem provas foram acolhidas pelo juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, nesta segunda. Nada será provado, evidentemente, o que vale é o “barulhinho bom” na mídia e, com sorte, algum estrago na campanha, de modo que prejudique o PT odiado por Moro e a parte da sociedade que ele representa. Não vou sequer me dar ao trabalho de repetir as acusações, quem quiser que leia no seu veículo preferido. Em agosto, o STF decidiu que delações sem provas devem ser sumariamente arquivadas, mas Moro Dredd, claro, está acima disso.

Em nota, a defesa do ex-presidente Lula afirmou que “Palocci mentiu mais uma vez, sem apresentar nenhuma prova”. Os advogados dizem ainda que a decisão de Moro “apenas reforça o caráter político dos processos e da condenação injusta imposta ao ex-presidente” e que o juiz “tem o nítido objetivo de tentar causar efeitos políticos para Lula e seus aliados”. A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que Moro “não podia deixar de participar do processo eleitoral” e que ele tenta “pela enésima vez destruir Lula”. Palocci está preso desde 2016.

Como escreveu, em nota, a ex-presidente Dilma Rousseff, uma das citadas, o que fica evidente é que a negociação feita por essa delação implica que Palocci, depois de pagar R$ 37,5 milhões, poderá “requerer ou representar ao juiz pela concessão de perdão judicial”, ter reduzida “em até dois terços a pena privativa de liberdade e/ou sua substituição por restritiva de direitos” e, ainda, “a suspensão do processo e do prazo prescricional”. Um negócio da China – ou melhor, de Curitiba.

Não acredito em bruxas, golpes e Bolsonaro – mas eles existem

“Estou voltando com muito mais gás do que quando aconteceu o episódio”.
Jair Bolsonaro, sem trocadilhos, que segue internado pelo menos até o fim de semana e sonha participar de algum debate em um provável segundo turno.

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“Não posso falar pelos comandantes militares, respeito todos eles. Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição.” Jair Bolsonaro convoca o golpe, e cita os chefes militares, em entrevista em seu quarto no hospital Albert Einstein, em São Paulo, a José Luiz Datena, do programa de televisão Brasil Urgente, da TV Band – a Band de Boechat, de Mitre, que se prestou a isso.

Em outubro de 2014, encerrada a votação que consagraria Dilma Rousseff presidente reeleita do Brasil, Aécio Neves, ainda movido por uma chama ética, falou sobre a sua derrota cercado de correligionários e puxa-sacos. É sempre interessante relembrar as palavras de Aécio logo após o pleito de 2014 (Reveja o insuspeito boletim eleitoral da Globo). “Combati o bom combate”, disse. Em novembro, falava em “oposição incansável e intransigente”. Logo depois, o mineiro e seu partido mudariam a estratégia, pediriam recontagem dos votos e anunciariam uma auditoria – que concluiu que não houve fraude. Era só uma senha. Em dezembro, Aécio diria à Globo que não foi derrotado por um partido político, e sim por uma “organização criminosa”. Olha a Lava Jato aí, gente! – Lula está preso e Aécio soltinho, só para lembrar. O PSDB, como reconheceu Tasso Jereissati recentemente, ainda paga o preço de não aceitar o resultado do pleito de 2014, trabalhar para derrubar Dilma, boicotando-a no Congresso, e depois apoiar o governo Temer. Dia 28 de setembro, quase outubro de 2018. Bolsonaro, projeto de ditador, incentiva o golpismo ao perceber que vai para o segundo turno com o petista Fernando Haddad, em desvantagem – ele decai, o adversário arranca.

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Outubro de 2014. Aécio Neves fala sobre a sua derrota para Dilma Rousseff nas eleições para presidente do Brasil. “Combati o bom combate”, disse. Logo depois, o mineiro e seu partido mudariam a estratégia, pediriam recontagem dos votos e anunciariam uma auditoria – que concluiu que não houve fraude. Foi pouco. O PSDB, como reconheceu Tasso Jereissati, ainda paga o preço de não aceitar o resultado do pleito de 2014, trabalhar para derrubar Dilma, boicotando-a no Congresso, e depois apoiar o governo Temer. Reprodução/TV Globo.

“Não aceito resultado diferente da minha eleição”, afirmou Bolsonaro, “mito” do PSL, em entrevista em seu quarto no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde está internado desde o começo do mês. O entrevistador, escolhido a dedo, foi José Luiz Datena, do programa de televisão Brasil Urgente, da TV Band – a Band de Boechat, de Mitre, que se prestou a isso (Assista se tiver estômago). Bolsonaro deveria ter tido alta, não teve. Nada melhor que, diante do vice boquirroto e da capa de Veja, corroendo sua reputação e sua candidatura, inventasse um “Bolsonaro na UTI Exclusivo”. Bolsonaro é o Aécio hoje, só que com clarevidência e apoio militar. Não por acaso citou os “comandantes militares” como testemunhas – praticamente avalistas – de sua candidatura. A irresponsabilidade disso é tão grave que transforma o mal perdedor Aécio numa freira carmelita descalça. Não aceitar o resultado das urnas, e convocar os militares em sua defesa, é um escancarado apelo pela não aceitação do resultado legítimo das urnas, consequentemente da reação golpista. Se isso não tiver uma reação à altura, inclusive da Justiça Eleitoral, estaremos todos não apenas desmoralizados, mas perdidos. Preparem-se porque o pior pode estar por vir. E isso não é história de bruxa.

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Eduardo Bolsonaro, filho do mito”, entrevista o juiz Eduardo Luiz Rocha Cubas, do Juizado Especial Federal Cível de Formosa (GO), que pretendia conceder uma liminar em uma ação popular que questiona a segurança e a credibilidade das urnas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou temporariamente o juiz de suas funções porque pretendia – leia duas vezes – determinar que o Exército recolhesse urnas eletrônicas na véspera das eleições. Youtube/Reprodução

Uma nota de rodapé – só força de expressão – que mostra a gravidade da situação. Nesta sexta, 28, à noite, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou temporariamente das funções um juiz que, segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), pretendia determinar que o Exército recolhesse urnas eletrônicas na véspera das eleições. De acordo com a AGU, o juiz Eduardo Luiz Rocha Cubas, do Juizado Especial Federal Cível de Formosa (GO), pretendia conceder uma liminar em uma ação popular que questiona a segurança e a credibilidade das urnas. Há poucos dias, o tal juizeco de Formosa deu uma “entrevista”  sobre candidaturas avulsas ao filho de Jair Bolsonaro, Eduardo. Cubas falava na condição de presidente da Unajuf – União Nacional dos Juízes Federais – que, pasmem, colocou em seu site uma nota de solidariedade a Bolsonaro (Leia) e defendeu, numa campanha chamada “Por um Brasil Melhor”, candidaturas “não políticas e partidárias” e sim “candidaturas cívicas”.

Acredita em bruxas agora?