Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio

“Agora acordei para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando exterminaram o Congresso. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. (… )”.
Trecho de fala da atriz Elizabeth Moss, protagonista e co-produtora da série ‘O Conto da Aia’, série distópica baseada em livro homônimo de Margareth Atwood. Temporada 1.

A redação do Enem 2018 – o Exame Nacional do Ensino Médio, o maior vestibular do Brasil, utilizado para avaliar a qualidade do ensino médio no país e porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras – teve como tema a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema não surpreendeu professores, que apostavam em uma redação girando em torno de fake news, um dos temas mais polêmicos da campanha. Acabou sendo ainda mais amplo. O Enem deu a estudantes – muitos certamente eleitores de Jair Bolsonaro – a chance de discorrer sobre algoritmos, mídias sociais, manipulação, catarse cibernética. Nada mais apropriado. O ditador eleito montou uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News‘, denunciada pela Folha de S.Paulo, nas mídias sociais e especialmente no Whatsapp, uma rede que gera muita confiança porque são pessoas próximas a elas que mandam as notícias. O objetivo de Bolsonaro foi alcançado: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT nas últimas semanas da campanha e financiadas por empresários amigos do “mito”. O TSE ficou petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Quanto ao Enem, às vésperas de um governo de ultradireita, que defende a “escola sem partido” e estimula o macarthismo por alunos, denunciando professores “comunistas”, não se surpreenda se acabar ou abolir a Redação das provas obrigatórias.

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Empreendedores ricos, Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos ricaços sovinas, gravaram vídeo de apoio a Bolsonaro, em que Gazin admitiu Caixa 2 e disse que não aguentava mais gastar na campanha de Bolsonaro. Deve ter valido a pena.

No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhotes do Coiso, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”.

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No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhotes do ditador eleito, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”. Bom, o tema acabou sendo “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Tomou, Papudo!

Se, redigindo, Bolsonaro já teria dificuldade de explicar, em palavras, o serviço sujo que delegou, por caixa 2, a empresas, responsáveis por fabricar e impulsionar fake news – vamos combinar que o forte do ex-capitão não são as palavras -, certamente o ultradireitista tiraria zero na prova de Redação, já que quem escreve textos que firam os direitos humanos pode perder até 200 dos 1 mil pontos possíveis. Imagine Bolsonaro, um homofóbico, misógino, preconceituoso, anti-direitos sociais e trabalhistas, defensor da ditadura de 64, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra, escrevendo sem ferir a gramática, nem os direitos humanos. Não passaria do primeiro parágrafo.

Encagaçado, o ministro da Educação de Temer (quem?), um certo Rossieli Soares (quem??) teve, imagine só, que vir a público para dizer que o tema da edição de 2018 foi escolhido há quatro meses pelos técnicos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A campanha eleitoral teve início em 16 de agosto. No primeiro dia do Enem, os candidatos fizeram também provas de Ciências Humanas e Linguagens, onde apareceram tópicos como feminismo, nazismo, escravidão, regime militar, crise de refugiados, entre outros. Na prova de Linguagens, uma pergunta abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis — a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito. Bolsonaro, não pense que estou brincando, pode acabar querendo impugnar o Enem por ser parte do inventado kit gay uma de suas fake news da campanha.

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Cenas gays do filme “Bohemian Rhapsody”, que conta a história do mito Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, estão sendo vaiadas (!) nos cinemas brasileiras. O descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie?

E para não dizer que não falei de ódio, depois das vaias à lenda do rock Roger Waters, o ex-Pink Floyd, que exibiu em sua turnê no Brasil o #Elenão e o #Resist em um protesto contra a inescapável eleição de Bolsonaro, dessa vez quem teve a memória desrespeitada foi o cantor Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, que morreu de Aids em 1991, aos 45 anos de idade. Um dos filmes mais aguardados do ano, ‘Bohemian Rhapsody‘ chegou aos cinemas brasileiros na última semana, contando sua biografia. Se por um lado os fãs do grupo saíram extasiados da sala, outra parte dos espectadores brasileiros vaiaram (!) cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie? É de dar muita vergonha – e medo. Eu vejo “O Conto da Aia” e cada vez mais enxergo o Brasil.

Coiso amarela e Haddad propõe debate na enfermaria. Roger Waters lava nossa alma e ergue muro contra o fascista

“A costura e os afagos públicos já começaram. “A construção do país é tijolo por tijolo, ninguém faz nada sozinho”.
Jacques Wagner, quase citando Roger Waters, ao colunista Bernardo Mello Franco, do Globo. O ex-governador e senador eleito pela Bahia ajuda a costurar um “arco de alianças” com Ciro Gomes, que traz consigo 13 milhões de votos, e o Centro

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Médico cirurgião Antonio Luiz de Macedo, do Albert Einstein, que atende Bolsonaro e lhe deu nesta quarta, 10, atestado médico para fugir dos quatro primeiros debates presidenciais na TV, nessa e na outra semana. Queria ser um band-aid escondido pra ver essa consulta médica

Bolsonaro não irá a nenhum dos quatro debates do 2º turno que que estavam programados para essa – Rede Bandeirantes – e a próxima semana – Estadão/Gazeta, SBT/Folha e RedeTV/IstoÉ. Ordens médicas. Mais especificamente do médico cirurgião Antonio Luiz de Macedo, do Albert Einstein, que examinou Bolsonaro nesta quarta, 10, e informou à imprensa que o candidato do PSL ao Planalto terá alta para atividades públicas de campanha a partir da quinta-feira da próxima semana, dia 18. Ou seja, só deverá ir ao debate da RecordTV, de seu apoiador Edir Macedo, e da Globo, que na melhor linha “Cria cuervos que te sacarán los ojos” não sabe o que fazer com o Coiso que ajudou a parir. Bolsonaro foge do pau não é por acaso. Todas as suas manifestações púbicas, não ensaiadas, sobre temas relevantes – educação, saúde, economia, cultura e mesmo segurança pública – que fujam dos clichês, frases decoradas e daquela patética coreografia de armas com os dedos, são um fiasco. Bolsonaro não é só um analfabeto político, é um sujeito limitadíssimo intelectualmente. Foi aconselhado que é melhor silenciar, arrumando, como bom flanador, um atestado médico (Leia o Balaio do Kotscho), e torcendo para que, pela força da inércia, ganhe no segundo turno pelo menos mantendo os votos que teve no primeiro.

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No Twitter, Haddad propõe a Bolsonaro que, diante do impedimento médico de sair de casa para os debates – exceto se for na Record -, eles realizem o debate em uma enfermaria. Provocação oportuna diante do adversário amarelão.

O capitão não tem propostas, ou não foi informado delas – e não só terceirizou a economia para Paulo Guedes, que, segundo a Folha de S.Paulo de hoje está sendo investigado pelo Ministério Público Federal em Brasília sob suspeita de fraudar negócios com fundos de pensão de estatais, como já sinalizou que vai terceirizar o resto da Esplanada para os militares, com pelo menos quatro a cinco generais como ministros, algo inédito desde o fim da ditadura (Leia O Globo), criando uma espécie de República de Generais. A manchete do Estadão de hoje é mais do que preocupante: “Generais ganham espaço e formulam planos de Bolsonaro”, segundo o jornal no subsolo de um hotel em Brasília. Nada mais apropriado para uma campanha subterrânea de um candidato toupeira.

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Meme que bombou nas redes sociais: Roger Waters, ex-Pink Floyd, que em sua turnê pelo Brasil não se omitiu e encampou o #elenão contra o Coiso, e o outro Roger,  o Rocha Moreira, ex-Ultraje a Rigor, que apoia Bolsonaro, mas ficou (quase) famoso pelo hit “Inútil”, onde diz, de forma premonitória, “A gente não sabemos (sic) escolher presidente”.

A reação de qualquer ser humano minimamente decente ao disparate Bolsonaro está marcando a passagem pelo Brasil do novo show do ex-Pink Floyd Roger Waters, que exibiu na tela um rotundo #elenão em show para 45 mil pessoas em sua performance no Allianz Parque, em São Paulo, na noite de terça, 9 – e deve repetir país afora. Fascistas vaiaram, democratas aplaudiram. O momento foi icônico. Após um longo intervalo depois de cantar o clássico “Another brick in the wall”, um coral de crianças com camisas escritas “resist” (resista) entrou no palco e o telão explodiu com a frase de repulsa.

Bolsonaro é uma vergonha tão explícita para a democracia brasileira que, antes mesmo de uma possível – vade retro! – eleição sua, já estamos sendo ridicularizados internacionalmente. Jornais de todo o mundo traçam perfis de um ditador em gestação e o comparam, no aspecto insanidade, a Donald Trump. O The New York Times, que, como sabemos, não é nenhum Granma ou Pravda, destacou que o candidato de extrema-direita tem um “carinho pela ditadura” e é ofensivo com mulheres, negros e gays. Mas ninguém é mais direto que John Oliver, um dos apresentadores de maior sucesso da TV dos EUA e vencedor do Emmy, com o dominical “Last Week Tonight”, que endossou o movimento #EleNão e disse que Bolsonaro é “um ser humano terrível”.

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John Oliver, um dos apresentadores de maior sucesso da TV dos EUA, com o dominical “Last Week Tonight”, endossou o #elenão e disse que Bolsonaro é “um ser humano terrível”.

Debates que estavam previstos para o segundo turno. Dos quatro primeiros, o Coiso já fugiu.

11/10 – Band – 22h
14/10 – Gazeta- 19h30
15/10 – RedeTV! – 22h
17/10 – SBT – 18h20
21/10 – Record – 22h
26/10 – Globo – 21h30

#Elenão #Elenunca

A poucos dias das eleições, o país assistiu neste sábado, 29, a grandes manifestações nas principais cidades brasileiras – de brasileiras e brasileiros anônimos (o que a mídia prefere chamar de “militantes” quando lhe convém) -, com forte concentração no Rio, na Cinelândia, e em São Paulo, no Largo do Batata, entre outras praças e avenidas pelo Brasil -, de protesto contra a candidatura fascista de Jair “Só vale se eu ganhar” Bolsonaro. O movimento, chamado de #EleNão – mas pode chamar de #EleNunca que vale -, foi convocado pelas redes sociais e liderado por mulheres inconformadas com a misoginia, o machismo, o ódio e o preconceito disseminados pela dupla fardada Bolsonaro-Mourão. Não espere uma cobertura isenta da “grande” mídia, da cobertura dos prédios, segura e com vista panorâmica – prefira as redes sociais e os flagrantes espontâneos -, e se prepare para ler que os bolsoninions “também fizeram passeatas” por umas tantas cidades, onde era possível ouvir até as lesmas rastejando. Até o último balanço, as manifestações haviam tomado as ruas de pelo menos 114 cidades – mas pode crer que foi mais do que isso.

“Ao reunir dezenas de milhares, #EleNão provoca maior manifestação liderada só por mulheres no Brasil mas é quase ignorado na tevê”, escreveu o jornalista José Roberto de Toledo. Vale a leitura.

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No Rio, cidadãos contra o fascista Bolsonaro lotam a Cinelândia, no Centro, e gatos pingados vestem camisa da CBF e gritam por mais rotas Rio-Miami no Posto 5 #Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais
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Largo do Batata, em Sampa. A cidade que rejeita Alckmin e Doria é uma das esperanças do PT de pulverizar os eleitores entre os sensatos e os que apostam no caos. #Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais
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Visão do protesto na orla de Salvador. A cantora Daniela Mercury puxou um mini-trio elétrico em apoio ao #EleNão. Uma das artistas mais engajadas do movimento, ela ainda discursou contra o candidato do PSL à Presidência.#Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais

Manifestantes protestaram também em diversas cidades ao redor do mundo – Alemanha, França, Suíça, Itália, Portugal e Estados Unidos e em mais 63 cidades em 20 países, como na Cidade do Cabo (África do Sul), Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina) e Londres (Reino Unido) -, seguindo campanha #EleNão no Facebook que já reúne 3,8 milhões de mulheres e muitos homens (Veja).

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#EleNão global: cerca de 300 pessoas compareceram à manifestação contra Bolsonaro no Emmeline Pankhurst Statue, um dos cartões postais de Londres – o que se repetiu em dezenas de cidades pelo mundo, como  como Nova York, Londres, Lisboa, Barcelona e Cidade do México. Reprodução/Redes Sociais

A alta de Bolsonaro, ou melhor, o primeiro contato do fascista com o mundo rea, também ocupou espaço na mídia. Após receber alta do Hospital Albert Einstein, o candidato à Presidência embarcou no início da tarde em um avião comercial – como não dou essa sorte… – com destino ao Rio de Janeiro. Durante o voo, manifestantes gritavam “presidente” e “mito”, enquanto outros gritavam “fascista” e “lixo”. Passageiros seguiram gritando “fascista” contra o candidato (Assista aqui e aqui). Lembrem-se, avião, classe média, concentração coxinha… (Vale lembrar alguns dados do Datafolha).

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Bolsonaro causa confusão na volta pra casa. Passageiros tiveram que ser deslocados de lugar, no voo da Gol, e ouviu-se gritos de “mito” e “fascista”. País dividido até em um voo comercial.

Duas pessoas se retiraram do voo: uma por achar que o avião não teria segurança, citando a morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos durante a campanha eleitoral de 2014, e outra por não admitir voar com Bolsonaro. O voo 1036, da Gol, registrou um atraso de cerca de 20 minutos na decolagem por causa da presença de Bolsonaro, que não marcou lugar especial, o que exigiu deslocar um passageiro. Comissários de bordo e policiais federais que, por lei, acompanham presidenciáveis durante a campanha, tiveram dificuldade para convencer passageiros a trocar de lugar para que o candidato e sua equipe ficassem juntos perto da cabine do piloto. Segundo passageiros, o candidato foi o último a entrar no avião da companhia Gol e o primeiro a sair. Carros com agentes da Polícia Federal esperavam o candidato ainda no pista de desembarque do aeroporto.

Uma senhora que brigou com comissários de bordo para não deixar sua poltrona, na segunda fileira, passou a comemorar e gritar que ficaria até “na cozinha” para que Bolsonaro entrasse no avião. Poderia ter sido colocada no compartimento de cargas, entre as malas mais pesadas.

Esse é Bolsonaro, esse é o Brasil.

 

 

A denúncia que veio do frio e o iceberg que pode afundar Bolsonaro

Das profundezas do mar gelado das denúncias, um iceberg gigante foi despontando na reta final da campanha e congelou a chapa pura-farda: uma denúncia grave envolvendo o capitão-maridão Jair Bolsonaro desnudou sua vida pessoal – numa insuspeita associação Folha e Veja – para mostrar que o homem que odiava gays e minorias também tinha no armário o esqueleto de uma separação pra lá de litigiosa. Revelada, com requintes de crueldade, pela mídia que, embora não tenha nada de petista, beneficia o único candidato que nesse momento rivaliza com o Unabomber da caserna, Fernando Haddad. Claro que, se deixarmos o pensamento nos levar, podemos pensar também que a destruição de Bolsonaro – se ela ocorrer, o que parece improvável nesse momento -, beneficiaria a defunta terceira via – Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes, para citar os menos distantes no páreo. O nome do iceberg onde colidiu o barco bolsonarista é Ana Cristina Valle.

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Bolsonaro fazendo a barba na suíte do Albert Einstein, sem camisa, deixando aparecer a cicatriz e, com a ajuda da lâmina de barbear, ressaltando a semelhança com uma nefasta figura histórica (não é montagem). Pouco depois, teria a notícia de que sua alta teria que esperar um pouco mais. Seus problemas seguem com a revelação de detalhes de sua separação e novas falas desastrosas do vice Mourão. Reprodução/Twitter.

O primeiro impacto veio com a denúncia, publicada no dia 25 pela Folha de S.Paulo, revelando o conteúdo de um telegrama (Veja Twitter do repórter Rubens Valente)em que Ana Cristina, ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, diz ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por Bolsonaro — à época, eles disputavam a guarda do filho Renan. Hoje apoiadora da campanha do ex-marido, Ana Cristina atribuía sua saída do Brasil com o filho a essa ameaça, segundo o telegrama. Em um dos trechos do telegrama, o embaixador Carlos Henrique Cardim diz que “a senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos (em 2009) ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor (Bolsonaro). Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”. Quem ouviu a denúncia de Ana Cristina foi o vice-cônsul na embaixada brasileira em Oslo, segundo o embaixador. Em entrevista ao Correio Braziliense, Ana Cristina negou ter sido ameaçada. Gravou um vídeo, logo viralizado nas redes do ex-marido (Assista aqui), negando tudo, como se não passasse de uma fantasia, apesar dos documentos. O Itamaraty se negou a comentar. Tudo resolvido? Aí veio a capa de Veja, já nas bancas (Para assinantes).

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As revistas semanais, as penúltimas antes do pleito: Veja ferra Bolsonaro, Carta Capital destaca a hashtah #Elenão, Época faz jornalismo light – mas destaca produtora-fantasma de Bolsonaro – e IstoÉ, engajada, diz que “Lula montou um QG de campanha”, o que chama de “Projeto Haddad”

Veja mergulha no divórcio dos dois, com fartura de documentos. Tendo tido acesso ao processo, os repórteres descobriram que ela acusou o ex-marido de ocultar o patrimônio pessoal na divisão de bens. De acordo com os documentos que apresentou, ele também ocultou muito do que tinha da Justiça Eleitoral, em 2006. Para as eleições, o deputado afirmou que tinha um terreno, uma sala comercial, três carros e duas aplicações que somavam R$ 434 mil. Ele não revelou que possuía, ainda, mais três casas, um apartamento, outra sala comercial e cinco lotes. Tudo somado dava R$ 7,8 milhões, incompatíveis com sua renda de parlamentar.

Ana Cristina não ficou nisso. Afirmou que Bolsonaro tinha uma renda mensal de R$ 100 mil à época, R$ 183 mil em valores atualizados. E que roubara o conteúdo de um cofre pertencente ao casal com jóias, dólares e reais que somavam R$ 1,6 milhão. Veja entrou em contato com ela. “Quando você está magoado, fala coisas que não deveria”, ela disse. “Bolsonaro é digno, carinhoso, honesto e provedor.” Ana concorre a uma vaga de deputada federal com o nome Cristina Bolsonaro.

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Ana Cristina Valle, hoje em campanha com sobrenome Bolsonaro, tenta convencer a todos de que apenas “falou demais” e que o capitão foi um ex-maridão exemplar. A leitura da Folha e de Veja desmoraliza essa conversinha.

Após acusações de ex de Bolsonaro, vices mulheres reforçaram a campanha #Elenão. Candidatas do PCdoB, PDT e PSOL participarão de atos neste sábado. anuela d’Ávila (PCdoB), vice de Fernando Haddad (PT), e Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL), irão à manifestação em São Paulo, enquanto Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT), estará em ato em Goiânia (GO). Ana Amélia, do PP, claro, não aderiu. Questionada sobre como se posicionaria em um eventual segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, os mais bem colocados nas pesquisas mais recentes de intenção de voto, a gaúcha foi taxativa: “No PT, não há chances”.

“Os direitos não são dados, mas conquistados”.
Norberto Bobbio, filósofo italiano

Como se Bolsonaro não precisasse de mais problemas, seu vice, o companheiro de chapa e farda general Hamilton Mourão – o que já falou demais ao se referir a índios, negros e mulheres descasadas – continua brincando de falar do que não entende. Falando à Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana, Mourão, que sabe tanto de economia quanto Bolsonaro – ou seja, rigorosamente nada -, deflagrou nova crise na chapa ao atacar publicamente o décimo-terceiro salário e abono de férias, qualificando os benefícios – marcos no direito trabalhista do Brasil, que têm quase 60 anos -como “jabuticabas brasileiras”. Os candidatos rivais, claro, fizeram a festa, e Bolsonaro, mais uma vez, fingiu que desautorizou o vice, como se seu guru da economia não chamasse Paulo “Vale tudo” Guedes. “O 13° salário do trabalhador está previsto no art. 7° da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas. Criticá-lo, além de uma ofensa à quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição”, tuitou Bolsonaro, e retuitou Mourão.

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Com um chicote na mão – versão Ana Amélia da caserna -, que ganhou de presente de ruralistas, que usaram o objeto para machucar petistas durante a passagem da Caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul. Além de condenar direitos trabalhistas, como o décimo-terceiro salário e abono de férias, o General Mourão disse que o Brasil é um “cavalo maravilhoso que precisa ser montado por um ginete com mãos de seda e pés de aço”. Sem comentários. Reprodução.

O chamado “núcleo duro” da campanha de Jair Bolsonaro – difícil imaginar um núcleo mais duro que Bolsonaro ou Mourão – já fizeram reunião para tentar unificar e tutelar o polêmico vice. Não se tem notícia que alguém tenha conseguido enquadrar o general. Para piorar, Gustavo Bebianno, o centralizador presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, tem se estranhado com Eduardo, deputado filho do presidenciável, que é o mais atuante na campanha. Aguarda-se, na ordem, a próxima pesquisa eleitoral e a próxima crise interna na chapa pura-farda.

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A estranha foto retuitada pelo general Mourão em seu twitter, em 27 de setembro, de sua galeria de asneiras. Um armário cheio de armas e a frase “Reformando”. O militar reproduziu postagem do direitista Guilherme Fiúza: “7 de outubro, Dia Mundial Sem PT”. Defina “Sem PT”, Fiúza. Reprodução/Twitter.

Ah, a alta hospitalar de Bolsonaro foi adiada por causa de uma crise bacteriana. O que não impediu o candidato de postar uma curiosa foto no Instagram, no banheiro de seu quarto no Albert Einstein, sem camisa – para o corte no abdômen ficar visível – e fazendo a barba. “Me preparando para voltar à ativa!”, escreveu o capitão. O que tem isso de curioso? Na foto, Bolsonaro, com sua franja característica, é flagrado no momento em que o aparelho de barbear deslizava em cima de sua boca. Se você adivinhar com quem ele ficou parecido na cena ganha uma viagem com tudo pago para Braunau am Inn.

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Fernando Haddad segue forte na campanha, com um pé no segundo turno e chance de vira, vira! ainda antes de 7 de outubro. Na foto, em grande comício em Florianópolis. Na reta final, todo cuidado é pouco que os fabricantes de fake news, como a atriz coxinha Luana Piovani. Ricardo Stuckert / Divulgação

Em tempo – O ministro Ricardo Lewandowski, do STF, autorizou a colunista Mônica Bergamo, da Folha, a entrevistar o ex-presidente Lula. O ex-presidente está preso em Curitiba desde 7 de abril. Nenhuma entrevista foi autorizada até hoje. O jornal argumentou ao STF que uma decisão da 12ª Vara Federal em Curitiba que negou a permissão para a entrevista impôs censura à atividade jornalística e mitigou a liberdade de expressão, em afronta a decisão anterior do Supremo. Lewandowski concordou que era censura mesmo.

 

Kataguiri segue estratégia tucana e tenta salvar MBL batendo em Bolsonaro

“Não interessa quem seja seu candidato a presidente da República, ele (Bolsonaro) não dá, ele não dá, ele nunca pode ser presidente da República”
Kim Kataguiri, do direitista MBL, em post nas redes sociais, no último dia 20/09, pregando o voto contra Bolsonaro, aderindo ao #Elenão e defendendo a democracia, a imprensa e as minorias. Um espanto.

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Penteado novo, a mesma barba rala, Kataguiri, valete do MBL e candidato a deputado federal pelo DEM, no vídeo em que elegeu o ex-parça Bolsonaro a reencarnação do mal

 

Aliados desde antes do impeachment, MBL, o Movimento Brasil Livre de Kim Kataguiri, e o capitão Jair Bolsonaro, não trocam mais elogios mútuos, nem sentam no mesmo boteco há alguns meses, o que culminou com um vídeo (Assista aqui e se esforce para não rir) do agora candidato a deputado federal pelo DEM, numa cara-de-pau sem limites, aderindo ao #Elenão – o movimento criado pelas “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, hackeado recentemente nas redes sociais. Ideólogo do grupo de extrema-direita que serviu a Eduardo Cunha e Paulo Skaf para criar um movimento fabricado de rua, arregimentando coxinhas e reacionários pró-impeachment de Dilma Rousseff, Kataguiri é tudo, menos um antibolsonarista. Ou um democrata. Em maio de 2015, estava na foto clássica – um dos porta-retratos do golpe parlamentar -, ao lado de Eduardo Cunha, Bolsonaro e manada, embaixo da faixa “Um Brasil livre da corrupção”. Kataguiri é assim: em setembro de 2016, postaria nas redes um “Tchau, querido” quando Cunha foi cassado por 450 votos.

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Álbum de família, maio de 2015, o início da lambança: Eduardo Cunha, Bolsonaro e Kataguiri, movidos pelo patriotismo, se unem contra a corrupção do PT.  Em setembro de 2016, o líder do MBL comemoraria a cassação de Cunha com um ingrato “Tchau, querido”.

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Em 2015 também, Kataguiri postou uma foto usando uma arma de airsoft para levantar, pelo Facebook, uma das bandeiras bolsonaristas: o fim do Estatuto do Desarmamento. Pouco antes disso, o MBL saia em defesa de Bolsonaro, que havia se tornado réu em duas ações penais no Supremo Tribunal Federal por injúria e apologia ao crime de estupro. A página do grupo no Facebook publicou um post dizendo que Bolsonaro era “vítima de fascismo censório em ação no STF”. Em fevereiro de 2017, Kataguiri, cabelos ainda compridos e algo próximo de um buço desenhando os lábios, reunia-se tranquilamente com Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, e Marco Feliciano, próceres da fatia mais abjeta do Congresso, para discutir estratégias pós-impeachment.

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Recordar é viver. Início de 2017, Eduardo Bolsonaro, Kataguiri e Marco Feliciano posam após discutir estratégias pós-impeachment. Antes disso, em 2015, o neófito Kataguiri postou uma foto empunhando uma arma de airsoft , que atira projéteis plásticos não letais, para condenar o Estatuto do Desarmamento. Bolsonaro ficou em estado de graça.

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“Um dos nomes que pode ser visto como (alguém) de fora (da velha política), apesar de ter mandato há 20 anos, é o Bolsonaro. Ele foi um cara que ficou de fora de tudo o que estava acontecendo dentro do Congresso, e no governo federal. Ele é um nome que representa o anti-establishment”, analisou Kataguiri, entrevistado por um certo Marcelo Bonfá – por favor, não confunda com o ex-baterista do Legião -, em 12 de dezembro de 2017 (Assista aqui). Mesmo recentemente, em 31 de julho passado (Assista aqui), Kataguiri não resistiu e criticou a bancada de entrevistadores que cercou Bolsonaro no Roda Viva. “Os entrevistadores só ficaram de socialistas do Leblon, do Baixo Augusta. Mentindo pra tentar desqualificar o Bolsonaro. Não entrevistaram o presidente da República”, reclamou o candidato do DEM pelo Youtube.

Não se pretende aqui, evidentemente, cobrar coerência de quem vive do disfarce e da patranha, como não se vai cobrar senso democrático e inteligência política de gente como Alexandre Frota, Rodrigo Constantino e Felipe Melo. Só ajudar a explicar que Kataguiri – que colocou Bolsonaro para discursar em caminhões do MBL e fazia selfies com adoradores do Revoltados OnLine, que por sua vez abraçavam amigos do Vem Pra Rua –, apenas segue, há algum tempo, a estratégia tucana de tentar colocar Geraldo Alckmin na vaga de Bolsonaro no segundo turno.

O MBL, que virou uma colcha de retalhos – lançou 16 candidatos por nove partidos, a maior parte da base de apoio a Alckmin para a Presidência -, depende disso para sobreviver (Leia a Folha). Sem o impeachment de Dilma para catalizar multidões, responsáveis diretos por colocar o megaimpopular Michel Temer no poder, o MBL corre o risco real de acabar se, sem carro de som e palanque, não fizer uma bancada. E isso só acontecerá se Alckmin não sair da atual indigência de votos. No Twitter, o filho do capitão, Flávio, deixou até registrado: “O MBL está dando chilique. Achava que, com a ruína do PT, o PSDB ocuparia o espaço que ficou aberto. Não contava que a direita ia surgir com um nome de tanto peso como o do Jair Bolsonaro.” Quem assiste “análises” feitas apenas um ano atrás por Kataguiri mostra que o dublê de cientista político nem de longe também sonhou com a arrancada de um Fernando Haddad.

Sem alguém para mexer os fios, Kataguiri é um marionete sem palco e sem platéia.