Maitê Proença no Meio Ambiente faz todo o sentido. Que o digam as cachoeiras…

Eu não falei que o Dr Rey – que levou a porta na cara no condomínio de Bolsonaro, na Barra da Tijuca – estava certo em sonhar? Quem não chora, não mama. Quem não pede, não leva. Quem não faz lobby é inocente. Dr Rey só queria acabar com o SUS e nos dar a chance de ter um ministro da Saúde que fala portuglês. Não desista, Dr Rey. Se o ex-astronauta garoto propaganda de travesseiros, Marcos Pontes, pode ser ministro da Ciência e Tecnologia, se a deputada Tereza Cristina, a “musa” dos agrotóxicos – ela propõe flexibilizar as regras para fiscalização e aplicação desse veneno nas plantações – pode ser a chefe da Agricultura, se o fundador do Ibmec, hoje Insper, e do banco BTG, pode ser o guardião da Fazenda, se o juiz Sérgio Moro, que botou Lula na cadeia, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro, pode ser o xerife da Justiça/Polícia Federal, se Onyx Lorenzoni, parte da “Bancada da Bala”, financiado a vida toda pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Forjas Taurus, pode ser o chefe da Casa Civil, qual é o problema do cirurgião plástico vendedor de pulseiras bioquânticas querer uma vaguinha na Esplanada?

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O superministério Bolsonaro, reunindo o melhor que o marketing tem: Maitê “Dona Beija” Proença, que entende tudo de biodiversidade, pode ir para o Meio Ambiente; o ex-astronauta Marcos Pontes, que vende “travesseiros da Nasa”, vai para Ciência e Tecnologia e pode controlar universidades públicas; Na Agricultura, Tereza Cristina, darling da Bayer – dona da Monsanto -, dona do RoundUp, agrotóxico mais popular do mundo; Paulo Guedes, Ibmec, BTG, “Posto Ipiranga” da Economia; e Dr Rey, o injustiçado, que só queria chefiar a Saúde pra jogar o SUS, do qual entende tanto quanto de senso de ridículo.

Deixem de ser preconceituosos com as subcelebridades! Prova disso é que a atriz, poeta, ex-Saia Justa Maitê Proença – menos conhecida pelas novelas globais, mas por ter arrebentado a banca na capa de fevereiro de 1987, há mais de 30 anos, da Playboy – , que pode ser nossa nova ministra do Meio Ambiente. Eu disse Meio Ambiente, galera, não Cultura. O ex-ator pornô Alexandre Frota, um dos sucessos da produtora Brasileirinhas, e eleito deputado apoiando Bolsonaro, pode manter as esperanças de uma vaga na Cultura. Maitê tem uma relação intrínseca com a mãe natureza. Fotografada por JR Duran, fotógrafo favorito de muitas estrelas, foi catapultada ao estrelato justamente pelos banhos de cachoeira – cachoeira, meio ambiente, tudo a ver! – no papel da sensual Dona Beija, protagonista da novela da hoje extinta TV Manchete. Foi recorde de vendagem por quase dez anos, até que, em 1995, Adriane Galisteu se despiu para a publicação. Maitê posou novamente, mas o primeiro ficou sendo seu ensaio mais lembrado.

Foi divulgado que o nome de Maitê foi proposto ao presidente eleito Jair Bolsonaro para a pasta do meio ambiente “por um grupo de ambientalistas, economistas e pesquisadores”, como adiantou a coluna de Ancelmo Gois nesta segunda, 12. Ela teria um “bom trânsito na área ambiental e fora dela”. Provavelmente, tanto quanto a ex-seringueira, ambientalista e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem de acesso ao mundo cinematográfico de Alexandre Frota. O empresário Paulo Marinho, ex-marido de Maitê Proença e ligado à campanha de Bolsonaro, considerou o nome da atriz para o Meio Ambiente “uma loucura”. Ah, o preconceito. Assim fica difícil formar um ministério de alto nível.

A teologia da compreensão: Boff perdoa Ciro e ensina que é possível falar com o coração e não com o fígado

Ciro Gomes xingar alguém não é novidade. A trajetória política de Ciro é uma coleção de impropérios e ofensas, sejamos coerentes, dirigidas a pessoas de todo espectro político. Ele também é um bom orador, considero-o um sujeito articulado e inteligente e, sem dúvida, seria meu voto no segundo turno, se fosse ele a enfrentar o Coiso. Mas, bom, Ciro tem a língua solta. Xinga como quem espirra. Sai meio que involuntariamente. Normalmente, Ciro não xinga na cara. Xinga quando o ofendido está bem longe. Ou quando não pode se defender, como o repórter em Roraima, botado pra correr por seus seguranças. O repórter mandou mal demais. Mas é razoável ofendê-lo? Os ciristas, claro, piram. Dessa vez, a metralhadora giratória do ex-presidenciável do PDT, aquele que passou toda a transição do primeiro para o segundo turno na Europa e depois voltou sem apoiar Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro – não que isso tivesse salvo o petista, mas será uma omissão política que marcará sua vida pública – dessa vez mirou o teólogo Leonardo Boff.

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Boff, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluído, é para Ciro Gomes um “bosta” e “bajulador” de Lula. Ciro precisa urgentemente entrar numa máquina do tempo e voltar de 2022 para o final de 2018. Por que a coisa aqui está feia.

Quando li a primeira vez, achei que era fake news. Nem Ciro seria capaz de ofender Boff. Nem é pela barba branca, mas é como xingar Papai Noel porque não gostou dos presentes de Natal. O que fez Boff para despertar a ira de Ciro. Bom, Boff é amigo de Lula. Um dos amigos mais íntimos. Pseudônimo do catarinense Leonardo Genésio Darci Boff, hoje com 79 anos, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, o teólogo, escritor e professor universitário, graduado em Teologia no Instituto dos Franciscanos de Petrópolis do Rio de Janeiro e doutor em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha, já fez ele mesmo críticas ao PT. Aos excessos cometidos pelo partido, aos erros, aos desvios de sua história. E as levou a Lula. Não é um puxa-saco, é um amigo e um conselheiro. Mas em tempos de ódio, ricocheteiam sobre todos balas dirigidas a Lula.

À Folha de S. Paulo, nesta quarta, 31, Ciro jurou que nunca mais vai fazer campanha para o PT – uma salva de palmas para ele – e não revelou em quem votou no segundo turno. Oi??? Tá, ok, mas quando devia parar para respirar, Ciro puxou todo o oxigênio do cérebro e entrou no modo desgovernado. “Eles (“eles” são os petistas, tá gente) podem inventar o que quiserem. Pega um bosta como esse Leonardo Boff (que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad). Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras? (…) O Lula se corrompeu por isso, porque hoje está cercado de bajulador, com todo tipo de condescendências”, vomitou. Frei Betto é outro desses “bajuladores”, na concepção de Ciro.

Engraçado, eu fico aqui pensando se Ciro, mesmo sem subir no palanque de Haddad, tivesse dado uma entrevista, na véspera do segundo turno, chamando Bolsonaro – a quem já xingou antes – de “bosta”. Mas Ciro não vive no país de Bolsonaro, nesses quatro anos de mandatos dados ao ditador. Pode voltar para a Europa a hora que quiser, entrar num período sabático, alegar exílio político, ou uma baboseira dessas. Só que Ciro foi esmagado pela teologia da compreensão de Boff, que, ao invés de devolver as ofensas – ele jamais faria isso – disse que entende o excesso do pedetista causado pelo seu caráter furioso. “Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que ‘tem sobriedade e modéstia’”, disse Boff ao UOL. Para o teólogo, a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) representa um risco à democracia. “Precisamos de uma Arca de Noé onde todos possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper”, afirmou.

A diferença entre Boff e Ciro é que o primeiro vive em novembro de 2018, a dois meses do Coiso tomar posse. Ciro vive em 2022.

Moro ministro de Bolsonaro é prova da trama política que levou ao impeachment de Dilma, à prisão de Lula, à eclosão do antipetismo e à entrega do pré-sal

Dilma Rousseff é reeleita. Aécio Neves jura a presidente de impeachment e pede recontagem dos votos. PMDB e PSDB inviabilizam o governo petista no Congresso e o asfixiam com “pautas bomba”. Eduardo Cunha condena Dilma Rousseff por pedaladas fiscais. Michel Temer assume e realiza o oposto do programa da chapa eleita e segue a cartilha neoliberal, rifando o pré-sal. Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, apresenta seu power point colocando Lula como chefe do esquema. O juiz Sérgio Moro condena e manda prender Lula, tirando-o da disputa presidencial. Chegam as eleições e o candidato do PSL monta uma fantástica fábrica de fake news pelo whatsapp contra Haddad, denunciada pela Folha, mas a Justiça Eleitoral- como antes o TCU, o STJ e o Supremo – fingem de mortos. Bolsonaro fecha um pacto de sangue com Edir Macedo, o sangue-suga-mor da Igreja Universal do Cofre de Deus. A mídia bota carga no antipetismo, tenta emplacar alguns candidatos fake, como Luciano Huck, até que, no funil do segundo turno, cai nos braços do ultradireitista Bolsonaro. Às favas o país. Bolsonaro é eleito menos pelos seus zumbis e robôs, e mais pelos mais de 30% dos brasileiros que optaram pelo “não voto” – 42,1 milhões de Pilatos. Bolsonaro monta um ministério patético e – como se tirasse um ás da manga – convida para comandar o Ministério da Justiça – e a Polícia Federal – o responsável pela Lava Jato, Sérgio Moro, que aceita. Está mais claro agora ou é preciso um power point?

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Em nome do pai, do filho e do fascismo. Moro, o cara que perseguiu o PT, arrancou delações a fórceps – tirando o sigilo da de Palocci durante as eleições – e mandou prender Lula para que não fosse candidato, aceitou convite de Bolsonaro e diz que será ministro da Justiça para “afastar riscos de retrocessos”. Como o próprio vice Mourão confessou, o convite se deu durante a campanha.. Em nota, o Judge Dredd da terra dos pinhais prometeu “forte agenda anticorrupção”. Contra quem será?

Moro não será apenas um ministro de Bolsonaro. Terá poderes tão grandes que já está aberta a temporada de apostas de que já é um candidato natural à sucessão do Coiso. Moro, que jurou em entrevista ao Estadão em novembro de 2016, que jamais entraria para a política, não só entrou de cabeça, ao aceitar ser ministro do candidato vitorioso que derrotou nas urnas o PT que ele desconstruiu em sua Corte, como já está sendo inflado a ser o candidato do governo à sucessão de Jair Bolsonaro — que tem repetido que não concorrerá a um segundo mandato. A ideia já circula entre integrantes do “núcleo duro” da equipe do capitão reformado – “núcleo duro” nessa turma é redundância -, segundo jornalistas bem informadas, como Mônica Bergamo. Moro não poderá mais interrogar o ex-presidente Lula, como faria em 14 de novembro, mas nem precisa.

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Gabriela Hardt, a juíza que vai substituir Moro na Lava Jato, é farinha da mesma Lava Jato. É antipetista, anti-Lula e acha que o PT roubou o futuro do país – como seus posts nas redes sociais escancaram. Seu pai, o engenheiro químico Jorge Hardt Filho, trabalhou na Petrobras por mais de duas décadas. Receptiva aos pleitos dos policiais federais e dos procuradores, estará pronta a servir o chefe, agora como ministro.

Não só porque sua sucessora Gabriela Hardt, a juíza que vai substituir Moro na Lava Jato, é farinha da mesma Lava Jato. É antipetista, anti-Lula e estará pronta a servir o chefe, agora como ministro. Mas porque Moro agora é o dono do pedaço. Terá não só a fusão das pastas do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, como a própria Polícia Federal, o Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União, órgão de controle interno do Governo Federal responsável por realizar atividades relacionadas à defesa do patrimônio público, o Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica que combate cartéis, e o Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, este último hoje ligado ao ministério da Fazenda. Após o encontro protocolar com Bolsonaro – até porque a decisão já estava tomada -, Moro divulgou nota dizendo que aceitou “honrado” o convite. Moro disse, ainda, que aceitava o cargo com “certo pesar” pois terá que abandonar a carreira de juiz após 22 anos de magistratura – na pior das hipóteses, sabe que tem vaga certa no STF de Bozo. Moro é o quinto ministro anunciado pelo governo Bolsonaro. Outros quatro já foram anunciados: Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Paulo Guedes (Economia), general Augusto Heleno (Defesa) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia).

Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal durante apresentação das denúncias
O procurador fundamentalista Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa da Lava Jato e membro da Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba, também aguarda seu convite para o ministério Bolsonaro pelos bons serviços prestados. Na foto, em sua famosa apresentação de power point que virou meme, colocando Lula ao centro de esquema chamado de petrolão. Cumpriu fielmente sua missão de inflamar preconceitos e paixões e aniquilar a possibilidade de Lula ter um julgamento justo e imparcial

O PT está perplexo. Foi pego de calças nas mãos. Mal absorveu a derrota de Fernando Haddad, terá que lidar agora com esse relevante fato político. As reações, de bate pronto, foram as esperadas. Os advogados de defesa de Lula ingressaram na 13ª Vara Criminal de Curitiba (PR) com um pedido de nulidade do processo relativo ao Instituto Lula, movido pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo juiz Sérgio Moro. A argumentação da defesa do ex-presidente é pela prática de lawfare (uso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política). De acordo com os advogados, a “conexão política” do juiz de primeira instância com o presidente eleito fica evidente diante do convite aceito por Moro na manhã desta quinta, 01/11. “Moro é um juiz ativista e agora assumiu esse lado”, fez coro o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, que defende atualmente 17 pessoas em processos ligados à Operação Lava Jato. Kakay criticou a rapidez do juiz Moro ao aceitar o cargo, tão poucos dias após a confirmação da vitória de Bolsonaro nas urnas, em 28 de outubro. “É quase assustador ele assumir com essa gana um cargo de ministro da Justiça tão logo saia o resultado das eleições, antes mesmo da posse. Porque nós estamos vendo um juiz que instrumentalizou o poder Judiciário, e isso é gravíssimo. De certa forma, a partir de agora, ele terá que responder por isso.”

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Do advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende réus na Lava Jato: “Ele (Moro) é um juiz ativista político. Agora ele assumiu o lado ativista político. Ele envergonha o poder Judiciário. (…) A aceitação desse cargo comprova aquilo que nós advogados, eu inclusive, estamos dizendo há bastante tempo: a parcialidade do juiz Moro. (…) O ato que ele fez é lamentável para o poder Judiciário, compromete o poder Judiciário. A isenção do juiz é uma das principais garantias que o cidadão tem.”

Enquanto isso no Rio, como bem descreveu o valoroso jornalista Jan Theophilo, no Informe JB – que, como eu, não é petista, comunista, maoista, stalinista, mas tem olhos e enxerga -, na coluna “Os snipers do Seu Wilson”, vivemos o microcosmo da ditadura eleita. Juiz medíocre, reacionário e rico, como a maioria de seus pares, conhecido pelo vídeo onde aplaude dois mequetrefes bombados, em um comício em Petrópolis, quebrando a placa de homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco, solta de dentro de sua bolha soluções fáceis – e, pior, já experimentadas e que deram em nada. Exceto em mais mortes de civis – geralmente favelados, negros, jovens e pobres. Pois o novo governador Wilson Witzel, apoiador de Bolsonaro, defendeu “abater” (palavras dele) – derrubar por terra, matar a tiros, exterminar – quem estiver de posse de um fuzil. Ele quer também, coerentemente com sua ética, prorrogar por mais 10 meses a intervenção militar no Rio, com resultados pífios. Ao Estúdio I, da GloboNews, governador eleitor disse que pediu levantamento de policiais da Core e do Bope qualificados para matar bandidos de longa distância e que liberará disparos de helicópteros. “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”, disse ao Estadão. Vai ser uma chacina. De pobres.

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Eleitos, acabaram os escrúpulos e os cuidados com as palavras dos fascistas eleitos. Juiz medíocre, reacionário e rico, como a maioria de seus pares, Heil Witzel, governador eleito do Rio, pediu levantamento de policiais da Core e do Bope qualificados para matar bandidos de longa distância e que liberará disparos de helicópteros. Pro estado que já teve zepelim vigiando os céus, acabou a inocência. É a política de segurança pública nos snipers. “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”, disse o fascista.

Moro Dredd, o exterminador de petistas, faz Palocci refém e tenta balear Haddad

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Em um mundo dominado pela miséria e corrupção, e onde a justiça e a lei precisaram ser dissolvidas, o juiz Moro Dredd, usando o bordão “Eu sou a lei!”, atira para matar. No último episódio dessa saga, ele sequestrou Antonio Palocci e, mesmo contra o Ministério Público, que não viu provas na sua “delação implorada”, divulgou para a mídia uma série de ilações, sem qualquer prova. Isso – tchan, tchan, tchan! – na semana de eleições presidenciais e afetando um dos candidatos presidenciais e o partido que odeia.

O mundo dos quadrinhos está de luto. Carlos Ezquerra, cocriador do Juiz Dredd, faleceu nesta segunda-feira, 01, aos 70 anos. Ezquerra criou o famoso anti-herói ao lado do escritor John Wagner, que ganhou adaptações cinematográficas com Sylvester Stallone e Karl Urban no papel título. Dredd é um vingador em um mundo apocalíptico, dominado pela violência, miséria e crimes, e onde a justiça e a lei precisaram ser dissolvidas. Ele assume com uma força tarefa a nova ordem e usa o bordão “Eu sou a lei!” – antes de executar sua vítima da vez. A tal “força de pacificação”, com alto poder de fogo e licença para prender, julgar, condenar e executar os criminosos na própria cena do crime, são os tais “Juízes”. Não, o cenário não é Curitiba, mas o que seriam as antigas cidades de Boston e Washington, e a força tarefa não se chama Lava Jato. Mas no nosso mundinho político, acovardado por acusações que vem até do hiperespaço, reapareceu a versão tupiniquim do juiz exterminador, Moro Dredd, em mais uma demonstração de que está mais para justiceiro aniquilador de petistas do que para um magistrado isento, independente, equilibrado, enfim, essas coisas fora de moda.

Mas por que estamos falando de Moro Dredd se a Lava Jato foi para as cucuias desde que o ex-presidente Lula foi encarcerado e impedido de participar do processo eleitoral e Dallagnol, Santos Lima e a oligarquia do MP sumiram do mapa (não acredite nos boatos de que prestam serviço pro bono para a campanha de Álvaro “Botox” Dias)? Ah, é que Moro Dredd, a seis dias das eleições, decidiu sequestrar Antonio Palocci, o alvo que lhe pareceu mais óbvio, e, acreditando poder atingir o PT e Haddad, mandou retirar o sigilo de parte do pré-acordo de delação “implorada” do ex-ministro no âmbito da Operação Lava Jato – o que, obviamente, ganhou a mídia proporcional que se esperava. Embora tenham sido feitas há quase sete meses, e rejeitadas pelo Ministério Público Federal (!) por inconsistência total e absoluta, as delações sem provas foram acolhidas pelo juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, nesta segunda. Nada será provado, evidentemente, o que vale é o “barulhinho bom” na mídia e, com sorte, algum estrago na campanha, de modo que prejudique o PT odiado por Moro e a parte da sociedade que ele representa. Não vou sequer me dar ao trabalho de repetir as acusações, quem quiser que leia no seu veículo preferido. Em agosto, o STF decidiu que delações sem provas devem ser sumariamente arquivadas, mas Moro Dredd, claro, está acima disso.

Em nota, a defesa do ex-presidente Lula afirmou que “Palocci mentiu mais uma vez, sem apresentar nenhuma prova”. Os advogados dizem ainda que a decisão de Moro “apenas reforça o caráter político dos processos e da condenação injusta imposta ao ex-presidente” e que o juiz “tem o nítido objetivo de tentar causar efeitos políticos para Lula e seus aliados”. A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que Moro “não podia deixar de participar do processo eleitoral” e que ele tenta “pela enésima vez destruir Lula”. Palocci está preso desde 2016.

Como escreveu, em nota, a ex-presidente Dilma Rousseff, uma das citadas, o que fica evidente é que a negociação feita por essa delação implica que Palocci, depois de pagar R$ 37,5 milhões, poderá “requerer ou representar ao juiz pela concessão de perdão judicial”, ter reduzida “em até dois terços a pena privativa de liberdade e/ou sua substituição por restritiva de direitos” e, ainda, “a suspensão do processo e do prazo prescricional”. Um negócio da China – ou melhor, de Curitiba.

Com um pé no segundo turno, Haddad responde à truculência recomendando “carinho” com bolsonaristas

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Em um comício em frente à Catedral, no Centro de Florianópolis, Haddad arranca risadas imitando Lula, pede “carinho” com adversários e recomenda aos petistas responderem aos gestos de ódios dos bolsonaristas com um L de Lula

“Quando você vê um cara que está ali muito dilacerado, falando com o fígado, chama o cara para (tomar) um chope. Tenho certeza que resolve os problemas dele”.
Fernando Haddad, em Florianópolis, sugerindo que o incentivo ao “amor” é o que vai “unir o Brasil”.

Em sua maratona pelo país na reta final do primeiro turno – devidamente mapeada pelo comando de campanha, e, claro, por Lula -, Fernando Haddad, ao lado de sua vice Manuela D’Ávila, passou o começo da tarde de terça, 18, em Itajaí, onde conversou com pescadores da região Norte de Santa Catarina. Era sua primeira visita ao estado. Dali, seguiu para Florianópolis, onde realizou um comício em frente à Catedral, no Centro. Um homem diferente estava ali. Não apenas motivado pelos números frescos do Ibope (Assista aqui o vídeo do Jornal Nacional), que praticamente o colocam no segundo turno – subindo nada menos que 11 pontos em uma semana, e chegando a 19% (contra 11% de um estacionado Ciro), como adotando um novo tom, mirando em seu inevitável opositor no segundo turno (Bolsonaro, que foi de 26% para 28% no Ibope, dentro da margem de erro de dois pontos), pero sin perder la ternura jamás. As milhares de pessoas que ali pararam para ouvir Haddad viram seu candidato criticar as declarações estapafúrdias da chapa pura-farda, condenar o clima de “violência e intolerância” das eleições, mas fazer uma doce recomendação. Aconselhou a militância petista a “virar o voto” de eleitores de Bolsonaro, e dos indecisos, com “carinho”.

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William Bonner, no Jornal Nacional, cumpre a difícil missão de informar que, segundo o Ibope, Haddad cresceu 11 pontos em uma semana, descolou de Ciro Gomes e aproxima-se de Bolsonaro, que oscilou na margem de erro.

A militância respondeu com gritos de “Ele não!”, a campanha nas redes sociais que prega não votar no capitão. Os usuários também tem bombado o Twitter com a curiosa hashtag “meu bolsominion secreto”, sempre completando a frase com o relato de algum esqueleto no armário dos eleitores da dupla de coturno. “#meubolsominionsecreto quer ditadura militar, mas é a favor da liberdade de expressão”, postou um eleitor, seguindo a linha irônica. Os eleitores de Bolsonaro responderam com outra hashtag, com igual sucesso, #QuemMandouMatarBolsonaro – incentivando outra teoria conspiratória. A campanha Haddad-Manu também tem se preocupado com a onda de fake news, desde as que inventam falsos apoios de celebridades a Bolsonaro, como de Arnaldo Jabor, Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos, como as que espalham que o número de Haddad é 17 (número de Bolsonaro) e não 13, e que Manuela D’Ávila tem o corpo coberto de tatuagens de Che Guevara e Lenin. Nenhum problema se tivesse, mas não tem. Compartilhada pelo WhatsApp, pelo Twitter e pelo Facebook, a imagem foi manipulada digitalmente para a inserção de desenhos dos líderes comunistas na pele da deputada estadual do Rio Grande do Sul. Tão amador que merecia o prêmio Paintbrush do ano.

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À esquerda, a foto original, real, e à direita, a montagem grotesca, manipulada digitalmente, e distribuída pelas redes sociais, mostrando falsas tatuagens de Che Guevara e Lenin no corpo de Manuela D’Ávila. Sem falar na faixa presidencial..

De fake em fake, circulou pelas redes nas últimas horas um suposto áudio de Bolsonaro – a voz era idêntica – distribuindo impropérios, inclusive contra seu vice. “Me tirem logo daqui. A gente tem uma eleição pra ganhar. Eu quero sair daqui. O fdp subindo pra caralho e eu aqui preso”, esbraveja. Fake news? Talvez. Mas Mourão virou um problema para Bolsonaro, desqualificando-o publicamente ao sugerir que sua fala sobre urnas eletrônicas fosse relevada. Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes do núcleo duro da campanha de Bolsonaro fizeram uma reunião para tentar unificar o discurso e “tutelar” o vice do presidenciável.

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O staff do capitão presidenciável quer “tutelar” o vice general. Alguém paga para ver essa cena?

Haddad estava muito à vontade, em Florianópolis, e até imitou a maneira de falar do ex-presidente Lula (Assista aqui), no que foi ovacionado pelos presentes, que mesclaram gritos de “Haddad! Haddad!” e “olê olê olê olá, Lula, Lula”. Não muito longe dali, na carceragem da sede da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula é mantido como preso desde 7 de abril, o ex-presidente mandou um recado para o seu visitante do dia. “Lula quer ver reconhecida a sua inocência e não quer saber de indulto”, disse o deputado Wadih Damous, ex-presidente da OAB RJ. Adversários políticos, e a imprensa, tem estimulado uma crise na capanha petista sobre um eventual indulto de Haddad a Lula, o que o próprio candidato já negou, inclusive em entrevista ao G1 e CBN (Ouça aqui). Ainda assim, o portal publicou uma matéria intitulada “Indulto a Lula transforma-se em maior fantasma de Haddad” (Leia aqui).

Outra má notícia para Bolsonaro: na noite de ontem, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou, por unanimidade, 11 ações da campanha de Bolsonaro contra programas de Haddad e Alckmin. O Candidato do PSL questionou a participação do ex-presidente em uma das propagandas do candidato Haddad. Também foram negadas dez representações de Bolsonaro contra propagandas do candidato do Geraldo Alckmin. Ministros afirmaram que Lula pode aparecer em imagens de arquivo. “A pena de proibição de aparição seria acrescentar pena de banimento à conclusão que trilhamos no processo de registro de candidatura”, afirmou o ministro Tarcísio Vieira.

Lula: “Haddad é o meu candidato”

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Trecho do acachapante programa eleitoral da coligação “O Brasil Feliz de Novo” em que Lula diz aos seus eleitores que “O nosso nome agora é Fernando Haddad”.

Até poucos dias atrás havia muitas perguntas no ar, todas decisivas para o futuro desta eleição presidencial – e todas envolvendo Lula e o PT. Restou apenas a última, que virá das urnas no próximo mês. É que o relógio anda girando numa velocidade tal que mal temos tempo de registrar os fatos, menos ainda de analisa-los. Não, Lula não será candidato, nem governará o país pelos próximos quatro anos. Lula segue preso há 161 dias, desde a noite de sábado, 7 de abril, quando se entregou pacificamente após ficar dois dias na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Não, o PT não teve sucesso em nenhuma de suas batalhas jurídicas para garantir a participação do ex-presidente na campanha eleitoral, “com Supremo, com tudo”, e apesar de uma decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU afirmar e reafirmar que Lula deveria disputar as eleições. Não, o PT não se deixou pressionar pelo tempo escasso para fazer a troca da cabeça de chapa, o que só ocorreu no último dia 07. Sim, a transferência de votos já começou e deve garantir Fernando Haddad no segundo turno, como aponta o Vox Populi, e, futuramente, com o delay de praxe, confirmarão Ibope e Datafolha. E, sim, Lula – de um jeito que só os bons marqueteiros e editores conseguem – apareceu finalmente na TV dizendo a frase: “Haddad é o meu candidato”.

E se, até agora, a transposição de votos gotejava no ritmo da prudência do PT, e da arriscada estratégia política que se impuseram, comandada por Lula de dentro da cela da Polícia Federal em Curitiba, ela começa a transbordar, rompendo a barragem do açude eleitoral. E enquanto a grande mídia se debruça sobre a evolução clínica do capitão Bolsonaro, esfaqueado por um desses debiloides que o zoo político brasileiro vem produzindo, o PT rasgou a fantasia com um programa eleitoral impactante da coligação “O Brasil Feliz de Novo”. Exibido às 20h30 desta quinta, 13 – assista aqui -, traz a carta que Lula escreveu para apresentar Haddad ao povo como seu candidato. Como Lula não pode lê-la – embora sua imagem e voz apareçam intercaladas, aqui e ali -, ela é narrada em diferentes vozes, com um show paralelo de imagens.

“O nosso nome agora é Fernando Haddad. Eu quero pedir de coração que todos que votariam em mim, que votem no Haddad. De hoje em diante, Haddad será Lula para milhões de brasileiros”, diz o texto de Lula, sem deixar margem para dúvida, no mantra que será trombeteado fortemente daqui em diante. Já Haddad, incorporando Lula, chama sua possível vitória de missão. Uma boa escolha de palavras. Se a desastrada tentativa de marketing de assessores e parentes, talvez à revelia de Bolsonaro, transformaram uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em um cubículo de alta rotatividade de oportunistas – incluindo aí as patéticas visitas do punguista religioso Silas Malafaia e do cançonetista Roger, a traça que restou do ex-vocalista do Ultraje a Rigor -, o marketing de Lula preso, impedido de se candidatar, tem tudo para dar certo.

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A música que Roger poderia ter cantado na visita a seu ídolo Bolsonaro:
“A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
“Inúteu”!
A gente somos “inúteu”!”

E que Bolsonaro melhore, se recupere, e possa concorrer, e perder honestamente, até porque seu porta-voz alternativo, também conhecido como  Hamilton Mourão, general de pijama, causa espécie a cada nova declaração. Todas, rigorosamente todas, antidemocráticas. Defensor do golpe militar – o de 1964 e outro que vier -, xenófobo, racista, dessa vez defendeu uma nova Constituição para o Brasil, sem Constituinte, elaborada apenas por um conselho de notáveis escolhido pelo presidente. Imaginem os notáveis escolhidos por Bolsonaro…

Em tempo 1: Nesta sexta, 14, Fernando Haddad será “entrevistado”, ao vivo, no Jornal Nacional, pela dupla William Bonemer Júnior e Renata Fernandes Vasconcellos.

Em tempo 2: Bolsominions e Robominions, mostrando que sentiram o golpe, andam espalhando pelas redes e canais de comunicação on line a frase “Haddad 17”, trocando criminosamente o número 13 do PT pelo 17 do capitão.

Nem poste, nem mito

COLETIVA PC DO B EM SÃO PAULO
Haddad – ao lado de Manu – não é Lula, não é Dilma, não é poste – lamento, amigos -, nem é mito. Mas pode ir para o segundo turno com vantagem com o recall do líder preso.

Tão óbvio quanto Lula não ser há um bom tempo o candidato do PT – mas a plataforma para o sucessor possível diante de seu impedimento “com Supremo, com tudo”, é o próximo lance dessa campanha. Ungido por Lula como candidato do PT, ao lado da vice dos sonhos Manuela D’Ávila, na terça-feira 11, “Andrade” deverá, no prazo de uma semana – segundo cálculos até da oposição – chegar ao topo das pesquisas. Fernando Haddad sabe que tem poucos dias de campanha e os tem usado intensamente. Um marketing político robusto nas redes sociais, além do horário eleitoral gratuito, já abriu as comportas para a transferência de votos de Lula para Haddad. Quanto será transferido é um mistério tão grande quanto saber quando o capitão Bolsonaro, ferido em batalha, terá alta e como terminarão as intrigas que cercam seus assessores mais próximos, divididos entre filhos, marqueteiros e militares de pijama,todos igualmente famintos. Haddad tirará votos de Ciro Gomes, principalmente no Nordeste, reduto petista. Ciro, não por acaso, já voltou a abrir o verbo, mirando de Haddad ao general Villas Bôas – aquele que acha que os militares ainda tutelam a vida civil. E para quem não entendeu ainda: não há nada que o PT mais deseje do que enfrentar Bolsonaro no segundo turno.

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Bolsonaro na emergência repete o gesto belicista de campanha, que poderia substituir por uma punhalada: muitas visitas fora de hora, melhora lenta e milicos ansiosos.

Se Ibope e Datafolha ainda mastigavam o “atentado” a Bolsonaro, e não digeriam ainda o fator Haddad-Manu, o Vox Populi hoje – você pode acreditar ou não, já que a pesquisa é encomendada pela CUT, mas sugiro que preste atenção – já sinaliza um quadro mais realista do horizonte para o segundo turno. Fernando Haddad já assume a liderança da corrida presidencial, com 22% de intenção de votos. Bolsonaro tem 18%, Ciro registra 10%, Marina Silva tem 5%, Alckmin tem 4%. Brancos e nulos somam 21%. Datafolha e Ibope, nas suas próximas sondagens, dificilmente repetirão esse quadro. Têm, digamos, um timing diferente para informar os fatos aos eleitores. Impressiona ver, pelo Vox Populi, o quanto “Andrade” ainda tem para crescer, já que ele só assume a ponta quando seu nome é apresentado aos eleitores com a informação de que ele é apoiado por Lula. Um pouco mais da metade dos entrevistados (53%) o reconhece. Também é o menos conhecido entre os postulantes a ocupar o Palácio do Planalto: 42% informam saber de quem se trata e outros 37% afirmam conhece-lo só de nome.

Não, você não verá o Vox Populi na grande mídia.

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Peça de campanha de Haddad-Manu nas redes sociais destaca a Pesquisa Vox Populi