Bolsonaro começa transição ofuscado por dois superministros, Guedes e Moro, que podem ser solução ou problema daqui a quatro anos – ou menos

“A pasta da Justiça, ainda mais turbinada, deve render a Moro protagonismo inédito para um ministro. Caberá a Bolsonaro, que já terceirizou a política econômica para Paulo Guedes, ter habilidade para não se tornar um coadjuvante do próprio mandato”.
Jornalista Carlos Marcelo, dos Diários Associados

Se você achou, a princípio, estranho um ex-capitão presidente tendo como vice um general quatro estrelas reformado – algo como ter o gerente de estoque promovido repentinamente a presidente da empresa e o ex-CEO rebaixado a seu carregador de malas -, olhe de novo para a extravagante Esplanada dos Ministérios que está se formando às vésperas da posse de Jair Bolsonaro. Mourão e os demais generais que habitarão o primeiro escalão, batendo continência para o ex-capitão, estão deixando os holofotes, e colocando em segundo plano a tese de uma crise militar, looping de hierarquia, etc, depois que Bolsonaro anunciou o tamanho dos poderes de Paulo Guedes e Sérgio Moro. A mídia cita, sem exagero, que são “superministros”, tamanhas as áreas acopladas a suas pastas. São, automaticamente, pré-candidatos presidenciais para 2022, o que pode gerar, com o tempo, um curto circuito com Bolsonaro – que, por enquanto, jura de pés juntos que não vai querer um segundo mandato. Ah, tá. Até lá – ou até antes, se Bolsonaro não repetir a sina de Fernando Collor -, eles terão que conviver, os três, inclusive Moro, que já anda dando recados sobre verbas, pedindo dinheiro de loterias, etc. Lula/Fernando Haddad, Ciro Gomes e até Luciano Huck e Joaquim Barbosa são outros possíveis pré-candidatos, mas suas chances dependem da turma pré-citada. Só para reflexão: Bolsonaro é seis anos mais novo que Paulo Guedes e Moro, 46 anos, dezessete a menos que o patrão.

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Silvio Santos fala com Bolsonaro durante o Teleton. “Sei que o Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar e o senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, disse SS; General Mourão, a la Figueiredo, na capa de Época, a revista-encarte do Globo; Sérgio Moro na capa do Estadão; e Paulo Guedes, em matéria do mesmo Estadão.

Parte da mídia, a econômica em particular, já elegeu o “Posto Ipiranga” como grande fonte. Neste domingo ficamos sabendo que será ele a herdar o Ministério do Trabalho, a ser extinto, o que coloca a Secretaria de Políticas Públicas de Emprego nas suas mãos, podendo criar a tal carteira de trabalho verde e amarela (a minha segue sendo a azulzinha), que – “expressão da moda” – “flexibilizará os direitos trabalhistas“. Restarão aos contratados, em extinção, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. Além da carteira, a secretaria concentra programas como seguro-desemprego e abono salarial, e o Codefat (conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador), o que amplia a força de Guedes. Em 2018, o FAT teve previsão orçamentária de R$ 76,8 bilhões. Ah, Paulo Guedes deve ter Joaquim Levy -que está no Banco Mundial – no BNDES e Ivan Monteiro na Petrobras. Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro de Michel Temer, também deve estar no governo Bolsonaro.

Já Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública, terá poder de investigação do governo – será o chefe da Política Federal – e informação sobre crimes financeiros – dono do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Continua fortíssimo, embora tenha perdido, na última hora, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União, que tendem a virar tapumes para paisagens vazias. As Organizações Globo – O Globo e Jornal Nacional como carros-chefe – já elegeram Moro como seu darling e oferecem a ele um espaço tão desproporcional que constrange. É notícia todo santo dia, independente da taxa de umidade em Brasília.

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O Extra foi escalado para humanizar Bolsonaro e o faz da forma mais evidente e tosca possível. Capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro”; “A lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc.

Enquanto os jornalões do grupo fazem sua parte, o mais popular dos veículos impressos do grupo Globo, o Extra, foi escalado para um papelão diário. Um dos jornais mais lidos do país, tenta humanizar o chefe Bolsonaro. Só que de forma tão evidente, que beira o ridículo. Bom, leia você mesmo (e veja as imagens) com capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro – Conheça a vida do presidente eleito em fotos e histórias pessoais”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro” (diz o Extra que o pão com leite condensado, preferido do presidente eleito, “está caindo na boca do povo”); “a lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc. Onde será que o Extra consegue material para tantos “furos” diários. Acho que Silvio Santos, o dono do SBT, terá que repensar as pautas de seu novo “Semana do Presidente”. O Extra está roubando todas as pautas.

Ditador Bolsonaro quer fim do MEC e reitores biônicos nas universidades federais. Militar psicopata xinga e ameaça presidente do TSE. Doria cai na Pegadinha do Malandro

Está enterrado há oito anos em um cemitério de Brasília, com uma lápide queimando com fogo fátuo, o Capitão de mar e guerra José Carlos de Almeida Azevedo, último reitor biônico da Universidade de Brasília, indicado pela ditadura. Meu primeiro ano como estudante de Jornalismo na UnB teve esse verme como reitor. Felizmente, meu diploma não foi assinado por ele. Preposto do regime entre 1976 e 1985, com a universidade em ebulição democrática, Azevedo permitiu, por exemplo, que a Polícia Militar invadisse o campus da UnB para inibir uma greve estudantil. Reitores biônicos eram um dos símbolos da ditadura e do enterro da educação. Nos subterrâneos de um hotel em Brasília, a equipe que prepara o plano de governo do Coiso tem em mãos o calendário de escolhas dos reitores das universidades federais e um estudo sobre quem é quem nas instituições de ensino superior para servir de análise. A ideia: acabar com a escolha dos reitores pelas comunidades acadêmicas e retomar os reitores biônicos. Bolsonaro quer ir mais longe. Acabar com o Ministério da Educação. Se a reação for grande, vai colocar ali um militar na linha do general quatro neurônios Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para a educação em um eventual – vade retro – governo Bolsonaro. Entre outras boçalidades, ele defende queimar livros, recontar a história da ditadura de 64 e ensinar criacionismo nas escolas públicas.

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Equipe do ultradireitista Bolsonaro planeja acabar com o Ministério da Educação e escolher reitores das universidades federais. Auxiliares do candidato, que trabalham nos subterrâneos de um hotel em Brasília, propuseram ao Coiso que, uma vez eleito, não escolha o primeiro da lista e encontre um biônico, de preferência fardado

“Optam por manifestar ódio visceral e demonstrar intolerância com aqueles que consideram inimigo. Tem incapacidade de conviver com harmonia no seio de sociedade fundada em bases democráticas. Todo esse quadro imundo que resulta no vídeo, longe de traduzir liberdade de palavras, constitui corpo de delito com ofensas”.
Ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal

As cadelas fascistas de Bolsonaro, Mourão e demais tarados por torturadores seguem em seu cio antidemocrático há poucos dias do pleito. Nas redes sociais e grupos de whatsapp dissemina-se o ódio e prega-se a violência. Uma dessas bestas feras, um homem identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves não se deu ao trabalho de esconder o rosto e limpar a baba ao gravar e postar um vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber – numa clara tentativa de intimidação. Coisa que, por sinal, Bolsonaro e família têm feito diretamente. No vídeo, Alves chama Rosa Weber de “vagabunda” e afirma que, se o TSE aceitar ação contra seu candidato de extrema de direita irá sofrer as consequências. “Se aceitarem essa denúncia ridícula e derrubarem Bolsonaro por crime eleitoral, nós vamos aí derrubar vocês aí, sim”, diz o vídeo.

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O STF vai fazer o mínimo: investigar as agressões de um militar boçal que gravou um vídeo babando ódio e ameaçando e xingando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, tentando intimida-la caso barre a candidatura do ogro Bolsonaro

Dessa vez, nossas Cortes, omissas até a medula desde o início do processo eleitoral, ajudando a criminalizar Lula e o PT, única alternativa democrática à onda fascista, não ficaram só no declaratório – ainda que se destaque a fortíssima frase do decano Celso de Mello, sempre contido, atacando o que sempre esteve visível: o “ódio visceral” e a “intolerância (dos bolsominions) com aqueles que consideram inimigo”. A Segunda Turma do Supremo aprovou, por 5 votos a zero, requerimento para que a Procuradoria Geral da República investigue o vídeo do coronel Alves, parasita da democracia, que esquece quem paga seus soldos, o povo.

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“A cadela do fascismo está sempre no cio”,  escreveu Bertolt Brecht. Uma dessas cadelas alimentadas pela onda Bolsonaro, identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves, grava e posta vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber. Besta sem culhões.

O PT havia pedido ao TSE para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos, sustentado pela descoberta pela Fantástica Fábrica de Fake News montada pela engenharia suja do capitão, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo. O jornal relata casos de empresas apoiadoras de Bolsonaro que compraram pacotes de disparo de mensagens contra o PT por meio do WhatsApp. Essa prática é ilegal por ser evidência clara de doação de campanha feita por empresas. Desde 2015, empresas estão proibidas de fazer doação eleitoral. Segundo o jornal, as empresas apoiadoras de Bolsonaro compram um serviço chamado “disparo em massa” usando a base de usuários do candidato do PSL ou bases vendidas por agências de estratégia digital.

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A piada do dia tem botox “Sex tapes” que colocam João Doria, absorto, numa suruba com algumas “modelos” contratadas – só assim -, fez o candidato ao governo de São Paulo gravar vídeo no Instagram. Não, ele não se retratou. Ao lado da mulher Bia, negou que seja o cidadão quase desfalecido na cama com as beldades remuneradas. Geração de emprego?

Sex Tapes e Doria – E o que qualquer assessoria recomendaria a um candidato envolvido num suposto escândalo de “sex tapes”, sem que ninguém tenha certeza se é ele mesmo que aparece no vídeo? Não fale do assunto se não for absolutamente essencial, senão promoverá a suposta infâmia (Doria nega que seja ele o personagem masculino deitado na cama, meio desanimado, em meio a uma suruba com “modelos”). Não, Doria, que idolatra os americanos, copia até o padrão (equivocado) dos gringos de lidar com crises como essas. Ao lado da mulher, calada, semblante fechado, nega veementemente que seja o homem no vídeo que viralizou. E, claro, culpou o PT. “Essa baixaria é obra daquele que vai à missa sendo ateu, joga fora a Bíblia que recebeu de presente de um desavisado e que recebe ordens de um corrupto, ladrão e presidiário! FORA PT”, escreveu. Virou fenômeno de compartilhamentos e menções nas redes sociais. “Doria” e “João Doria” foram parar no trending topic do Twitter mundial. Bom ou ruim para o candidato? Nesse país, difícil dizer. Pode ganhar pontos pela exuberância das divas, mas perder pela flacidez de seu comportamento. Por razões sentimentais não postaremos os vídeos – você vai achar ou já recebeu pelo whatsapp. Fique com o “pronunciamento” consternado de Doria, fritando de ódio a ponto de derreter o botox.

Stephen Fry desnuda Bolsonaro, Mourão Balão veste faixa presidencial e gays tem mais quorum que ato fascista

“Por onde andará Stephen Fry?
Por onde andará Stephen?
Ninguém sabe
Do seu paradeiro
Ninguém sabe
Pra onde ele foi
Pra onde ele vai…”

Opa, eu sei, Zeca Baleiro (Assista o vídeo). O ator britânico está de olho nas eleições no Brasil e já entendeu a encruzilhada em que estamos melhor do que muito brasileiro. O ator, roteirista, apresentador de televisão, cineasta e comediante viralizou nas redes sociais brasileiras – estou há dias para escrever sobre isso e peço desculpas pela falta de tempo – ao comentar sua posição sobre o fascista Jair Bolsonaro, líder (temporário) das pesquisas de intenção de voto para presidente, que teve o desprazer, e o choque de entrevistar para a televisão britânica (Veja). Fry é um sir na entrevista e ouve barbaridades perplexo, mas sem perder a fleuma. Comentar mais é bobagem, melhor assistir e se chocar junto (Veja aqui  e aqui). Fry fala de cadeira – e lembra isso. Entrevistou Bolsonaro na Assembléia Legislativa do Rio – antro de corruptos -, em programa para a TV britânica, e ouviu dele que “não há homofobia no Brasil”, apenas gays histéricos e aproveitadores políticos. “Foi um dos confrontos mais sinistros que já tive como ser humano”, reconheceu Fry, descrevendo os olhos de Bolsonaro como “bem mortos e apavorantes”.

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O ator, roteirista, apresentador de televisão, cineasta e comediante britânico Stephen Fry, fala de sua experiência de entrevistar Jair “Ou eu ou ninguém” Bolsonaro e do pavor que teve com suas palavras e olhar. Ele suplica aos brasileiros que pensem bem antes de votar. #EleNão #EleNunca
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Imagine um lord inglês entrevistando um ogro… Se falasse inglês, o monoglota e agiota Bolsonaro diria “My precious”, na linha Gollum seduzido pela faixa presidencial.

Enquanto isso, por que o país não para, na Avenida Paulista, uma festa de fascistas, coxinhas e correlatos, um dia depois dos grandes atos #EleNão, em repúdio ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (Veja a manifestação histórica liderada por mulheres no Brasil vista por quatro ângulos). Apoiadores de Bolsonaro promoveram uma, vamos admitir, manifestação em prol do candidato. Um boneco inflável com farda do Exército – E FAIXA PRESIDENCIAL, uhhh – que representa o candidato a vice do PSL, general da reserva Hamilton Mourão foi o, digamos, diferencial. Não deixa de ser curioso que isso ocorra na mesma semana em que Bolsonaro o desinflou publicamente. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do “coiso”, bateu na tecla da possibilidade de fraude nas urnas, bla, bla, bla. Em cima do carro de som, disse na Paulista que seu pai vencerá a eleição no primeiro turno, caso o sistema de urna eletrônica não sofra fraude. “Se a urna (eletrônica) não for fraudada, vai ser no primeiro turno”, disse ele.

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Os bolsominions fizeram um ato na Avenida Paulista com um boneco inflável com farda do Exército que representa o candidato a vice, general da reserva Hamilton Mourão, na mesma semana em que Bolsonaro o desinflou publicamente. E o boneco usava faixa presidencial – ops. Não dá pra dizer que os caras não tem humor.
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Eduardo “coisinho”, no ato coxinha na Paulista, e Janaína Paschoal, em momento Bruxa de Blair, na época em que advogou pelo impeachment da primeira mulher presidente, Dilma Rousseff, por “pedaladas fiscais”, levando Temer, Moreira, Padilha, Geddel e quadrilha ao Planalto. Segundo ele, “as mulheres de direita são mais bonitas que as da esquerda” porque “não defecam nas ruas”. Possivelmente os dois nunca foram apresentados.

Mas o supra sumo da estupidez – falando sério, é de corar burro de carga – foi a frase de Eduardo Bolsonaro, possivelmente tentando, do seu jeito tosco e preconceituoso, atingir as mulheres que lotaram as ruas do país no movimento #EleNão, misturando beleza e ideologia femininas. “As mulheres de direita são mais bonita que as da esquerda. Elas não mostram os peitos nas ruas e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita tem mais higiene”, vomitou o “coisinho”. Possivelmente, ele nunca foi apresentado a Janaína Paschoal. Aliás, você sabe porque a Bolsonaro Family – deve dar um reality porreta, nível Kardashians – está tão preocupada? Pesquisas, amigas e amigos, mostram que intenções de voto entre homens e mulheres nestas eleições têm a maior diferença da história. O candidato do PSL é o mais rejeitado pelas mulheres; o voto feminino pode ser decisivo nas eleições. “Se Bolsonaro conseguir 30% dos votos das mulheres, ele vai precisar de 70% dos votos dos homens para vencer. Fica difícil”, exemplificou o cientista político Bruno Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, em entrevista para a BBC News Brasil. Segundo o Datafolha, 43% das mulheres não votariam ‘de jeito nenhum’ em Bolsonaro.

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Jair Bolsonaro segue atrás de Lula nas intenções de voto entre o eleitorado feminino. E lidera o ranking dos presidenciáveis rejeitados por elas. Na foto, uma das humilhações à deputada Maria do Rosário, a quem empurrou, ameaçou, chamou de “vagabunda” e disse que “não estupraria porque não merece” (Relembre aqui  e aqui).

Depois de ler isso, e botar os bofes pra fora, respire e ouça Haddad tocando “Blackbird”, dos Beatles, em reunião com artistas. Ah, enquanto os preconceituosos rebolavam sua fúria na Paulista, a Parada do Orgulho LGBTI levou uma multidão à orla de Copacabana – pelo menos 1 milhão pessoas, segundo a organização. Com os termômetros marcando 30°, milhares de pessoas participaram na Avenida Atlântica da 23ª Parada do Orgulho LGBTI. Oito trios elétricos animaram o público na altura do Posto 5. Nanda Costa e Lan Lanh se beijaram para a alegria geral. A rainha do rebolado, Gretchen, também estava lá com a filha, Thammy. Esse ano a manifestação teve como tema “Vote em ideias, não em pessoas. Vote em quem tem compromisso com as causas LGBTI”. O intuito foi despertar na comunidade LGBTI mais engajamento e participação nesse momento político, escolhendo candidatos que tenham compromisso com as causas e lutas em prol do respeito e diversidade. O #EleNão estava lá.

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A Atlântica, no Rio lacrou com a 23ª Parada do Orgulho LGBTI. Oito trios elétricos animaram o público na altura do Posto 5. Esse ano a manifestação teve como tema “Vote em ideias, não em pessoas. Vote em quem tem compromisso com as causas LGBTI”. Tá claro?

No fundo é isso. Existe em mim, talvez em você, o senso, em muita gente, felizmente, o que chamamos de senso comum, noções comumente admitidas pelos indivíduos, que faz a voz de Mr. Fry mexer com meus brios e me fazer, ao longo de todo um domingo domingo de sol no Rio, escrever esse texto. E tem os outros. Os espíritos de porco, se quisermos ser bem-humorados, os fascistas canalhas, ignorantes, que no vácuo de Bolsonaro libertaram-se de suas amarras e soltam seus preconceitos como se não houvesse amanhã. O problema pra vocês é que sempre há amanhã. E o que se faz e escreve – não adianta, portanto, general Aléssio Ribeiro Souto, que quer queimar os livros que “não falam a verdade” sobre 1964 (Leia e se espante) – é que a verdade não se apaga mais.

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A prova viva – e embigodada – de que a formação militar é um lixo e uma fábrica de expelir ogros: formado na Aman (Academia das Agulhas Negras) e no IME (Instituto Militar de Engenharia, general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, um dos mimos fardados de Bolsonaro, defende eliminar os livros que chamem 64 de “ditadura”, acabar com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e revisão da grade curricular de alunos e professores brasileiros para eliminar o que classifica como “ideologização” na educação brasileira.

A denúncia que veio do frio e o iceberg que pode afundar Bolsonaro

Das profundezas do mar gelado das denúncias, um iceberg gigante foi despontando na reta final da campanha e congelou a chapa pura-farda: uma denúncia grave envolvendo o capitão-maridão Jair Bolsonaro desnudou sua vida pessoal – numa insuspeita associação Folha e Veja – para mostrar que o homem que odiava gays e minorias também tinha no armário o esqueleto de uma separação pra lá de litigiosa. Revelada, com requintes de crueldade, pela mídia que, embora não tenha nada de petista, beneficia o único candidato que nesse momento rivaliza com o Unabomber da caserna, Fernando Haddad. Claro que, se deixarmos o pensamento nos levar, podemos pensar também que a destruição de Bolsonaro – se ela ocorrer, o que parece improvável nesse momento -, beneficiaria a defunta terceira via – Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes, para citar os menos distantes no páreo. O nome do iceberg onde colidiu o barco bolsonarista é Ana Cristina Valle.

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Bolsonaro fazendo a barba na suíte do Albert Einstein, sem camisa, deixando aparecer a cicatriz e, com a ajuda da lâmina de barbear, ressaltando a semelhança com uma nefasta figura histórica (não é montagem). Pouco depois, teria a notícia de que sua alta teria que esperar um pouco mais. Seus problemas seguem com a revelação de detalhes de sua separação e novas falas desastrosas do vice Mourão. Reprodução/Twitter.

O primeiro impacto veio com a denúncia, publicada no dia 25 pela Folha de S.Paulo, revelando o conteúdo de um telegrama (Veja Twitter do repórter Rubens Valente)em que Ana Cristina, ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, diz ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por Bolsonaro — à época, eles disputavam a guarda do filho Renan. Hoje apoiadora da campanha do ex-marido, Ana Cristina atribuía sua saída do Brasil com o filho a essa ameaça, segundo o telegrama. Em um dos trechos do telegrama, o embaixador Carlos Henrique Cardim diz que “a senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos (em 2009) ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor (Bolsonaro). Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”. Quem ouviu a denúncia de Ana Cristina foi o vice-cônsul na embaixada brasileira em Oslo, segundo o embaixador. Em entrevista ao Correio Braziliense, Ana Cristina negou ter sido ameaçada. Gravou um vídeo, logo viralizado nas redes do ex-marido (Assista aqui), negando tudo, como se não passasse de uma fantasia, apesar dos documentos. O Itamaraty se negou a comentar. Tudo resolvido? Aí veio a capa de Veja, já nas bancas (Para assinantes).

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As revistas semanais, as penúltimas antes do pleito: Veja ferra Bolsonaro, Carta Capital destaca a hashtah #Elenão, Época faz jornalismo light – mas destaca produtora-fantasma de Bolsonaro – e IstoÉ, engajada, diz que “Lula montou um QG de campanha”, o que chama de “Projeto Haddad”

Veja mergulha no divórcio dos dois, com fartura de documentos. Tendo tido acesso ao processo, os repórteres descobriram que ela acusou o ex-marido de ocultar o patrimônio pessoal na divisão de bens. De acordo com os documentos que apresentou, ele também ocultou muito do que tinha da Justiça Eleitoral, em 2006. Para as eleições, o deputado afirmou que tinha um terreno, uma sala comercial, três carros e duas aplicações que somavam R$ 434 mil. Ele não revelou que possuía, ainda, mais três casas, um apartamento, outra sala comercial e cinco lotes. Tudo somado dava R$ 7,8 milhões, incompatíveis com sua renda de parlamentar.

Ana Cristina não ficou nisso. Afirmou que Bolsonaro tinha uma renda mensal de R$ 100 mil à época, R$ 183 mil em valores atualizados. E que roubara o conteúdo de um cofre pertencente ao casal com jóias, dólares e reais que somavam R$ 1,6 milhão. Veja entrou em contato com ela. “Quando você está magoado, fala coisas que não deveria”, ela disse. “Bolsonaro é digno, carinhoso, honesto e provedor.” Ana concorre a uma vaga de deputada federal com o nome Cristina Bolsonaro.

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Ana Cristina Valle, hoje em campanha com sobrenome Bolsonaro, tenta convencer a todos de que apenas “falou demais” e que o capitão foi um ex-maridão exemplar. A leitura da Folha e de Veja desmoraliza essa conversinha.

Após acusações de ex de Bolsonaro, vices mulheres reforçaram a campanha #Elenão. Candidatas do PCdoB, PDT e PSOL participarão de atos neste sábado. anuela d’Ávila (PCdoB), vice de Fernando Haddad (PT), e Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL), irão à manifestação em São Paulo, enquanto Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT), estará em ato em Goiânia (GO). Ana Amélia, do PP, claro, não aderiu. Questionada sobre como se posicionaria em um eventual segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, os mais bem colocados nas pesquisas mais recentes de intenção de voto, a gaúcha foi taxativa: “No PT, não há chances”.

“Os direitos não são dados, mas conquistados”.
Norberto Bobbio, filósofo italiano

Como se Bolsonaro não precisasse de mais problemas, seu vice, o companheiro de chapa e farda general Hamilton Mourão – o que já falou demais ao se referir a índios, negros e mulheres descasadas – continua brincando de falar do que não entende. Falando à Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana, Mourão, que sabe tanto de economia quanto Bolsonaro – ou seja, rigorosamente nada -, deflagrou nova crise na chapa ao atacar publicamente o décimo-terceiro salário e abono de férias, qualificando os benefícios – marcos no direito trabalhista do Brasil, que têm quase 60 anos -como “jabuticabas brasileiras”. Os candidatos rivais, claro, fizeram a festa, e Bolsonaro, mais uma vez, fingiu que desautorizou o vice, como se seu guru da economia não chamasse Paulo “Vale tudo” Guedes. “O 13° salário do trabalhador está previsto no art. 7° da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas. Criticá-lo, além de uma ofensa à quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição”, tuitou Bolsonaro, e retuitou Mourão.

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Com um chicote na mão – versão Ana Amélia da caserna -, que ganhou de presente de ruralistas, que usaram o objeto para machucar petistas durante a passagem da Caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul. Além de condenar direitos trabalhistas, como o décimo-terceiro salário e abono de férias, o General Mourão disse que o Brasil é um “cavalo maravilhoso que precisa ser montado por um ginete com mãos de seda e pés de aço”. Sem comentários. Reprodução.

O chamado “núcleo duro” da campanha de Jair Bolsonaro – difícil imaginar um núcleo mais duro que Bolsonaro ou Mourão – já fizeram reunião para tentar unificar e tutelar o polêmico vice. Não se tem notícia que alguém tenha conseguido enquadrar o general. Para piorar, Gustavo Bebianno, o centralizador presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, tem se estranhado com Eduardo, deputado filho do presidenciável, que é o mais atuante na campanha. Aguarda-se, na ordem, a próxima pesquisa eleitoral e a próxima crise interna na chapa pura-farda.

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A estranha foto retuitada pelo general Mourão em seu twitter, em 27 de setembro, de sua galeria de asneiras. Um armário cheio de armas e a frase “Reformando”. O militar reproduziu postagem do direitista Guilherme Fiúza: “7 de outubro, Dia Mundial Sem PT”. Defina “Sem PT”, Fiúza. Reprodução/Twitter.

Ah, a alta hospitalar de Bolsonaro foi adiada por causa de uma crise bacteriana. O que não impediu o candidato de postar uma curiosa foto no Instagram, no banheiro de seu quarto no Albert Einstein, sem camisa – para o corte no abdômen ficar visível – e fazendo a barba. “Me preparando para voltar à ativa!”, escreveu o capitão. O que tem isso de curioso? Na foto, Bolsonaro, com sua franja característica, é flagrado no momento em que o aparelho de barbear deslizava em cima de sua boca. Se você adivinhar com quem ele ficou parecido na cena ganha uma viagem com tudo pago para Braunau am Inn.

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Fernando Haddad segue forte na campanha, com um pé no segundo turno e chance de vira, vira! ainda antes de 7 de outubro. Na foto, em grande comício em Florianópolis. Na reta final, todo cuidado é pouco que os fabricantes de fake news, como a atriz coxinha Luana Piovani. Ricardo Stuckert / Divulgação

Em tempo – O ministro Ricardo Lewandowski, do STF, autorizou a colunista Mônica Bergamo, da Folha, a entrevistar o ex-presidente Lula. O ex-presidente está preso em Curitiba desde 7 de abril. Nenhuma entrevista foi autorizada até hoje. O jornal argumentou ao STF que uma decisão da 12ª Vara Federal em Curitiba que negou a permissão para a entrevista impôs censura à atividade jornalística e mitigou a liberdade de expressão, em afronta a decisão anterior do Supremo. Lewandowski concordou que era censura mesmo.

 

Com um pé no segundo turno, Haddad responde à truculência recomendando “carinho” com bolsonaristas

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Em um comício em frente à Catedral, no Centro de Florianópolis, Haddad arranca risadas imitando Lula, pede “carinho” com adversários e recomenda aos petistas responderem aos gestos de ódios dos bolsonaristas com um L de Lula

“Quando você vê um cara que está ali muito dilacerado, falando com o fígado, chama o cara para (tomar) um chope. Tenho certeza que resolve os problemas dele”.
Fernando Haddad, em Florianópolis, sugerindo que o incentivo ao “amor” é o que vai “unir o Brasil”.

Em sua maratona pelo país na reta final do primeiro turno – devidamente mapeada pelo comando de campanha, e, claro, por Lula -, Fernando Haddad, ao lado de sua vice Manuela D’Ávila, passou o começo da tarde de terça, 18, em Itajaí, onde conversou com pescadores da região Norte de Santa Catarina. Era sua primeira visita ao estado. Dali, seguiu para Florianópolis, onde realizou um comício em frente à Catedral, no Centro. Um homem diferente estava ali. Não apenas motivado pelos números frescos do Ibope (Assista aqui o vídeo do Jornal Nacional), que praticamente o colocam no segundo turno – subindo nada menos que 11 pontos em uma semana, e chegando a 19% (contra 11% de um estacionado Ciro), como adotando um novo tom, mirando em seu inevitável opositor no segundo turno (Bolsonaro, que foi de 26% para 28% no Ibope, dentro da margem de erro de dois pontos), pero sin perder la ternura jamás. As milhares de pessoas que ali pararam para ouvir Haddad viram seu candidato criticar as declarações estapafúrdias da chapa pura-farda, condenar o clima de “violência e intolerância” das eleições, mas fazer uma doce recomendação. Aconselhou a militância petista a “virar o voto” de eleitores de Bolsonaro, e dos indecisos, com “carinho”.

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William Bonner, no Jornal Nacional, cumpre a difícil missão de informar que, segundo o Ibope, Haddad cresceu 11 pontos em uma semana, descolou de Ciro Gomes e aproxima-se de Bolsonaro, que oscilou na margem de erro.

A militância respondeu com gritos de “Ele não!”, a campanha nas redes sociais que prega não votar no capitão. Os usuários também tem bombado o Twitter com a curiosa hashtag “meu bolsominion secreto”, sempre completando a frase com o relato de algum esqueleto no armário dos eleitores da dupla de coturno. “#meubolsominionsecreto quer ditadura militar, mas é a favor da liberdade de expressão”, postou um eleitor, seguindo a linha irônica. Os eleitores de Bolsonaro responderam com outra hashtag, com igual sucesso, #QuemMandouMatarBolsonaro – incentivando outra teoria conspiratória. A campanha Haddad-Manu também tem se preocupado com a onda de fake news, desde as que inventam falsos apoios de celebridades a Bolsonaro, como de Arnaldo Jabor, Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos, como as que espalham que o número de Haddad é 17 (número de Bolsonaro) e não 13, e que Manuela D’Ávila tem o corpo coberto de tatuagens de Che Guevara e Lenin. Nenhum problema se tivesse, mas não tem. Compartilhada pelo WhatsApp, pelo Twitter e pelo Facebook, a imagem foi manipulada digitalmente para a inserção de desenhos dos líderes comunistas na pele da deputada estadual do Rio Grande do Sul. Tão amador que merecia o prêmio Paintbrush do ano.

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À esquerda, a foto original, real, e à direita, a montagem grotesca, manipulada digitalmente, e distribuída pelas redes sociais, mostrando falsas tatuagens de Che Guevara e Lenin no corpo de Manuela D’Ávila. Sem falar na faixa presidencial..

De fake em fake, circulou pelas redes nas últimas horas um suposto áudio de Bolsonaro – a voz era idêntica – distribuindo impropérios, inclusive contra seu vice. “Me tirem logo daqui. A gente tem uma eleição pra ganhar. Eu quero sair daqui. O fdp subindo pra caralho e eu aqui preso”, esbraveja. Fake news? Talvez. Mas Mourão virou um problema para Bolsonaro, desqualificando-o publicamente ao sugerir que sua fala sobre urnas eletrônicas fosse relevada. Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes do núcleo duro da campanha de Bolsonaro fizeram uma reunião para tentar unificar o discurso e “tutelar” o vice do presidenciável.

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O staff do capitão presidenciável quer “tutelar” o vice general. Alguém paga para ver essa cena?

Haddad estava muito à vontade, em Florianópolis, e até imitou a maneira de falar do ex-presidente Lula (Assista aqui), no que foi ovacionado pelos presentes, que mesclaram gritos de “Haddad! Haddad!” e “olê olê olê olá, Lula, Lula”. Não muito longe dali, na carceragem da sede da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula é mantido como preso desde 7 de abril, o ex-presidente mandou um recado para o seu visitante do dia. “Lula quer ver reconhecida a sua inocência e não quer saber de indulto”, disse o deputado Wadih Damous, ex-presidente da OAB RJ. Adversários políticos, e a imprensa, tem estimulado uma crise na capanha petista sobre um eventual indulto de Haddad a Lula, o que o próprio candidato já negou, inclusive em entrevista ao G1 e CBN (Ouça aqui). Ainda assim, o portal publicou uma matéria intitulada “Indulto a Lula transforma-se em maior fantasma de Haddad” (Leia aqui).

Outra má notícia para Bolsonaro: na noite de ontem, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou, por unanimidade, 11 ações da campanha de Bolsonaro contra programas de Haddad e Alckmin. O Candidato do PSL questionou a participação do ex-presidente em uma das propagandas do candidato Haddad. Também foram negadas dez representações de Bolsonaro contra propagandas do candidato do Geraldo Alckmin. Ministros afirmaram que Lula pode aparecer em imagens de arquivo. “A pena de proibição de aparição seria acrescentar pena de banimento à conclusão que trilhamos no processo de registro de candidatura”, afirmou o ministro Tarcísio Vieira.

Deu a louca na direita

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Nem Sheherazade resistiu ao arsenal de bobagens da dupla Bolsonaro-Mourão. No Twitter, respondeu ao comentário machista do general e se aliou ao #EleNão: “Sou mulher. Crio dois filhos sozinha. Fui criada por minha mãe e minha avó. Não. Não somos criminosas.”

A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade, conhecida pelas posições direitistas, como defender o “linchamento” de um bandido durante o SBT Brasil, chocou o mundo conservador ao entrar, pelo Twitter, na campanha contra Jair Bolsonaro, com a hashtag #EleNão – a senha no mundo virtual para quem já descartou votar no mito imaginário. Ela respondeu irritada à declaração do general Hamilton Mourão, vice do capitão, que declarou que famílias sem pai e avô, mas com “mãe e avó”, são “fábricas de desajustados”, que tendem a entrar no mundo do tráfico de drogas. “Sou mulher. Crio dois filhos sozinha. Fui criada por minha mãe e minha avó. Não. Não somos criminosas. Somos HEROÍNAS!”, rebateu, para espanto de muitos seguidores. Não é o primeiro revés na trincheira direitista.

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Reinaldo Azevedo, que se divide entre BandNews FM, RedeTV! e Folha, não lembra o inventor do termo “petralha”. Segue criticando os petistas, mas parece mais incomodado com a incontinência verbal da chapa pura-farda

Reinaldo Azevedo, ex-Veja, criador do termo “petralha”, hoje equilibrando bolinhas no programa “É da Coisa”, na BandNews FM, na RedeTV! e com uma coluna na Folha de S.Paulo, tem feito duras críticas ao comportamento da dupla Bolsonaro-Mourão, inclusive às recentes declarações do capitão em um vídeo gravado no leito da unidade de terapia semi-intensiva do Albert Einstein, onde inventou um complô de Lula para fraudar as eleições e eleger Fernando Haddad, deixando subentendido que o petista não poderia tomar posse. “O fato de Bolsonaro estar num hospital não lhe dá licença de defender teses que agridem os fundamentos da democracia”, escreveu nas redes – e repetiu na TV e no rádio. Reinaldo, que faz questão de esclarecer aos seguidores que não virou petista – e não virou mesmo – mostra apenas que a extrema direita perdeu o rumo.

O humorista Rafinha Bastos, ex-CQC e Agora é Tarde, famoso pelas piadas infelizes – e processos – contra famosos, ironizou a foto de Bolsonaro no Albert Einstein – a primeira divulgada depois de sua internação – fazendo com as mãos o característico gesto de atirar. “Posso não concordar com as posições dele, mas gesto de pistolinha na UTI depois de levar uma facada me fez rir alto”, postou no Twitter. A facada também rendeu um raro comentário equilibrado da colunista do Estadão e comentarista da Globonews, Eliane Cantanhêde, conhecida pelas fontes no alto tucanato. “O efeito Lula está sendo mais eficaz para Haddad do que o efeito facada para Bolsonaro”, reconheceu.

Não há nenhuma conversão desses formadores de opinião, nem sabotaram seus bebedouros com água batizada. Eles continuam muito parecidos com o que sempre foram – e a maior parte não dá o braço a torcer. Mas a polarização entre esquerda – Haddad e Ciro – e direita – Bolsonaro – pelo funil do segundo turno, somada às barbaridades da chapa pura-farda, têm provocado declarações até há pouco impensáveis. Claro que a maioria dos direitistas raiz mantém o antipetismo febril, surfando em factóides como, mais recentemente, uma possível anistia de Haddad a Lula, caso ele seja eleito – o que o próprio candidato da coligação “O povo feliz de novo” nega que pretenda fazer. “O Brasil merece ser governado da cadeia por um corrupto? As ordens do PT, como no PCC, partem da cadeia”, tagarela o dublê de “historiador” e comentarista da Jovem Pan – uma espécie de Direita FM, Marco Antonio Villa. “Caso vencesse as eleições, Fernando Haddad – se continuasse fazendo o que faz hoje -, passaria mais tempo na cadeia ouvindo ordens de um ex-presidente presidiário do que no Palácio do Planalto”, faz coro Augusto Nunes, colunista de Veja e, claro, da Jovem Pan.

Perdoem, portanto, o escorregão de sensatez de Sheherazade. Não há surto de bom senso que dure para sempre.

Daciolo volta às montanhas e revela: Bolsonaro foi rendido pela maçonaria

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Cabo Daciolo volta ao alto da montanha para refletir sobre as eleições presidenciais e conclui: o Capitão Bolsonaro foi capturado pela maçonaria por meio de seu vice, o general Mourão.

De gênio e louco todo mundo tem um pouco. Eu, geralmente, prefiro ouvir os loucos. Cabo Daciolo subiu as montanhas – como costuma fazer quando não está em algum debate denunciando a Ursal ou gravando seus segundos no programa eleitoral. Acendeu a fogueira, meditou e resolveu postar um novo vídeo nas redes (Assista aqui) com uma revelação: Bolsonaro foi punido por render-se à maçonaria. Enquanto a mídia acompanha, em terra firme, a lenta recuperação do candidato do PSL à Presidência, internado numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Albert Einstein após levar uma facada, Daciolo flutuou em pensamentos para aconselhar o capitão: fuja do general Hamilton Mourão, seu vice, “maçom declarado”. Daciolo está convencido que há uma ligação direta entre o “atentado” e o vice da sociedade associada aos Illuminati, Cavaleiros Templários e esses nomes que você conhece por obras como O Código da Vinci e Sherlock Holmes.

“O problema é com quem o Bolsonaro passou a andar. Ele tem amigos maçons, ele frequenta o meio dos maçons. O seu vice está lá dentro da maçonaria. Aqueles que querem liberdade, igualdade e fraternidade só entre eles”, aponta Daciolo. A viagem quase psicodélica de Daciolo no vídeo que, claro, bombou nas redes – bíblia na mão esquerda, gesticulando muito, semblante carregado – e possivelmente esgotado pelo jejum que diz ter se imposto -, guarda um ponto de contato com a realidade. Mourão já visitou lojas maçônicas, inclusive no Distrito Federal, no final do ano passado, quando propôs uma intervenção militar para solucionar os problemas da política. Daciolo também não perdoa a “rendição” de Bolsonaro a Paulo Guedes, seu guru econômico, capa da revista Crusoé. Segundo a tese de Daciolo, os maçons desistiram de Geraldo Alckmin, estacionado nas pesquisas.

General Mourão durante sua palestra na maçonaria em Brasília
General Mourão durante sua palestra em loja da maçonaria em Brasília, em setembro de 2017, quando afirmou que, na visão dele e de companheiros do Alto Comando do Exército, “ou as instituições solucionam o problema político retirando da vida pública os elementos envolvido em todos os ilícitos ou então nós teremos que impor uma solução”.

O deputado federal do partido Patriota – que segue parecendo mais um pastor do que um candidato à Presidência – admite, ainda, no vídeo, que muitos o tratam por maluco. “Muitos não estão entendendo ainda, estão achando que estamos loucos, mas para discernir o que está acontecendo só no plano espiritual”, recomenda. Em seu vídeo anterior, que também deu o que falar, tendo ao fundo um estabelecimento da rede Havan, que tem lojas de departamento em várias cidades do Brasil – que costuma enfeitar com réplicas da estátua da liberdade, símbolo norte-americano -, o patriota prometeu retira-las, “uma por uma” em todo o Brasil. Vai ser mais fácil Donald Trump cumprir a promessa de construir um muro na fronteira com o México.

Daciolo tem sofrido cobrança dentro do próprio partido para descer as montanhas e aparecer mais – ir às ruas em campanha, conceder entrevistas, participar de debates. Há quem desconfie que, mais do que não conspurcar a própria honra repetindo a rotina dos demais candidatos, Daciolo está de olho em manter o mandato. Pela estratégia, retiraria sua candidatura ao Planalto até o dia 17 para tentar se reeleger na Câmara. O presidente da sigla, Adilson Barroso, aconselhou Daciolo a desistir da candidatura se não alcançar ao menos 5% das intenções de voto – publicou o jornal Gazeta do Povo. Por enquanto, Daciolo não passa de 1%. “Não tem isso de renúncia, quem fala isso está infiltrado no meio”, descartou o cabo, que promete para breve “novas revelações”. Imagine só.

Lula: “Haddad é o meu candidato”

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Trecho do acachapante programa eleitoral da coligação “O Brasil Feliz de Novo” em que Lula diz aos seus eleitores que “O nosso nome agora é Fernando Haddad”.

Até poucos dias atrás havia muitas perguntas no ar, todas decisivas para o futuro desta eleição presidencial – e todas envolvendo Lula e o PT. Restou apenas a última, que virá das urnas no próximo mês. É que o relógio anda girando numa velocidade tal que mal temos tempo de registrar os fatos, menos ainda de analisa-los. Não, Lula não será candidato, nem governará o país pelos próximos quatro anos. Lula segue preso há 161 dias, desde a noite de sábado, 7 de abril, quando se entregou pacificamente após ficar dois dias na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Não, o PT não teve sucesso em nenhuma de suas batalhas jurídicas para garantir a participação do ex-presidente na campanha eleitoral, “com Supremo, com tudo”, e apesar de uma decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU afirmar e reafirmar que Lula deveria disputar as eleições. Não, o PT não se deixou pressionar pelo tempo escasso para fazer a troca da cabeça de chapa, o que só ocorreu no último dia 07. Sim, a transferência de votos já começou e deve garantir Fernando Haddad no segundo turno, como aponta o Vox Populi, e, futuramente, com o delay de praxe, confirmarão Ibope e Datafolha. E, sim, Lula – de um jeito que só os bons marqueteiros e editores conseguem – apareceu finalmente na TV dizendo a frase: “Haddad é o meu candidato”.

E se, até agora, a transposição de votos gotejava no ritmo da prudência do PT, e da arriscada estratégia política que se impuseram, comandada por Lula de dentro da cela da Polícia Federal em Curitiba, ela começa a transbordar, rompendo a barragem do açude eleitoral. E enquanto a grande mídia se debruça sobre a evolução clínica do capitão Bolsonaro, esfaqueado por um desses debiloides que o zoo político brasileiro vem produzindo, o PT rasgou a fantasia com um programa eleitoral impactante da coligação “O Brasil Feliz de Novo”. Exibido às 20h30 desta quinta, 13 – assista aqui -, traz a carta que Lula escreveu para apresentar Haddad ao povo como seu candidato. Como Lula não pode lê-la – embora sua imagem e voz apareçam intercaladas, aqui e ali -, ela é narrada em diferentes vozes, com um show paralelo de imagens.

“O nosso nome agora é Fernando Haddad. Eu quero pedir de coração que todos que votariam em mim, que votem no Haddad. De hoje em diante, Haddad será Lula para milhões de brasileiros”, diz o texto de Lula, sem deixar margem para dúvida, no mantra que será trombeteado fortemente daqui em diante. Já Haddad, incorporando Lula, chama sua possível vitória de missão. Uma boa escolha de palavras. Se a desastrada tentativa de marketing de assessores e parentes, talvez à revelia de Bolsonaro, transformaram uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em um cubículo de alta rotatividade de oportunistas – incluindo aí as patéticas visitas do punguista religioso Silas Malafaia e do cançonetista Roger, a traça que restou do ex-vocalista do Ultraje a Rigor -, o marketing de Lula preso, impedido de se candidatar, tem tudo para dar certo.

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A música que Roger poderia ter cantado na visita a seu ídolo Bolsonaro:
“A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
“Inúteu”!
A gente somos “inúteu”!”

E que Bolsonaro melhore, se recupere, e possa concorrer, e perder honestamente, até porque seu porta-voz alternativo, também conhecido como  Hamilton Mourão, general de pijama, causa espécie a cada nova declaração. Todas, rigorosamente todas, antidemocráticas. Defensor do golpe militar – o de 1964 e outro que vier -, xenófobo, racista, dessa vez defendeu uma nova Constituição para o Brasil, sem Constituinte, elaborada apenas por um conselho de notáveis escolhido pelo presidente. Imaginem os notáveis escolhidos por Bolsonaro…

Em tempo 1: Nesta sexta, 14, Fernando Haddad será “entrevistado”, ao vivo, no Jornal Nacional, pela dupla William Bonemer Júnior e Renata Fernandes Vasconcellos.

Em tempo 2: Bolsominions e Robominions, mostrando que sentiram o golpe, andam espalhando pelas redes e canais de comunicação on line a frase “Haddad 17”, trocando criminosamente o número 13 do PT pelo 17 do capitão.