Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 2

“Algumas pessoas gostariam que o presidente eleito Jair Bolsonaro tivesse escolhido um chanceler que saísse pelo mundo pedindo desculpas. Queriam uma espécie de Ministro das Relações Envergonhadas. (…) Mas fiquem tranquilos, pois aqui, na frente externa, nada vai mudar. Estou aqui para aguar todas as posições do presidente, para cozinhá-las e transformá-las no mesmo rame-rame que vocês já conhecem, continuarei falando a linguagem da ordem global. Estou aqui para não deixar nada acontecer”.
Trecho do alarmante artigo do futuro chanceler Ernesto Araújo para o jornal paranaense Gazeta do Povo.

O embaixador Ernesto “Ernie” Araújo, escolhido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro para chefiar o Ministério das Relações Exteriores do Brasil a partir de janeiro, já é um segregado dentro de sua própria instituição, o histórico Itamaraty, fundado em 1736. Sim, 282 anos para, em pleno 2019, ganhar como chefe não apenas um diplomata inexperiente, um homem que tem como padrinho o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, mas um tipo de doutrinador que se expressa como os Papas na Idade Média, falando em combate a temas “anticristãos”, defesa da família e perseguição de ideologias que não sejam as suas. Por sorte, onde há tirania, há resistência, e mosteiros medievais preservaram bibliotecas inteiras onde grandes obras do Mundo Clássico e Oriental eram escondidas. Circula por grupos de diplomatas dentro do Itamaraty, com forte receptividade, uma mensagem incentivando a Casa a não sucumbir ao “Pastor das Relações Exteriores”. O texto é avassalador e desconstrói o “bispo” Araújo. Mostrando que encontrará, numa das burocracias mais preparadas do país, no mínimo, trincheiras sólidas. A tara de Araújo deve ter relação com a influência e a admiração do chanceler que é referência dos anos petistas, Celso Amorim, ele próprio reconhecendo a nomeação de Ernesto Araújo ao Itamaraty como retorno à Idade Média. Se do nosso ponto de vista, as primeiras manifestações do desconhecido Ernesto Araújo soam apavorantes, imagine para a Casa de Rio Branco. Como o artigo que escreveu para o jornal paranaense Gazeta do Povo, e rapidamente disseminado.

O artigo, que deve ser lido com imensa responsabilidade, e como um alerta mesmo, é um manual de diretrizes para o seu comando do Itamaraty. No texto intitulado “Mandato popular na política externa”, Araújo afirma que seguirá as orientações de Bolsonaro de “libertar o Itamaraty” e combater o que ele chamou de “ideologia marxista” que está presente no órgão de diplomacia brasileiro. Se você reparar bem, o discurso se assemelha ao de outro escolhido de Olavo de Carvalho, o futuro ministro da Educação, o “professor e filósofo” colombiano Ricardo Velez Rodriguez, saído dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. Ele também acha que o ensino no país tornou-se refém de uma “doutrinação de índole na ideologia marxista”. Marx, como se vê, é um fantasma muito presente nos pesadelos do futuro ministério Bolsonaro.

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“Ernie” está feliz, sorrindo de orelha a orelha, mas vai encontrar resistências dentro do Itamaraty e muita preocupação da mídia internacional, que mancheta: “Diplomacia do Brasil em risco de ruptura com nomeação de Araujo”. A bússola desse cara está quebrada.

Ainda sobre o artigo de “Ernie” na Gazeta do Povo, ele alerta para o que chamou de “alarmismo climático”, “a adesão às pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais” e “a destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada”. Araújo não se aprofunda em nenhum desses temas, mas enumera o que chama de “elementos da ‘ideologia do PT’, ou seja, do marxismo, que ainda estão muito presentes no Itamaraty”. O resto do artigo são partes da mesma piada sem graça. “E o povo brasileiro? Vocês não se preocupam com o que o povo brasileiro vai pensar de vocês? Sabem quem é o povo brasileiro? Já viram? Já viram a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir trabalhar, com medo de ser assaltada ou estuprada? A mulher que leva a filha doente numa cadeira de rodas precária, empurrando-a de hospital em hospital sem conseguir atendimento?”. Certamente “Ernie” tem um profundo conhecimento do povo brasileiro, do Brasil dos rincões. Eu realmente adoraria saber em que cidades brasileiras já esteve o diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos.

Ainda sobre Olavo de Carvalho, o recém-descoberto “filósofo dos filósofos” da família Bolsonaro, autor dos best sellers – hahaha – “O Jardim das Aflições” (1995) e “O Imbecil Coletivo” (1996), que está fora do Brasil há 13 anos e vive em Richmond, capital do estado da Virgínia (EUA), disse que morrerá em solo de Trump. É muito amor pelo Brasil. “Quero ficar aqui no mato até morrer”, diz. Mato tem de sobra no Brasil, Olavo, o que você merece é comer raiz de capim americano pela raiz.

Imperium mediocre, mediocre oraculi

O “ideólogo da direita” Olavo de Carvalho – como costuma ser definido, e ele ama, afinal chamar de ideológico ou filósofo um ultradireitista desqualificado como ele é um tremendo elogio -, cujas concepções, pensamentos e construções filosóficas, que desabam, como um castelo de cartas, ao primeiro sopro ideológico honesto, e que tornou-se a eminência parda do governo Bolsonaro, para ciumeira geral de seus generais estrelados, de seu “Posto Ipiranga” e de seu juiz de estimação, rompeu o silêncio e falou por alguns minutos, por telefone, com a repórter Natália Portinari, do Globo (Leia), onde mostrou-se o que é: um fake news total, um personagem fake, um filósofo fake, um consultor fake, indicando ministros fake. Em um governo que já virou um pesadelo surrealista de Dalí, dois ministros estratégicos vieram do ‘caderninho’ de Olavo. Se Paulo Guedes é o Posto Ipiranga e Sérgio Moro o Posto BR de Bolsonaro, Olavo é o posto ExxonMobil,  que sonha ver o Brasil como um Panamá sem canal, mas com pré-sal suficiente para dar e vender. Olavo é o “Pequeno Príncipe” de Bolsonaro, seu blog de cabeceira. Se merecem.

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Apresentação do Blog de Olavo de Carvalho, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria. Pose de imitador de John Wayne, idolatria aos Estados Unidos e anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e o futuro chanceler Ernesto Araújo, são, como de resto, ilustres desconhecidos em um ministério sem rostos, de não notáveis, e onde os poucos entes com ligações partidárias são considerados cota pessoal – o que significa que Bolsonaro ignorará os partidos e tentará governar com bancadas movediças, evangélicos, ruralistas, lobistas de planos de saúde e da indústria das armas – e seus dois “superministros” Paulo Guedes e Sérgio Moro. É tosco imaginar que em um mundo onde se pode ler Kant, Rousseau, Hegel, Gramsci, Schopenhauer, Nietzsche, Maquiavel, Marx, Paulo Freire, Heidegger, Comte, Sartre, Adorno, Hume, Tomás de Aquino, Descartes, Platão, Aristóteles, Sócrates – ou, vamos lá, Chomsky, Cortella, Karnal –, alguém ouça o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, que se dá tanta importância que lembra – apenas lembra – o afetado e pedante Paulo Francis, mas sem sua genialidade e com muito menos humor. E com um deslumbramento do país em que vive que o faz desprezar o país em que nasceu, um esnobe que pensa que transita mentalmente entre as fronteiras de dois mundo, como se fosse um profundo conhecedor de tudo. Acha que nasceu há dez mil anos atrás, mas mal consegue ficar de pé, engatinha, levanta, dá alguns passos e desaba. Só Bolsonaro e a trôpega direita brasileira para seguir seus conselhos.

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O filósofo e dublê de caçador Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, tarado por armas, e o filhote de urso que abateu pessoalmente.

Na entrevista ao Globo, ele debocha da repórter – chega a dizer que se apaixonaria por ele, o velhaco -, como se fosse um Deus falando com um mortal nas escadarias do Olimpo. Seu Blog – não dá para opinar sobre alguém hoje sem entrar em suas redes sociais, por mais insalubre que seja o trabalho -, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – em português, “Nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria” – o mostra em uma pose de imitador de John Wayne, que de tão caricatural parece remake de ‘Bonzanza’. A idolatria aos Estados Unidos e o anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba, está lá, puro, direto, sem curvas, conexão total com os babacas que o seguem.

Pretensioso, arrogante, narcisista, mitômano, faz de seu blog um passeio por lambidas na própria virilha e cagação de regras. Está nas principais redes sociais e disponibiliza um “Boletim Olavo de Carvalho”, um emaranhado de baboseiras que parecem coisa do livro “Cartas do Inferno”, do famoso teólogo C. S. Lewis – na década de 1940, C.S. Lewis escreveu uma série que foi publicada no The Guardian, contando a história de um demônio que enviava instruções a um subordinado através de cartas, com o propósito de destruir a fé de um cristão recém-convertido. Em um de seus últimos posts, “Isto explica praticamente TUDO (a caixa alta á dele), mostra, num gráfico simplório, sem fonte, que – respire fundo – a “qualidade do sêmen” masculino, comparada com 1940, caiu vertiginosamente. E abre para debates, com comentários que mostram bem quem é sua claque. “Ou seja estamos cada vez mais femininos…ou ficando ralos. Homens sem testosterona”, comenta um deles. “Meu Deus… junto com isso a testosterona, a virilidade, inteligência, coragem, amorosidade, TUDO vai pro beleléu”, espanta-se uma (!) internauta. Esse é o nível do debate.

Em outro post, ele observa: “A chegada da direita ao poder pelo voto popular foi o acontecimento mais traumático na vida da classe jornalística brasileira. Ela nunca imaginou que tamanha calamidade pudesse lhe acontecer, coitadinha”. O ódio à mídia tradicional, praticamente ignorada por Bolsonaro na campanha e depois de eleito, casa com esses ideais, de quem pretende governar pelas redes sociais. Em vídeo recente (Assista sem esperanças), intitulado “Democracia, o caralho” (isso mesmo), Olavo de Carvalho – estante fake de livros ao fundo e um curioso anel no dedo mínimo -, defende a tese de que a eleição de Bolsonaro é o reencontro do país com sua maioria conservadora. Dizer que o Brasil é uma democracia é uma coisa ridícula. (…) O Brasil não é uma democracia. Isso é uma farsa grotesca, ofensiva, insultuosa, agora vamos ter a democracia com Jair Bolsonaro” diz ele, para quem o PSL será o “grande partido conservador que sempre nos faltou”. Será que ele já ouviu falar em Arena?

Ah, no Facebook, Olavo oferece “Cursos avulsos com 50% de desconto”. Black Friday? Não sei, mas é uma oportunidade que não posso deixar de perder.

Acabaram os rebeldes sem causa. Chegou a causa. É a geração mobile versus as Tias Lydias de Olavo de Carvalho

O novelo segue sendo desenrolado, revelando o que se esperava – e, desatando nó aqui, nó ali, o Ministério Bolsonaro vai tomando sua forma teratológica. Um governo paramilitar, de ultradireita, nível ‘O Conto da Aia‘ nos direitos humanos, sociais e das minorias, nível ‘Laranja Mecânica‘ em seu projeto fascista de ensino – área que a própria base evangélica considera “estratégica” -, com o tal Escola sem Partido e a proibição de que se discuta em sala de aula assuntos envolvendo gênero e sexualidade. No Itamaraty, simbiose total com os interesses americanos, com um chanceler adorador de Donald. E com as bancadas evangélicas, ruralistas, da bala, dos planos de saúde, mandando a ponto de entregarem a área de assuntos fundiários para a UDR (União Democrática Ruralista) e vetarem um educador moderado do Instituto Ayrton Senna para o Ministério da Educação porque não comungava com o tal Escola sem Cérebro. O resto da cretinocracia une o pior do argentarismo bancário e neopentecostal com um projeto de autocracia mezzo fardada, mezzo terninho de “apóstolo”. São os gângsters com doutorado da Escola de Chicago, cujos sobrenomes bem poderiam ser Nitti, Esposito, Drucci, Colosimo e Dillinger.

Se o moderado Mozart Neves é avançado demais para comandar o MEC, basta chamar o pai dos burros, Olavo de Carvalho, o “pensador”, o “ideólogo” de ultradireita, radicado na terra de “Papa” Trump, que já indicou o chanceler Ernesto Araújo, e agora emplacou seu segundo nome para a Esplanada,  o “professor e filósofo” colombiano, Ricardo Velez Rodriguez, professor de milico, saído batendo os coturnos dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. Ele também acha que o ensino no país tornou-se refém de uma “doutrinação de índole na ideologia marxista”. Outra Tia Lydia a tentar criar a distopia verde e amarela. Antes do discípulo de Olavo, outra casta estatal  -, a dos procuradores da República -, mostrou-se pronta para a missão de iniciar o Tratamento Ludovico: esvaziar as cabeças dos nossos filhos, impedi-los de pensar, de contestar, “caminhando e cantando e seguindo a canção”. E colocar no lugar a “educação moral e cívica” da ditadura e o ensino das academias militares, um internato de almas e espíritos livres.

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Da esquerda para a direita: cena do Método Ludovico, a terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no romance e filme Laranja Mecânica – longa de Stanley Kubrick sobre o romance de Anthony Burgess; o “bombeiro” do filme “Fahrenheit 451”, de ‎François Truffaut‎, baseado na obra de Ray Bradbury, que conta a história do homem que incendeia livros ao invés de conter incêndios; o novo ministro da Educação, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, apoiado pela bancada evangélica; o procurador Guilherme Schelb, que defende “tirar o socialismo da mente das pessoas”, como Edir Macedo, que fez sua fortuna pessoal tirando o diabo do corpo de seus fiéis, em farsas teatrais; e o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. Fogo!

Daí surgiu o nome Guilherme Schelb, o último dos cotados para a vaga, mas, depois de uma sabatina, desprezado por Bolsonaro. Nas redes sociais, Schelb defende o projeto Escola Sem Partido e diz que há doutrinação e manipulação comunista nas escolas – onde era essa escola, que eu perdi? Schelb defende “tirar o socialismo da mente das pessoas” e diz que Bolsonaro vai “expulsar socialistas do governo” – senti um cheirinho de Edir Macedo e enxofre na frase. Assim como Ernesto “Tio Sam” Araújo acha que havia um viés de esquerda em nossa política externa. Quem sabe não instalam uns cavalinhos inspirados na obra do escultor Josef Thorak em frente ao Itamaraty. E transformam José “O Mecanismo” Padilha em nossa Leni Riefenstahl.

No CCBB, a Führerbunker de Jair Bolsonaro em Brasília, formando seu ministério DEM/Arena-PSL-militares de pijama, sentiu o peso de uma bota gigantesca sobre a cabeça com a escolha para o MEC. Cedeu aos seus mais baixos instintos ao nomear um Montag, partidário do Tratamento Ludovico de extermínio de socialismo nas escolas. Como já defendia outro cotado para a vaga,  Aléssio Ribeiro Souto, general da reserva, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”.

No Congresso, a comissão especial da Câmara que discute a volta a 1964, ou, mais especificamente, o tal Escola Sem Partido, realizou novamente nesta quinta, 22, reunião sob clima tenso e com bate-boca entre deputados e manifestantes. Desde julho, é a nona reunião convocada para discutir e votar o parecer do relator, o travesso deputado federal Flavinho (PSC-SP). Com posse prevista somente para fevereiro de 2019, o deputado federal eleito Alexandre Frota (PSL-SP) entrou na comissão e sentou entre os deputados usando bóton de parlamentar na lapela sem ter tomado posse ainda. A votação, mais uma vez, vem sendo adiada após sucessivos tumultos nas sessões. Imagine o delicioso inferno que será esse Congresso em 2019, o ano da besta. “Ano que vem será um ano de guerra aqui na Casa”, disse o pastor e ex de Frota – segundo o astro de Brasileirinhas -, Pastor Marco Feliciano (Pode-SP). Será, Pastor. Será.

E, de repente, conversando com amigos, atentei para algo. O que estão propondo fazer com esses jovens – nem falo dos pais, como eu – da geração smartphone, dos youtubers, do pensamento livre – é um barril de pólvora. Ou, atualizando a metáfora, uma caixa de TNT do Minecraft. Vai dar ruim. Escola sem partido? Educação Moral e Cívica? OSPB (Organização Social e Política Brasileira)? Alguém acha que esse lixo do nosso tempo – eu que nasci em 1966 e entrei na Universidade de Brasília em 1987, ainda com um reitor biônico, o capitão Azevedo (capitão-de-Mar-e-Guerra José Carlos de Almeida Azevedo) – vai ser engolido por nosso filhos? Pois é, os caras criaram as Fake News pelo Whatsapp para se eleger, ganharam e agora acham que vão devolver o país a 1964, começando pela educação. Vão ganhar uma banana na velocidade da luz. E não adianta o MBL querer invadir a UNE com seus cara-borradas. Podemos ter o nosso maio de 1968 – sem que tenhamos que ser franceses e nem comer escargot – eca!

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O Ministério Bolsonaro, so far: uma união de DEM/Arena-PSL-militares de pijama, com uma base parlamentar que une as bancadas evangélica, ruralista e da bala. Vamos lá, de 0 a 10, que nota você daria para esse nightmare team?

É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando as vemos numa tela. Ou após uma eleição.

Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump

Ernesto Araújo foi uma nomeação engraçada. Não, sério, deixem de ser mau humorados. Primeiro, Ernesto me lembra logo o Che. Ernesto “Che” Guevara de la Serna (que aliás, era médico, Mais Médicos, ai meu Deus, piada pronta). A gente tripudiando do Onyx Lorenzoni, do Marcos Pontes, da Tereza Cristina, do Paulo Guedes, do Sérgio Moro – outra piada pronta, concordamos -, e o Bolsonaro, brilhantemente, me tira do coturno o Araújo, a primeira indicação de Olavo de Carvalho para a Esplanada dos Bolsominions. Pois Ernesto “Che” “Olavo” Araújo é a melhor piada de Bolsonaro até agora. Que favor para a oposição! Num dia, Bolsonaro implode o Mais Médicos. No dia seguinte, escolhe como chanceler um diplomata recém saído da segunda classe -ei, ei, não é preconceito, ele foi promovido a ministro de primeira classe – o nome técnico do topo da carreira, o chamado embaixador- apenas no primeiro semestre deste ano, o que foi visto como uma quebra de hierarquia grave e sem precedentes no Itamaraty. Mais ou menos como um capitão comandar generais – mas deixa isso pra lá. O sujeito não é só um “trumpista”, baba ovo de Donald Trump, como a mídia reconhece, é um sujeito medíocre. Assim como a gente olha o Mourão e pensa, peraí, mas como ele pode ser tão sem noção se formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio – também frequentada por Bolsonaro -, a gente olha pro Ernesto Araújo e se questiona: gente, como o Itamaraty, com a excelência de seus quadros, aprovou a entrada desse cidadão?

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Indicado por Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, futuro chanceler idolatra Donald Trump e  chamou o PT de Partido Terrorista. É certo como dois e dois são quatro que vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. A nomeação foi criticada dentro do Itamaraty por ter acabado de ascender à carreira de embaixador. Elogios, só de Bolsonaro e do atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, para quem seu sucessor é um diplomata “bem conceituado”.

Em artigo intitulado “Trump e o Ocidente”, escrito em 2017, Araújo afirma que o nazismo é uma ideologia de esquerda. Acompanhem o trecho: “E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional‑socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista)”. Gente, o cara acredita que Hitler era de esquerda. O cidadão criou um blog na campanha eleitoral no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. Isso mesmo, ele é anti-globalização. Será que ele combinou isso com o “Posto Ipiranga?”.

Nessa colcha de retalhos que vem se costurando o Ministério Bolsonaro, é certo como dois e dois são quatro que o “menino” de Olavo de Carvalho, se tiver alguma voz de comando, vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. Colunistas de todas as vertentes políticas estão apavorados. “O presidente Jair Bolsonaro pode fazer uma política externa ideológica de direita. Foi eleito para governar e escolher os caminhos do país. Só não pode acusar os governos petistas de terem partidarizado a política externa, porque é exatamente isso que ele está fazendo em grau muito mais elevado. O embaixador Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores, por tudo o que disse até agora em seu blog de ativista, indica que o governo escolheu um alinhamento entusiástico a Donald Trump e isso tem um custo econômico”, escreveu Miriam Leitão, no Globo. “Ao escolher Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, Jair Bolsonaro inclina-se para o lado de Trump. O futuro chanceler é fã do presidente americano e, como ele, crítico da globalização, “que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, como escreveu em seu blog. É uma teoria estapafúrdia, mas coerente com a caça aos vermelhos desatada pelo bolsonarismo”, fez coro Clóvis Rossi, na Folha. “O novo presidente terá um chanceler à sua imagem e semelhança. O futuro ministro Ernesto Araújo não é apenas um bolsonarista de carteirinha. Ele também emula o chefe no discurso contra o “globalismo”, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural””, reforçou Bernardo Mello Franco, no Globo. O que escreveu o Merval, tá curioso? “É uma surpresa desagradável, que indica, pela primeira vez na montagem do Ministério, uma decisão de fazer na política externa exatamente o que criticava nos governos petistas, com sinal trocado.”

Satisfeito?

Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores

“E disseram que eu voltei americanizada
Com o “burro” do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”

“Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada”

Trecho de música que serviu de resposta sarcástica da grande Carmen Miranda a quem a criticava por fazer carreira em Hollywood, como se com isso fosse esquecer o Brasil. Seria uma carmelita descalça – sem trocadilhos – diante dos entreguistas de hoje

“O Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do Programa Mais Médicos (no Brasil) e assim comunicou à diretora da Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam a iniciativa”.
Nota do Governo Cubano. O comunicado não diz a data em que os médicos cubanos deixarão de trabalhar no programa. A Opas disse apenas que foi comunicada da decisão.

Até Dr. Hollywood, o parafinado, botocado e  candidato dele mesmo a ministro da Saúde de Jair Bolsonaro já entendeu. A meta na sua área é o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), que, com todos os seus (muitos) defeitos – gerenciais mais do que de verbas -, é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, que, aos trancos e barrancos – muitos barrancos -, busca garantir acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, para as pessoas cujo orçamento não cobre planos privados de saúde, não é opção preferencial do futuro governo. Seu projeto de educação, ao mesmo tempo, mistura “Escola sem partido”, doutrinação militar e cristã nas escolas, privatização do ensino técnico e controle das universidades públicas, com reitores biônicos. A escola onde há anos estuda meu casal de filhos me surpreendeu positivamente com um comunicado corajoso – o que só me confirmou o acerto no ensino construtivista. O título do texto basta: “Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?.” Fiquei orgulhoso. Na segurança pública, a política é a da Taurus e da CBC, manda a “bancada da bala”, o Estatuto do Desarmamento está com os dias contados. Armas para todos. Reagir à violência não com políticas sociais, mas com uma rajada diária de balas – pistolas nos porta-luvas dos carros e drones disparando para matar “bandidos” nas favelas. E na política exterior, ai meu Senhor, o novo chanceler, Ernesto Araújo, é o reflexo do alinhamento total com os Estados Unidos. O desejo oculto de voltar a ser colônia – dessa vez não de Portugal, mas da América de Trump. É, para dizer pouco, constrangedor.

É curioso observar que Bolsonaro, que passou a campanha afirmado que, se eleito, manteria uma política externa “sem viés ideológico” e criticando a ideologização do Itamaraty nos anos petistas, nomeie um sujeito que, como escreveu o jornalista Pedro Doria nas redes sociais, é “ideológico até o talo”. Para lastrear essa opinião. Os próprios jornais neste 15/11 chamam o futuro chanceler de “trumpista” – alguns como elogio. Durante a disputa eleitoral, Araújo criou blog no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. O alinhamento proposto pelo novo governo é tão estreito quanto o buraco da agulha por onde deveria passar o camelo.

Rebobinando a campanha eleitoral.  Em agosto, ainda em campanha, Bolsonaro declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil com base no exame de revalidação de diploma de médicos formados no exterior, o Revalida. A promessa também estava em seu plano de governo. Fora do Mais Médicos, os formados no exterior não podem atuar na medicina brasileira sem a aprovação no Revalida. Mas no caso do programa federal, todos os estrangeiros participantes têm autorização de atuar no Brasil mesmo sem ter se submetido ao exame. Bolsonaro disse ainda que “além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”. O presidente eleito acrescentou que “Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos – uns 70%, calcula – e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares”.”Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu no Twitter.

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‘Mais Médicos’ chegaram ao Ceará em 2013 com contrato de trabalho de três anos.  O programa virou um sucesso nacional: médicos estrangeiros onde os brasileiros não faziam questão de atender. Um tapa na cara do corporativismo. Afrontado seguidamente por Bolsonaro, que ameaçou até romper relações com Cuba, o governo cubano informou que decidiu sair do Mais Médicos, citando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito. Dilma Rousseff criou o programa para atender regiões carentes sem cobertura médica. Posts de Bolsonaro nas redes sociais – sua praia – tentam repassar a culpa para quem queria servir.

No que interessa aos rincões do país, vamos à matemática. Deixarão o país 8.332 profissionais cubanos. Mais de 24 milhões de pessoas podem ficar sem atendimento. São 1.600 municípios hoje com cubanos em seus hospitais. Pequenas cidades do Nordeste temem um “apagão médico”, já adiantou a Folha de S.Paulo. A reação de Bolsonaro? Todo cubano que quiser pedir asilo ao governo brasileiro vai obter. Desce o pano.

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Presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia Ernesto Araújo (ao lado dele) como novo ministro das Relações Exteriores. Segundo Bolsonaro, o novo chanceler é diplomata de carreira há 29 anos e um “brilhante intelectual”. De acordo com o site do Itamaraty, Araújo é o atual diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Ler seus textos recentes é um exercício de “sofrência”. USA! USA!
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Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Desejos ocultos de ainda ser colônia.

Pausa para reminiscências. Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Carmen se surpreenderia.

Sobre o “Mais Armas”, lembrei agora de um colega jornalista, nervosinho por natureza, pavio curtíssimo, que, numa carona ocasional, me surpreendeu um dia entrando numa briga de trânsito. Conhecido por seu temperamento explosivo, não deveria levar nem canivete no bolso de trás da calça. Nem para “Selvagem da Motocicleta” servia – desculpe, Coppola. Mas, me mostrou depois que os ânimos se acalmaram, tinha no porta luvas uma pistola, que, confessou, teve muita vontade de sacar. Havia crianças a bordo do lado de lá. Eu, do lado de cá, me encolhi no banco do passageiro. Por sorte, ninguém se feriu. Imagine esse potencial bangue-bangue como rotina, num país já violento até a medula. Mas entendo bem onde vamos parar com o programa “Armas para todos”. E “Drones para pobres”. Para que Bolsa Família, Bolsa Atleta, Água para Todos, Luz para Todos, Fome Zero, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Brasil Alfabetizado, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, Programa Universidade para Todos? E Mais Médicos? Vai para Cuba! Foram.

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E viva a internet, viva os memes!