A teologia da compreensão: Boff perdoa Ciro e ensina que é possível falar com o coração e não com o fígado

Ciro Gomes xingar alguém não é novidade. A trajetória política de Ciro é uma coleção de impropérios e ofensas, sejamos coerentes, dirigidas a pessoas de todo espectro político. Ele também é um bom orador, considero-o um sujeito articulado e inteligente e, sem dúvida, seria meu voto no segundo turno, se fosse ele a enfrentar o Coiso. Mas, bom, Ciro tem a língua solta. Xinga como quem espirra. Sai meio que involuntariamente. Normalmente, Ciro não xinga na cara. Xinga quando o ofendido está bem longe. Ou quando não pode se defender, como o repórter em Roraima, botado pra correr por seus seguranças. O repórter mandou mal demais. Mas é razoável ofendê-lo? Os ciristas, claro, piram. Dessa vez, a metralhadora giratória do ex-presidenciável do PDT, aquele que passou toda a transição do primeiro para o segundo turno na Europa e depois voltou sem apoiar Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro – não que isso tivesse salvo o petista, mas será uma omissão política que marcará sua vida pública – dessa vez mirou o teólogo Leonardo Boff.

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Boff, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluído, é para Ciro Gomes um “bosta” e “bajulador” de Lula. Ciro precisa urgentemente entrar numa máquina do tempo e voltar de 2022 para o final de 2018. Por que a coisa aqui está feia.

Quando li a primeira vez, achei que era fake news. Nem Ciro seria capaz de ofender Boff. Nem é pela barba branca, mas é como xingar Papai Noel porque não gostou dos presentes de Natal. O que fez Boff para despertar a ira de Ciro. Bom, Boff é amigo de Lula. Um dos amigos mais íntimos. Pseudônimo do catarinense Leonardo Genésio Darci Boff, hoje com 79 anos, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, o teólogo, escritor e professor universitário, graduado em Teologia no Instituto dos Franciscanos de Petrópolis do Rio de Janeiro e doutor em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha, já fez ele mesmo críticas ao PT. Aos excessos cometidos pelo partido, aos erros, aos desvios de sua história. E as levou a Lula. Não é um puxa-saco, é um amigo e um conselheiro. Mas em tempos de ódio, ricocheteiam sobre todos balas dirigidas a Lula.

À Folha de S. Paulo, nesta quarta, 31, Ciro jurou que nunca mais vai fazer campanha para o PT – uma salva de palmas para ele – e não revelou em quem votou no segundo turno. Oi??? Tá, ok, mas quando devia parar para respirar, Ciro puxou todo o oxigênio do cérebro e entrou no modo desgovernado. “Eles (“eles” são os petistas, tá gente) podem inventar o que quiserem. Pega um bosta como esse Leonardo Boff (que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad). Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras? (…) O Lula se corrompeu por isso, porque hoje está cercado de bajulador, com todo tipo de condescendências”, vomitou. Frei Betto é outro desses “bajuladores”, na concepção de Ciro.

Engraçado, eu fico aqui pensando se Ciro, mesmo sem subir no palanque de Haddad, tivesse dado uma entrevista, na véspera do segundo turno, chamando Bolsonaro – a quem já xingou antes – de “bosta”. Mas Ciro não vive no país de Bolsonaro, nesses quatro anos de mandatos dados ao ditador. Pode voltar para a Europa a hora que quiser, entrar num período sabático, alegar exílio político, ou uma baboseira dessas. Só que Ciro foi esmagado pela teologia da compreensão de Boff, que, ao invés de devolver as ofensas – ele jamais faria isso – disse que entende o excesso do pedetista causado pelo seu caráter furioso. “Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que ‘tem sobriedade e modéstia’”, disse Boff ao UOL. Para o teólogo, a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) representa um risco à democracia. “Precisamos de uma Arca de Noé onde todos possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper”, afirmou.

A diferença entre Boff e Ciro é que o primeiro vive em novembro de 2018, a dois meses do Coiso tomar posse. Ciro vive em 2022.

Roger e Bono dão show de democracia defendendo o país onde não nasceram. Judiciário questiona líder do Pink Floyd

O irlandês Bono Vox se uniu ao inglês Roger Waters para denunciar a eleição do fascismo que muitos brasileiros só vão enxergar quando vier tiro, porrada e bomba. Nas últimas semanas, vimos a esplêndida e corajosa – para nós, democratas, histórica- turnê do fundador do Pink Floyd, não se importando com vaias aqui e ali, denunciando a ameaça fascista no Brasil. Como já leram aqui, no penúltimo show da turnê de Roger Waters, no Estádio Major Antônio Couto Pereira, em Curitiba – berço da Lava Jato e um dos estados mais fascistas do país- , o músico não se acovardou diante das ameaças de ações judiciais que pediram para que não emitisse opiniões sobre as eleições. O #Elenão voltou ao telão do show, por 30 segundos, antes da proibição eleitoral (Vale seguir seu Twitter). Outro músico do primeiro time mundial e conhecido por seu ativismo político, o vocalista da banda irlandesa de rock U2, ironizou Jair Bolsonaro, presidente eleito, em um show em Belfast, na Irlanda do Norte. “Milhões de pessoas estão prestes a ter o seu Carnaval transformado em um desfile militar por um homem chamado capitão Bolsonaro. Esse é o seu nome”, disse Bono Vox, na noite de sábado, 27.

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“Mesmo hoje, nesse dia de eleição. Duzentos milhões de pessoas prestes a ter seu carnaval transformado numa parada militar por um homem chamado Capitão Bossa Nova. Bolsonaro, não esqueçam o nome. Muitos nomes, mas apenas um rosto. O meu.”
Bono Vox, líder do U2, em show em Belfast

Ao se fantasiar com seu personagem Mr Macphisto, paródia do diabo de Fausto, o cantor pergunta à platéia: “Vocês já viram um político assim antes? Os diabos de Macphisto estão tomando o controle ao redor do mundo”, respondeu, caracterizado com chifres vermelhos, pó branco no rosto e uma boca meio de ‘Coringa”, meio de monstro. Meio Temer, meio Bolsonaro. Mac” vem de McDonalds, uma representação do capitalismo feita pela banda. “Phisto” vem de Mefistófiles, o demônio que faz o pacto com Fausto, da obra do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. Fausto é um dos personagens mais complexos e conhecidos da literatura, que desiludido com o seu tempo, aceita o acordo com Mefistófiles. Em seguida, o cantor cita o presidente americano Donald Trump, o presidente filipino Rodrigo Duterte, que chama de “menino lindo”, e, por fim, Jair Bolsonaro. “O que vocês estão olhando, Belfast? Vocês nunca viram um político antes?”, perguntou o personagem durante o show. “Os demônios de MacPhisto estão tomando o poder ao redor do globo.” Queria muio estar lá, mas aí não poderia ter votado em Haddad.

Não nos esqueçamos que a coligação de Jair Bolsonaro entrou com ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a inelegibilidade de Fernando Haddad com argumento de propaganda irregular em favor do petista durante shows de Roger Waters. O medíocre ministro do desmoralizado TSE, Jorge Mussi, corregedor-geral eleitoral, que nada fez sobre a Fantástica Fábrica de Fake News montada pelo Coiso, conseguiu seus 15 segundos de fama ao pedir manifestação dos produtores responsáveis pelos shows de Roger Waters no Brasil por “propaganda eleitoral irregular”. No TSE desde outubro de 2017, o ministro votou contra candidatura do ex-presidente Lula com base na Lei da Ficha Limpa. País adernando, Judiciário na proa. Nós temos Chico Buarque, Roger Watares e Bono Vox, eles têm Magno Malta, Amado Batista e Fagner. Vergonha alheia à máxima potência.

Haddad não é Aécio, nem Bolsonaro. Derrotado, porta-se como um democrata

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O democrata Fernando Haddad e sua companheira de chapa Manuela d’Ávila: o primeiro exemplo de que somos diferentes dos fascistas está em reconhecer a derrota, virar a página , seguir em frente e lutar no voto para retomar os rumos do país à paz social. Enquanto Haddad voltou a dar aulas, o Posto Ipiranga de Bolsonaro, Paulo Guedes, deu seu primeiro piti só porque foi perguntado por uma jornalista argentina sobre Mercosul, que para ele deve ser um palavrão

Jair Bolsonaro retribuiu com ironia aos cumprimentos que o candidato derrotado do PT a presidente, Fernando Haddad, lhe enviou nesta segunda-feria, 29. Pelo Twitter, Bolsonaro respondeu: “Senhor Fernando Haddad, obrigado pelas palavras! Realmente o Brasil merece o melhor”. Mais cedo, Haddad havia escrito: “Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”, disse Haddad, que recusou-se a repetir o tucano golpista Aécio Neves que, desde a eleição de Dilma Rousseff, nas últimas eleições presidenciais, prometeu lutar para derruba-la- e foi o que fez com o apoio da cúpula do PSDB e do PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha.

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Conto de Aia a la Bolsonaro. A cena patética do primeiro pronunciamento do ex-capitão e fascista de plantão eleito, entre o cantor gospel e tarado fundamentalista Magno Malta, com a camisa da seleção, e o ator pornô Alexandre Frota, procurando novas “Brasileirinhas”. Como escreveu Milton Hatoum: “Pareciam membros de uma seita religiosa fundamentalista e não dirigentes de um Estado laico”. Brasil no fundo do poço.

Como agradar a todos é impossível, lideranças petistas, como Valter Pomar, criticaram o candidato do PT, acreditando que não deveria ter cumprimentado o candidato eleito do PSL. Haddad também foi criticado por eleitores dos dois lados da esfera política. Mas também foi muito elogiado pelo gesto digno. Até onde me lembro, isso o que Haddad fez se chama respeito à democracia. O mal está instalado, mas não adianta dar uma de avestruz. A resposta agora é na oposição, na vigilância democrática e no voto.

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Haddad, que não é o golpista Aécio Neves, nem o fascista Bolsonaro, cumprimenta, democraticamente, Bolsonaro pela vitória, chamando-o de “presidente”, e recebe uma resposta escrota do ditador eleito. Foi criticado até por petistas, que preferem dar uma de avestruz e fingir que o mal já não está está instalado, mas foi eleito e precisa ser derrotado no voto

Recordar é viver. Após o pleito de 2014 – quando Dilma venceu Aécio por 54 milhões de votos contra 51 milhões de votos dados ao helicopter junkie -, o PSDB entrou com um bizarro pedido de auditoria nas urnas eletrônicas – lembra alguém que andou duvidando das urnas até recentemente?. A partir do início de 2015, ao ser reeleito presidente do PSDB, o então senador e hoje deputado pé-de-chinelo afirmou, em convenção do partido, que Dilma Rousseff não concluiria seu mandato. E repetiu a ladainha de que perdeu as eleições presidenciais para “uma organização criminosa”, e não para um partido político, o que logo seria substituída pela farsa das pedaladas fiscais, com Eduardo Cunha, com TCU, com STJ, com Supremo, com tudo. Em entrevista publicada ao Estado de S.Paulo em setembro passado, Tasso Jereissati, ex-presidente nacional do PSDB, admitiu que o partido cometeu “um conjunto de erros memoráveis” em sua trajetória recente, o que inclui a contestação ao resultado da eleição presidencial de 2014. Tasso afirmou que o PSDB foi “engolido pela tentação do poder” ao se aliar a Michel Temer (MDB) após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e também reconheceu que os tucanos abandonaram “princípios básicos” do partido só para fazer oposição ao PT. Será que alguém acha que Haddad e o PT deveriam agora se unir a Ciro ou a Alckmin para contestar o resultado das urnas? Particularmente, não acho que o governo Bolsonaro dure muito e que vai ser escorraçado pelas ruas e pelo Congresso em um processo de impeachment. Fora isso, é urna, é voto.

Bozonaro presidente leva Brasil à beira de abismo onde pode cair – ou se salvar. Fascismo esbofeteou democracia e liberdade foi enclausurada. Mas nossa desgraça política será o purgatório para uma volta por cima

(Cenário: sentado em um bar, ouvindo os fogos de artifício da classe média entorpecida pelo ódio e espremida em frente ao condomínio rico, na Barra da Tijuca, onde mora o adorador de Brilhante Ustra, ouvindo Pink Floyd bem alto para abafar o discurso do ditador eleito e dos “comentaristas” da GloboNews, Mervais e tais, e para ter condições de escrever algo para meus leitores, mesmo em depressão política)

Não achei que teria condições de escrever esse texto se essa tragédia acontecesse – de verdade. Pensei em lacrar o blog. Consegui, afinal, deixar esse registro – para a posteridade. Ainda mais morando no Recreio dos Bandeirantes, vizinho da Barra da Tijuca, onde milhares de fascistoides de classe média, moradores de condomínios caros, saúdam, com suas mordomias, pensões fraudulentas e negócios escusos, com fogos e palavras de ordem, a ascensão de seu igual. É como panfletar no abismo, mas lá vai. Pausa para escutar Haddad, que, como Roger Waters, o inglês cabra macho que o nordestino Ciro Gomes não foi, falar em “resistir”. Defender seus 47 milhões de eleitores, eu, modestamente, entre eles. A maioria do povo brasileiro preferiu o ódio ao amor, trocou a chance da esperança pelo projeto do ódio, deixou de eleger um professor, um democrata – movidos pelo antipetismo, pelo direitismo e pela ignorância política – para entronizar um ex-capitão ignorante, preconceituoso, misógino, e que idolatra a ditadura e torturadores. Foram cerca de 10 milhões de votos de diferença e apenas o Nordeste a, majoritariamente, honrar o país novamente. Viva o Nordeste! – de novo. Mas são mais de 47 milhões de votos de uma nova oposição – que não é PT, é o Brasil democrático. Contra os que se apropriaram de nossa bandeira, de nosso hino, até da camisa da seleção.

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“Talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora. Eu coloco a minha vida à disposição deste país. Tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o Brasil acima da própria vida, do próprio bem-estar. (…) Não tenham medo, nós estaremos aqui”.
Fernando Haddad em discurso após a vitória do fascista Bolsonaro

A partir de janeiro o Brasil, que já teve o operário Lula e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso como presidentes no pós-ditadura, terá pela primeira vez, pelo voto, de ser governado pela extrema-direita. Senhoras e senhores, com vocês Bozonaro, o candidato do nanico PSL, partideco de aluguel – assim como Collor, eleito pelo igualmente tosco PRN, e que sofreu algum tempo depois, um processo de impeachment por sua empáfia política, putrefação moral e incapacidade econômica – que já defendeu ao longo de sua vida militar e política medíocre praticamente todas as práticas antidemocráticas que existem. Serão anos de resistência, dias difíceis, como na ditadura. Dia após dia .

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No bar onde escrevo esse texto, a TV ligada na Globonews e funcionários incrédulos assistem o discurso do fascista Bolsonaro. “Vamos, junto ao Ministério da Educação, deixar de lado qualquer temática voltada para ideologia ou voltada para o desgaste dos valores familiares. A família estará em primeiro lugar”. Aguarda-se a primeira fogueira de livros “comunistas”

Como se confirmou, o discurso de Bolsonaro, seguido de uma coletiva tosca, não foi de união nacional, foi de divisionismo. Demonizou o “comunismo” e o “esquerdismo” e propôs, num discurso sem máscaras – transmitido em tempo real de sua casa, pelas redes sociais, com sua mulher de um lado, e uma tradutora de sinais, do outro -, que o “Exército” do país “marche” em sua só direção. “Não poderíamos mais continuar flertando com o populismo, o esquerdismo e o socialista da esquerda”, disse. Bolsonaro dividiu o país no voto e mostra que, votos contados, continuará mantendo essa divisão. Isso não tem precedentes em um país democrático – coisa que não somos, como se sabe, desde o impeachment fake de Dilma Rousseff por pedaladas fiscais.

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Ciro, o Cabra Frouxo, que preferiu admitir Bolsonaro e calcular uma candidatura para 2022, a apoiar Haddad no segundo turno. Enterro político e desonra a Leonel Brizola

A responsabilidade é de todos nós, que não fizemos o suficiente. De erros de estratégia política. Mas, principalmente, de um conluio entre um momento político atípico, a intromissão parcial da mídia cartelizada, uma eleição manchada por fake news pelo candidato da direita e um tempo curto demais para criar uma alternativa para as forças progressistas. Haddad e Manu mostraram-se, ao fim, as pessoas certas, mas faltaram alguns dias para a virada que se desenhava. E sobraram traições. Ciro Gomes, um Nordestino, região que liderou a resistência, se omitiu no segundo turno, traindo seu estado, o Ceará, sua região, a memória de Leonel Brizola, do PDT, seu partido de ocasião. Cabra frouxo que preferiu assumir o risco do país eleger Bolsonaro para ter alguma chance em 2022. Vai para o cadafalso dos traidores da Pátria.

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O inglês Roger Waters, fundador do Pink Floyd, zelou em seu tour por nossa democracia, em seu pelo Brasil, mais do que muitos brasileiros. Esfregou o #Elenão até na cara dos fascistas de Curitiba, 30 segundos antes da proibição de manifestações imposta pelo TSE

Ficam cenas (ainda ouvindo Waters) como o Estádio Major Antônio Couto Pereira, em Curitiba, penúltimo show da turnê de Roger Waters, fundador do Pink Floyd, que não se acovardou diante das ameaças de Bolsonaro e de ações judiciais que pediram para que não emitisse opiniões sobre as eleições. O #Elenão voltou ao telão do show, por 30 segundos, antes das 22h. Faltaram alguns minutos, Roger. Mas na próxima conseguiremos. Tudo uma questão de Time.

 

Vira, virou: campanha formiguinha vira votos e esclarece indecisos contra o fascismo. Haddad está perto de ser eleito

Você esperava mais de Ciro Gomes, em sua platitude política? Que ele, por exemplo, diante da perspectiva de que um fascista como Bolsonaro fosse eleito, apoiasse Haddad – como fizeram, por exemplo, os antipetistas Rodrigo Janot e Joaquim Barbosa, para citar duas adesões recentes, entre tantas outras? Que subisse no palanque final com Haddad, alavancando a virada que se anuncia? Que ao menos postasse um vídeo nas redes sociais deixando claro seu apoio a Haddad? Um telegrama, pelo menos – ainda existem telegramas? Uma mensagem psicografada, quem sabe. Eu já disse que os eleitores de Ciro são muito melhores do que ele, como os eleitores de Haddad são melhores do que o PT. Ciro, na véspera da eleição mais importante da história recente do país, fez como o flácido João Doria(na): flagrado na suruba, gravou um vídeo ao lado da esposa defendendo a família e, claro, culpando o PT. Nas redes sociais, o candidato derrotado à Presidência do PDT, de volta ao Brasil após viagem à Europa, não declarou apoio a Haddad, como parte da militância de esquerda ainda esperava, e disse que vai “preservar um caminho” para que os brasileiros possam ter uma “alternativa”. O pedetista reconheceu que “todo mundo preferia” que ele “tomasse um lado e participasse da campanha”, mas ressaltou que não o faria. Seguiu a linha já desenhada pelo irmão Cid, senador eleito graças ao PT, e que, traiçoeiramente, usou um ato público de apoio ao PT para exigir “desculpas” do partido. Não há dúvidas. Ciro não se importa que Bolsonaro seja eleito, desde que ele esteja no páreo em 2022. Por isso, vou repetir, sem pretender ser messiânico: não esperava outra coisa de Ciro. Minha esperança está em seus eleitores. E nos indecisos – que visivelmente podem e precisam ser esclarecidos, ainda que no trajeto para a urna.

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Letícia Sabatella montou uma banca no centro do Rio de Janeiro; a ex do omisso Ciro Gomes, Patrícia Pillar, se disponibilizou para o diálogo; Leticia Colin e Luisa Arraes também foram para a rua conversando com as pessoas e virando voto; Herson Capri foi às ruas pra dialogar com as pessoas e virar voto; Leandra Leal, Marina Person, Laura Carvalho e Renan Quinalha montaram sua frente da virada do Centro de São Paulo, assim como Mariana Lima, Enrique Diaz e Maria Flor, viraram votos nas ruas; Guta Stresser escolheu como frente o Metrô da Barra, no Rio; Paulo Betti, militante histórico, panfletou e virou votos.

Na virada deste sábado para domingo, completei com um táxi uma corrida para casa. Estava com meus filhos, voltando do Maracanã. Pensava na segurança deles, desconsiderando a dor no bolso. Moro no Rio de Janeiro e entre o Maracanã e a Barra da Tijuca há um mundo de desigualdade e medo que todo o Brasil conhece bem. Na reta final da corrida, já com os filhos na casa da mãe, eu e o taxista, um morador do subúrbio do Rio, mudamos o tema de futebol – ele Vasco, eu Flamengo – para política. Quando a corrida se encerrou, meu amigo continuava Vasco, nem pretendi o contrário, mas deixou de ser um indeciso, propenso a votar em Bolsonaro, ou um potencial voto em branco. Havia compreendido que Haddad era a melhor opção para o país. O vira-vira foi intenso nos últimos dias, do trabalho de formiguinha nas redes sociais até campanhas de rua, inclusive com a presença de artistas, que convidavam os indecisos a refletir. Com diálogo e olho no olho, banquinhas, afeto e muita paciência, se mobilizaram nas ruas de diversas cidades do Brasil e se disponibilizam a conversar com eleitores indecisos. Tudo pela onda da virada, que acredito ser real, e não uma fantasia da minha bolha social. O instituto Vox Populi, o que mais se aproximou do resultado real no primeiro turno, mostra um empate, com uma poderosa onda pró-Haddad. Podemos virar neste domingo. Acredite.

Vira, virou: Haddad presidente reconciliará o país e devolverá golpistas a suas cavernas

Chegou a hora de votar. Brasileiras e brasileiros de todos os rincões do país vão sair de suas casas para o encontro mais especial da democracia: do cidadão com o voto. Não há meio termo e, descontando as exceções de praxe, não cabe omissão numa hora dessas. Até porque não há meio termo. Como poucas vezes na história, temos a colisão de lados diametralmente opostos da esfera política. Mais do que isso, para além da política e mesmo da ideologia, estamos diante de um confronto de dois mundos. Um democrático, representando a renovação das forças progressistas. O professor Fernando Haddad, e sua parceira de chapa, a jornalista Manuela d’Ávila, hoje representam a esperança de um país justo, igualitário, livre, fraterno, pacífico. A eleição de Haddad, que será arrancada no photochart, representará a devolução do país ao curso democrático e, com o tempo, a reconciliação nacional. A única chance de voltarmos a sermos todos irmãos nessa família complicada chamada Brasil.

Do outro lado, está a negação de tudo, o flerte com o fascismo, o divisionismo, uma chapa puro-coturno que prega o retrocesso e ameaça não apenas os programas sociais, mas as liberdades individuais e nosso recente reencontro com a democracia depois da ditadura implantada em 64  – e que os bolsominions idolatram, na maioria das vezes por pura ignorância. O candidato que cresceu no ódio, na pregação antidemocrática, na lavagem cerebral da mídia contra um partido e que criou como simbolo de campanha a morte – representada pelas armas -, lidera uma ultradireita violenta, sectária, preconceituosa. Um lobo tenebroso disfarçado como o cordeiro que devolverá os valores familiares e da pátria. Um candidato que fez a campanha mais suja da história, a ponto de inventar uma nova modalidade de mentira, montando com amigos empresários uma milionária fábrica de fake news pelo whatsapp, para entrar nos lares brasileiros por uma das janelas mais íntimas criadas pela tecnologia. Neste já histórico domingo, 28, poderemos, ao final do dia, desfilar na avenida um samba popular, ou rasgar uma página infeliz da nossa história (obrigado, Chico).

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Universidades invadidas pela polícia, impedindo manifestações democráticas contra o fascismo. O ensaio da orquestra ditatorial que vamos varrer para longe nas urnas

Nos últimos dias, uma das faces nefastas do fascismo, apoiado pela KKK norte-americana e visto até na mídia internacional mais neoliberal como uma ameaça, mostrou de vez a sua cara monstruosa, e hoje assusta até quem estava mais preocupado em destruir um partido, sem perceber que se botava ali o ovo da serpente, vindo na forma de um militar medíocre e de inteligência rasa, que passou a vida disseminando o mal e pregando contra os valores democráticos. E que, numa esquina de nossa vida política, eclodiu, atraindo os saudosistas das torturas, do elitismo e do preconceito vil contra minorias e tudo o que seja diferente com seu conceito doente de país.

No dia que antecede o grande dia, até nossa mídia destacou, entre constrangida e falsamente surpresa, a série de ações policiais e de dublês de fiscais eleitorais contra movimentos e ações estudantis de rejeição ao fascismo, invadindo o espaço sagrado de universidades de todo o país. Pelo menos 30 instituições foram alvo de operações da SS bolsonarista – caso emblemático da retirada da faixa “Direito UFF Antifascista da fachada da universidade em Niterói -, já treinando para o holocausto, sob a justificativa de propaganda eleitoral. Até a via de regra omissa procuradora-geral da República, Raquel Dodge, num soluço de bom senso, ajuizou ação por ver indícios claros de “ofensa à liberdade de expressão, de reunião e de cátedra. Reitores de universidades federais declararam repúdio e milhares de estudantes protestaram nas ruas. Da mesma forma, a ministra Cármen Lúcia concedeu neste sábado, 27, decisão para suspender os efeitos judiciais e administrativos que determinaram o ingresso de agentes da Justiça eleitoral e de policiais em universidades públicas e privadas.

Diante do grotesco Bolsonaro, a virada vai tomando a forma de onda que desafia os institutos de pesquisa.  Com 26,7 milhões de inscritos em seu canal no Youtube, que é um dos maiores do mundo, o youtuber Felipe Neto declarou seu voto em Fernando Haddad. Felipe, que não disfarça suas críticas ao PT, percebeu que existe um mal maior. Haddad também ganhou outros apoios de peso, como do jornalista Marcelo Tas, outro forte influenciador digital, e de Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, que chegou a cogitar ser candidato. Esses votos mostram que o antipetismo está perdendo para o medo da ameaça fascista.

Depois da linda campanha das mulheres pelo #EleNão, da comunhão democrática na Lapa, e de movimentos crescentes de rua de apoio a Haddad em capitais de todo o país, encerrar a campanha com a já conhecida resistência estudantil – revivendo a memória de Edson Luís de Lima Souto, secundarista brasileiro assassinado por policiais militares que invadiram o restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1968 – não poderia ser mais representativo. Se o cenário pré-ditatorial não está claro pra você, abra os olhos. Suas viseiras podem estar lhe cegando. E vamos para a virada.

A virada começou. Haddad será presidente

Não, não sou vidente. E obviamente nesse título tem voto, tem torcida e tem uma mensagem para você: não desmobilize. Não vá na onda dos institutos de pesquisa, relativize o que você lê na mídia tradicional, ignore as fake news, tente reverter um voto que seja – começando dentro de casa – e não deixe de votar no domingo, 28. Em Haddad e Manu, obviamente. Mas também não é só torcida. A visão emocionante da multidão nos Arcos da Lapa, no Rio, na terça, 23, mais do que um ato de enorme simbolismo e exemplo para o país, chamado não por acaso de “Ato da Virada” em apoio a Fernando Haddad, encharca os democratas – não apenas esquerdistas, a luta se tornou maior, você sabe disso – de esperança e respaldam um sentimento de há uma mudança no ar. Haddad e Manu tornaram-se maiores do que Lula e o PT – vejam que forma tortuosa de minimizar o antipetismo insuflado pela mídia, pelos eleitores que tiraram o ódio do armário e pelo exército de fake robôs tolerados pela Justiça Eleitoral, agredida nesta reta final até o limite do intolerável. Tornaram-se a única alternativa ao ao ódio, ao preconceito e ao retrocesso representados, com todas as medalhas coloridas e sem glória, pelo casal 20 do fascismo Bolsonaro-Mourão. Os apoios enrustidos de Ciro Gomes e Marina Silva – “apoio crítico” numa hora dessas é quase omissão – ajudaram, assim como o apoio de peito aberto de Guilherme Boulos. Mas, propaganda eleitoral à parte, foram Bolsonaro, filhos e apoiadores que têm feito o trabalho de desconstrução de si mesmos – ao contrário do papelão do PT com Marina Silva nas eleições passadas -, mostrando-se sem pudor com os antidemocratas que são. Sim, eles são assustadores. Sim, eles representam a volta às trevas.

Para não dizerem que não falei de números, usemos a matemática insuspeita de quem não quer a virada – mas não pode se desmoralizar. A vantagem de Bolsonaro sobre Haddad nas intenções de voto espontâneas caiu sete pontos porcentuais entre as duas pesquisas realizadas pelo Ibope no segundo turno. Embora mantenha a liderança em todas as abordagens, o Coiso teve uma queda mais acentuada nas menções em que os entrevistados dizem em quem pretendem votar sem serem estimulados com os nomes dos candidatos. Passou de 47% das intenções de voto espontâneas na pesquisa divulgada em 15 de outubro para 42% no levantamento divulgado na terça, 23. Caiu, inclusive, entre os evangélicos – apesar dos esforços dízimos de Edir Macedo, Universal e Record. O sincericídio torpe da trupe da caserna parece estar vencendo os púlpitos. Haddad, por sua vez, passou de 31% para 33% entre as duas pesquisas — a diferença entre os dois caiu de 16 para 9 pontos porcentuais. A movimentação dos dois candidatos também se repetiu nos votos válidos, que leva em conta a pesquisa estimulada e descarta os votos em branco, nulos e indecisos. Bolsonaro passou de 59% para 57% enquanto Haddad foi de 41% para 43%. No quesito rejeição – esse é um dado crucial porque ajuda a mergulhar o pântano dos indecisos, por mais filtros que se coloque – Bolsonaro subiu de 35% para 40%, salto de 5 pontos percentuais. Em contrapartida, a rejeição a Haddad diminuiu de 47% para 41%, baixando 6 pontos, números que favorecem o candidato da Coligação “O Povo Feliz de Novo”.

Tem mais. Enquanto Haddad segue massacrando Bolsonaro no Nordeste, o que tende a ser ampliado no mata-mata do segundo turno, a guerra do Sudeste-Sul também dá sinais sólidos de mudança. Na capital de São Paulo, o ex-prefeito Haddad já aparece com 51% dos votos válidos, ultrapassando os 49% dos votos de Bolsonaro – segundo o mesmo Ibope. Algo está se movendo e, no caso de São Paulo, já foi apelidado pela mídia de “Bolsodoria”. O voto casado em Bolsonaro para presidente e Doria para governador, micou. Segundo o Ibope, a dupla Fascistão e Milionário tem nesse momento pior desempenho entre os paulistanos do que entre os moradores do interior de São Paulo. Na capital paulista, Haddad chega a estar numericamente à frente de Bolsonaro, enquanto Márcio França, candidato do PSB e adversário de Doria na disputa estadual, lidera com 18 pontos de vantagem em relação ao tucano. Memória breve: Doria renunciou ao cargo de prefeito para disputar o governo do estado pouco mais de um ano depois de assumir, em 2017, mesmo tendo se comprometido a ficar na prefeitura até o fim do mandato. A onda de ódio espalhada pelo capitão-fujão de debates incomodou de tal forma que o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do PSDB Alberto Goldman afirmou nesta quarta, 24, que irá votar em Haddad para presidente. Em um vídeo e texto publicados em sua página no Facebook, Goldman disse que “votará em Fernando Haddad contra a ameaça aos valores democráticos”. Dessitiu de votar nulo. Mais gente insuspeita tem feito essa reflexão.

Enquanto isso, naquele país que corremos o risco de ser amanhã – e onde até a mídia do país compara Trump a Bolsonaro – o envio de pacotes com explosivos direcionados a críticos do presidente norte-americano está consternando a sociedade norte-americana. A distribuição dos artefatos começou na segunda, 22, e teve como alvos membros ou apoiadores do Partido Democrata – oposição a Trump. Depois disso, foram “presenteados” George Soros, doador de campanha dos democratas, no estado de Nova York, o ex-presidente Bill Clinton r Hillary Clinton, adversária de Trump nas eleições de 2016, e o escritório do ex-presidente Barack Obama. “Violência política não têm lugar nos EUA”, diz agora Trump, porteira arrombada. Alguém aqui se lembra como Bolsonaro começou a aparecer na mídia?

Ditador Bolsonaro quer fim do MEC e reitores biônicos nas universidades federais. Militar psicopata xinga e ameaça presidente do TSE. Doria cai na Pegadinha do Malandro

Está enterrado há oito anos em um cemitério de Brasília, com uma lápide queimando com fogo fátuo, o Capitão de mar e guerra José Carlos de Almeida Azevedo, último reitor biônico da Universidade de Brasília, indicado pela ditadura. Meu primeiro ano como estudante de Jornalismo na UnB teve esse verme como reitor. Felizmente, meu diploma não foi assinado por ele. Preposto do regime entre 1976 e 1985, com a universidade em ebulição democrática, Azevedo permitiu, por exemplo, que a Polícia Militar invadisse o campus da UnB para inibir uma greve estudantil. Reitores biônicos eram um dos símbolos da ditadura e do enterro da educação. Nos subterrâneos de um hotel em Brasília, a equipe que prepara o plano de governo do Coiso tem em mãos o calendário de escolhas dos reitores das universidades federais e um estudo sobre quem é quem nas instituições de ensino superior para servir de análise. A ideia: acabar com a escolha dos reitores pelas comunidades acadêmicas e retomar os reitores biônicos. Bolsonaro quer ir mais longe. Acabar com o Ministério da Educação. Se a reação for grande, vai colocar ali um militar na linha do general quatro neurônios Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para a educação em um eventual – vade retro – governo Bolsonaro. Entre outras boçalidades, ele defende queimar livros, recontar a história da ditadura de 64 e ensinar criacionismo nas escolas públicas.

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Equipe do ultradireitista Bolsonaro planeja acabar com o Ministério da Educação e escolher reitores das universidades federais. Auxiliares do candidato, que trabalham nos subterrâneos de um hotel em Brasília, propuseram ao Coiso que, uma vez eleito, não escolha o primeiro da lista e encontre um biônico, de preferência fardado

“Optam por manifestar ódio visceral e demonstrar intolerância com aqueles que consideram inimigo. Tem incapacidade de conviver com harmonia no seio de sociedade fundada em bases democráticas. Todo esse quadro imundo que resulta no vídeo, longe de traduzir liberdade de palavras, constitui corpo de delito com ofensas”.
Ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal

As cadelas fascistas de Bolsonaro, Mourão e demais tarados por torturadores seguem em seu cio antidemocrático há poucos dias do pleito. Nas redes sociais e grupos de whatsapp dissemina-se o ódio e prega-se a violência. Uma dessas bestas feras, um homem identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves não se deu ao trabalho de esconder o rosto e limpar a baba ao gravar e postar um vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber – numa clara tentativa de intimidação. Coisa que, por sinal, Bolsonaro e família têm feito diretamente. No vídeo, Alves chama Rosa Weber de “vagabunda” e afirma que, se o TSE aceitar ação contra seu candidato de extrema de direita irá sofrer as consequências. “Se aceitarem essa denúncia ridícula e derrubarem Bolsonaro por crime eleitoral, nós vamos aí derrubar vocês aí, sim”, diz o vídeo.

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O STF vai fazer o mínimo: investigar as agressões de um militar boçal que gravou um vídeo babando ódio e ameaçando e xingando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, tentando intimida-la caso barre a candidatura do ogro Bolsonaro

Dessa vez, nossas Cortes, omissas até a medula desde o início do processo eleitoral, ajudando a criminalizar Lula e o PT, única alternativa democrática à onda fascista, não ficaram só no declaratório – ainda que se destaque a fortíssima frase do decano Celso de Mello, sempre contido, atacando o que sempre esteve visível: o “ódio visceral” e a “intolerância (dos bolsominions) com aqueles que consideram inimigo”. A Segunda Turma do Supremo aprovou, por 5 votos a zero, requerimento para que a Procuradoria Geral da República investigue o vídeo do coronel Alves, parasita da democracia, que esquece quem paga seus soldos, o povo.

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“A cadela do fascismo está sempre no cio”,  escreveu Bertolt Brecht. Uma dessas cadelas alimentadas pela onda Bolsonaro, identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves, grava e posta vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber. Besta sem culhões.

O PT havia pedido ao TSE para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos, sustentado pela descoberta pela Fantástica Fábrica de Fake News montada pela engenharia suja do capitão, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo. O jornal relata casos de empresas apoiadoras de Bolsonaro que compraram pacotes de disparo de mensagens contra o PT por meio do WhatsApp. Essa prática é ilegal por ser evidência clara de doação de campanha feita por empresas. Desde 2015, empresas estão proibidas de fazer doação eleitoral. Segundo o jornal, as empresas apoiadoras de Bolsonaro compram um serviço chamado “disparo em massa” usando a base de usuários do candidato do PSL ou bases vendidas por agências de estratégia digital.

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A piada do dia tem botox “Sex tapes” que colocam João Doria, absorto, numa suruba com algumas “modelos” contratadas – só assim -, fez o candidato ao governo de São Paulo gravar vídeo no Instagram. Não, ele não se retratou. Ao lado da mulher Bia, negou que seja o cidadão quase desfalecido na cama com as beldades remuneradas. Geração de emprego?

Sex Tapes e Doria – E o que qualquer assessoria recomendaria a um candidato envolvido num suposto escândalo de “sex tapes”, sem que ninguém tenha certeza se é ele mesmo que aparece no vídeo? Não fale do assunto se não for absolutamente essencial, senão promoverá a suposta infâmia (Doria nega que seja ele o personagem masculino deitado na cama, meio desanimado, em meio a uma suruba com “modelos”). Não, Doria, que idolatra os americanos, copia até o padrão (equivocado) dos gringos de lidar com crises como essas. Ao lado da mulher, calada, semblante fechado, nega veementemente que seja o homem no vídeo que viralizou. E, claro, culpou o PT. “Essa baixaria é obra daquele que vai à missa sendo ateu, joga fora a Bíblia que recebeu de presente de um desavisado e que recebe ordens de um corrupto, ladrão e presidiário! FORA PT”, escreveu. Virou fenômeno de compartilhamentos e menções nas redes sociais. “Doria” e “João Doria” foram parar no trending topic do Twitter mundial. Bom ou ruim para o candidato? Nesse país, difícil dizer. Pode ganhar pontos pela exuberância das divas, mas perder pela flacidez de seu comportamento. Por razões sentimentais não postaremos os vídeos – você vai achar ou já recebeu pelo whatsapp. Fique com o “pronunciamento” consternado de Doria, fritando de ódio a ponto de derreter o botox.

No bueiro da família Bolsonaro, fechar o Supremo é só uma das opções. Se não querem “eleger” uma ditadura, eleitores ainda têm alguns dias para pensar

A família Bolsonaro é tudo, menos imprevisível. É como um subterrâneo fétido onde basta levantar qualquer tampa de bueiro, em qualquer ponto, e sabemos que virá um mau cheiro insuportável. Jair Bolsonaro – e sua família -, como descreveu até o The New York Times em editorial “é um brasileiro de direita com opiniões repulsivas. Ele disse que preferiria um filho morto a um homossexual; que uma colega no Congresso era feia demais para ser estuprada; que os afro-brasileiros são preguiçosos e gordos; que aquecimento global é apenas uma ‘fábula’. Ele é nostálgico dos generais e torturadores que governaram o Brasil por 20 anos. No próximo domingo, no segundo turno da eleição, o Sr. Bolsonaro provavelmente será eleito presidente do Brasil”. Bom, esperemos que o NYT esteja errado pelo menos na última frase. O NYT esqueceu de listar a defesa de Bolsonaro da isenção de julgamento de PMs que matam em serviço – o aval para a carnificina em áreas pobres. Ou alguém imagina que se esteja falando de ações em condomínios na Barra da Tijuca, Morumbi ou Lago Sul?

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O editorial do NYT que chama Bolsonaro de homem de direita “com opiniões repulsivas”. “Ele disse que preferiria um filho morto a um homossexual; que uma colega no Congresso era feia demais para ser estuprada; que os afro-brasileiros são preguiçosos e gordos. (…) Ele é nostálgico dos generais e torturadores que governaram o Brasil por 20 anos.”

O último bueiro levantado do esgoto de ideias desses ogros que alternam farda e terninho é um vídeo capturado em 9 de julho. Quando respondia a perguntas de alunos de um curso preparatório para concurso da Polícia Federal, o deputado federal Eduardo Bolsonaro se manifestou sobre a possibilidade de o Supremo impugnar a candidatura de seu pai. “Eles vão ter que pagar para ver”, afirmou. “O pessoal até brinca: se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo. Não é querendo desmerecer o soldado e o cabo. O que é o STF, cara? Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua?” (Assista). No vídeo, ele também menciona o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a “moral” do juiz Sergio Moro. “É igual a soltar o Lula. O Moro peitou um desembargador que está acima dele, por quê? Porque o Moro está com moral pra cacete. Você vai ter que ter c. para conseguir reverter uma decisão dele. Ele só joga lá. Quero ver quem vai dar o contrário”, concluiu. Ministros do STF reagiram, como o decano do tribunal, Celso de Mello, que disse a Mônica Bergamo que a declaração era “inconsequente e golpista”. O vaga-lume político FHC piscou: as afirmações “cheiram a fascismo”. E ficamos por isso mesmo,  segue a campanha. Mais um dia, mais um passo para o cadafalso.

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O ogro Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado da história do País, com 1,8 milhão de votos, e a prosaica defesa do fechamento do STF: “Se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo”. Ensaio para uma inevitável ditadura, que ainda pode ser detida pelo voto.

Papai Bolsonaro, candidato da KKK, como já fez outras vezes com os filhos e com Mourão, o general em quem pensa mandar, tentou dar uma de Mandrake, hipnotizando a platéia. Primeiro questionou se não foi tirado do contexto. “Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra.” Até aí ia bem. E aí mudou o foco. “Está havendo hoje manifestação em todo o Brasil. É sinal de que a população está realmente preocupada com o futuro e quer alguém diferente do PT na presidência.” Oi? Eduardo recuou, sem convicção. Jogo de cena. Como os áudios vazados de William Waack ou de Boris Casoy, seguidos de sinceras desculpas. Em breve, se o exército de robôs seguir zumbindo fake news nos grupos de Whatsapp e nas redes sociais, com a complacência da Justiça Eleitoral, e os zumbis bolsominions continuarem seu caminho trôpego até as urnas, nem mais desculpas virão. Nós sabemos o que virá. Uma ditadura que não vai durar dois anos até ser engolida pelos próprios bueiros que abriu.

VAR pode VARrer Bolsonaro por infestar Whatsapp de Fake News; Empresários confessam dinheiro sujo na campanha

“Primeiro turno é Bolsonaro. Pra nós não ter que gastar (sic) mais dinheiro. Pra não ficar gastando no segundo turno. Quem tá indeciso é lá, é lá que tem que ser, porque ‘cabou, nós gasta (sic) menos dinheiro”.
Mário Gazin, na linguagem típica dos canalhas sovinas, fundador e presidente do conselho de administração do Grupo Gazin, ao lado de outro sangue-suga, Luciano Hang, dono da Havan, em twitter postado pelo próprio Bolsonaro.

O TSE, por enquanto, está petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Duas mulheres fortes no comando das duas casas – hora de dar umas marteladas para que Rosa Weber e Raquel Dodge não deem uma de Medusa. A Polícia Federal de Temer sabe-se lá o que faz, mas costuma ter bom senso de sobrevivência. Fato é que começam a transbordar pelo esgoto da campanha suja de Bolsonaro confissões de empresários, que, sem necessidade de acareação, confirmam as graves denúncias da Folha de S.Paulo de que foi montada pela campanha do PSL uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News’, sustentada com doações ilegais, o popular caixa 2, para produzir uma avalanche de disparos pelas redes sociais e WhatsApp para uma base de usuários. Objetivo: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT na última semana da campanha. Como se ainda fossem necessárias mais provas, como a declaração de Bolsonaro de que “não controla” seus apoiadores – Oi? -, bombou na rede um vídeo compartilhado orgulhosamente, no dia 28 de agosto – portanto, antes da votação do primeiro turno -, pelo candidato do PSL à Presidência, onde Luciano Hang, dono da Havan – o tarado da Estátua da Liberdade – pergunta para o empresário Mário Gazin, outro magnata endinheirado do varejo, em quem votar. No jogral patético, Gazin responde, candidamente, a la Tio Patinhas: “Bolsonaro, e no primeiro turno, para nós não ter (sic) que gastar mais dinheiro no segundo turno”. Opa!

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Empreendedores ricos, mas politicamente estúpidos: Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos canalhas sovinas, gravam vídeo de apoio de apoio a Bolsonaro, mas Gazin só sabe falar do dinheiro que não aguenta mais gastar na campanha. Batom na cueca do caixa 2.

Sócios e executivos do Grupo Gazin doaram, como pessoas físicas, R$ 300 mil para o Diretório Regional do Democratas em Mato Grosso como contribuição eleitoral no primeiro turno, mas naquela ocasião dentro do “caixa 1”, como pessoas físicas. Os doadores foram Jair José Gazin, Mario Valério Gazin, Rubens Gazini, Antônio Roberto Gazin e João José da Silva. No total, o partido recebeu R$ 1.536.000 em doações desses filantropos. O Grupo Gazin é uma das maiores redes varejistas e atacadistas do País, além de aturar em outras áreas como consórcio, serviços, indústria de colchões, estofados, espumas, molas, distribuição de combustíveis, financeira, viagens e comércio eletrônico. Não duvido que tenham erguido seus impérios com enorme esforço pessoal, mas suas posições políticas e métodos de cooptação no mínimo levantam suspeitas sobre a rapidez com que enriqueceram, para dizer o mínimo. Aliás, sintam o nível desse cidadão Hazan.

É a ponta do iceberg? É. Uma protuberante ponta. Um grupo de 30 juristas, entre eles um ex-ministro do Supremo e um ex-ministro da Justiça, entregou à presidente do TSE, Rosa Weber, documento cobrando o mínimo: providências sobre o esquema de disseminação de mensagens contra o PT pago por empresas por meio do WhatsApp. “Se existe a lei que exige ficha limpa, por qual razão pode-se admitir que as eleições sejam contaminadas por propaganda irregular-ilícita?”, questionam os juristas. Entre os 30 signatários estão Lênio Streck, Sepúlveda Pertence (ex-ministro do STF), Celso Antônio Bandeira de Mello, Antônio Carlos de Almeida Castro Kakay, José Eduardo Martins Cardozo (ex-ministro da Justiça) e Alberto Zacharias Toron. O documento anexa uma série de exemplos de fake news disseminadas ao longo da campanha contra o candidato do PT.

A campanha de Fernando Haddad virou suas baterias para o caso, como não poderia deixar de ser, descolou as marcas de palco e os programas pre-gravados de lado para centrar fogo no horário eleitoral gratuito na televisão no esquema de propaganda ilegal pelo WhatsApp contra o PT. O programa petista conseguiu, talvez pela primeira vez na campanha, deixar Bolsonaro no córner, acusando a candidatura rival de ser bancada com “dinheiro sujo” de uma “organização criminosa”. Bolsonaro revidou com seu jeito meigo xingando Haddad de “canalha” e “vagabundo”, logo ele um bunda-suja. Explico aos não iniciados.

Vieram à tona entrevistas feitas há 40 anos com o então general-presidente Ernesto Geisel, o quarto e penúltimo da ditadura, concedidas à cientista política Maria Celina d’Araújo e ao antropólogo Celso Castro, entre julho de 1993 e abril de 1994 — e que, mais tarde, viraram um livro. Geisel afirma: “Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. O deputado é conhecido na corporação como “bunda-suja”, o termo usado pelos militares de alta patente — como Geisel — para designar aqueles que não subiram na carreira. Hoje ele está cercado de quatro estrelas de pijamas, saudosistas como ele do regime militar, e por parte da tropa iludida com seu discurso de volta aos “anos dourados” do regime.

E se Ciro Gomes emudeceu em seu descanso europeu, e seu irmão Cid trocou os pés pela língua transformando um ato de apoio a Haddad, em Fortaleza, em munição para Bolsonaro, o PDT – certamente autorizado por Ciro – apresentou ao TSE uma ação nesta sexta, 19, na qual pede que seja investigado o suposto esquema de financiamento ilegal de campanha por meio de empresários que teriam contratado o disparo de mensagens via WhatsApp como forma de favorecer o candidato Jair Bolsonaro. Na ação, o PDT acusa a campanha de Bolsonaro de disseminar fake news com o objetivo de prejudicar os adversários na campanha e defende que os votos dados a Bolsonaro no primeiro turno sejam anulados, com a convocação de novas eleições. A ação casa – complementa – com pedido do PT, na véspera, para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos. A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, se reuniu com a ministra Rosa Weber. Após a reunião, o advogado do partido, Eugênio Aragão, afirmou que a ministra prometeu uma resposta breve.

O processo do PDT, uma Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral), foi movido como repercussão à reportagem da Folha de S.Paulo, que na quinta, 18, apontou que empresas privadas estariam comprando pacotes de disparo em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp, com contratos de até R$ 12 milhões. Nesse turbilhão de emoções na reta final, o TSE, que havia convocado solenemente uma entrevista coletiva, junto com a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, para esta sexta, 19, remarcou-a para domingo, 21, às 14h, na sede do tribunal em Brasília. O caldo engrossou.