Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 2

“Algumas pessoas gostariam que o presidente eleito Jair Bolsonaro tivesse escolhido um chanceler que saísse pelo mundo pedindo desculpas. Queriam uma espécie de Ministro das Relações Envergonhadas. (…) Mas fiquem tranquilos, pois aqui, na frente externa, nada vai mudar. Estou aqui para aguar todas as posições do presidente, para cozinhá-las e transformá-las no mesmo rame-rame que vocês já conhecem, continuarei falando a linguagem da ordem global. Estou aqui para não deixar nada acontecer”.
Trecho do alarmante artigo do futuro chanceler Ernesto Araújo para o jornal paranaense Gazeta do Povo.

O embaixador Ernesto “Ernie” Araújo, escolhido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro para chefiar o Ministério das Relações Exteriores do Brasil a partir de janeiro, já é um segregado dentro de sua própria instituição, o histórico Itamaraty, fundado em 1736. Sim, 282 anos para, em pleno 2019, ganhar como chefe não apenas um diplomata inexperiente, um homem que tem como padrinho o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, mas um tipo de doutrinador que se expressa como os Papas na Idade Média, falando em combate a temas “anticristãos”, defesa da família e perseguição de ideologias que não sejam as suas. Por sorte, onde há tirania, há resistência, e mosteiros medievais preservaram bibliotecas inteiras onde grandes obras do Mundo Clássico e Oriental eram escondidas. Circula por grupos de diplomatas dentro do Itamaraty, com forte receptividade, uma mensagem incentivando a Casa a não sucumbir ao “Pastor das Relações Exteriores”. O texto é avassalador e desconstrói o “bispo” Araújo. Mostrando que encontrará, numa das burocracias mais preparadas do país, no mínimo, trincheiras sólidas. A tara de Araújo deve ter relação com a influência e a admiração do chanceler que é referência dos anos petistas, Celso Amorim, ele próprio reconhecendo a nomeação de Ernesto Araújo ao Itamaraty como retorno à Idade Média. Se do nosso ponto de vista, as primeiras manifestações do desconhecido Ernesto Araújo soam apavorantes, imagine para a Casa de Rio Branco. Como o artigo que escreveu para o jornal paranaense Gazeta do Povo, e rapidamente disseminado.

O artigo, que deve ser lido com imensa responsabilidade, e como um alerta mesmo, é um manual de diretrizes para o seu comando do Itamaraty. No texto intitulado “Mandato popular na política externa”, Araújo afirma que seguirá as orientações de Bolsonaro de “libertar o Itamaraty” e combater o que ele chamou de “ideologia marxista” que está presente no órgão de diplomacia brasileiro. Se você reparar bem, o discurso se assemelha ao de outro escolhido de Olavo de Carvalho, o futuro ministro da Educação, o “professor e filósofo” colombiano Ricardo Velez Rodriguez, saído dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. Ele também acha que o ensino no país tornou-se refém de uma “doutrinação de índole na ideologia marxista”. Marx, como se vê, é um fantasma muito presente nos pesadelos do futuro ministério Bolsonaro.

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“Ernie” está feliz, sorrindo de orelha a orelha, mas vai encontrar resistências dentro do Itamaraty e muita preocupação da mídia internacional, que mancheta: “Diplomacia do Brasil em risco de ruptura com nomeação de Araujo”. A bússola desse cara está quebrada.

Ainda sobre o artigo de “Ernie” na Gazeta do Povo, ele alerta para o que chamou de “alarmismo climático”, “a adesão às pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais” e “a destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada”. Araújo não se aprofunda em nenhum desses temas, mas enumera o que chama de “elementos da ‘ideologia do PT’, ou seja, do marxismo, que ainda estão muito presentes no Itamaraty”. O resto do artigo são partes da mesma piada sem graça. “E o povo brasileiro? Vocês não se preocupam com o que o povo brasileiro vai pensar de vocês? Sabem quem é o povo brasileiro? Já viram? Já viram a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir trabalhar, com medo de ser assaltada ou estuprada? A mulher que leva a filha doente numa cadeira de rodas precária, empurrando-a de hospital em hospital sem conseguir atendimento?”. Certamente “Ernie” tem um profundo conhecimento do povo brasileiro, do Brasil dos rincões. Eu realmente adoraria saber em que cidades brasileiras já esteve o diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos.

Ainda sobre Olavo de Carvalho, o recém-descoberto “filósofo dos filósofos” da família Bolsonaro, autor dos best sellers – hahaha – “O Jardim das Aflições” (1995) e “O Imbecil Coletivo” (1996), que está fora do Brasil há 13 anos e vive em Richmond, capital do estado da Virgínia (EUA), disse que morrerá em solo de Trump. É muito amor pelo Brasil. “Quero ficar aqui no mato até morrer”, diz. Mato tem de sobra no Brasil, Olavo, o que você merece é comer raiz de capim americano pela raiz.

Imperium mediocre, mediocre oraculi

O “ideólogo da direita” Olavo de Carvalho – como costuma ser definido, e ele ama, afinal chamar de ideológico ou filósofo um ultradireitista desqualificado como ele é um tremendo elogio -, cujas concepções, pensamentos e construções filosóficas, que desabam, como um castelo de cartas, ao primeiro sopro ideológico honesto, e que tornou-se a eminência parda do governo Bolsonaro, para ciumeira geral de seus generais estrelados, de seu “Posto Ipiranga” e de seu juiz de estimação, rompeu o silêncio e falou por alguns minutos, por telefone, com a repórter Natália Portinari, do Globo (Leia), onde mostrou-se o que é: um fake news total, um personagem fake, um filósofo fake, um consultor fake, indicando ministros fake. Em um governo que já virou um pesadelo surrealista de Dalí, dois ministros estratégicos vieram do ‘caderninho’ de Olavo. Se Paulo Guedes é o Posto Ipiranga e Sérgio Moro o Posto BR de Bolsonaro, Olavo é o posto ExxonMobil,  que sonha ver o Brasil como um Panamá sem canal, mas com pré-sal suficiente para dar e vender. Olavo é o “Pequeno Príncipe” de Bolsonaro, seu blog de cabeceira. Se merecem.

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Apresentação do Blog de Olavo de Carvalho, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria. Pose de imitador de John Wayne, idolatria aos Estados Unidos e anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e o futuro chanceler Ernesto Araújo, são, como de resto, ilustres desconhecidos em um ministério sem rostos, de não notáveis, e onde os poucos entes com ligações partidárias são considerados cota pessoal – o que significa que Bolsonaro ignorará os partidos e tentará governar com bancadas movediças, evangélicos, ruralistas, lobistas de planos de saúde e da indústria das armas – e seus dois “superministros” Paulo Guedes e Sérgio Moro. É tosco imaginar que em um mundo onde se pode ler Kant, Rousseau, Hegel, Gramsci, Schopenhauer, Nietzsche, Maquiavel, Marx, Paulo Freire, Heidegger, Comte, Sartre, Adorno, Hume, Tomás de Aquino, Descartes, Platão, Aristóteles, Sócrates – ou, vamos lá, Chomsky, Cortella, Karnal –, alguém ouça o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, que se dá tanta importância que lembra – apenas lembra – o afetado e pedante Paulo Francis, mas sem sua genialidade e com muito menos humor. E com um deslumbramento do país em que vive que o faz desprezar o país em que nasceu, um esnobe que pensa que transita mentalmente entre as fronteiras de dois mundo, como se fosse um profundo conhecedor de tudo. Acha que nasceu há dez mil anos atrás, mas mal consegue ficar de pé, engatinha, levanta, dá alguns passos e desaba. Só Bolsonaro e a trôpega direita brasileira para seguir seus conselhos.

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O filósofo e dublê de caçador Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, tarado por armas, e o filhote de urso que abateu pessoalmente.

Na entrevista ao Globo, ele debocha da repórter – chega a dizer que se apaixonaria por ele, o velhaco -, como se fosse um Deus falando com um mortal nas escadarias do Olimpo. Seu Blog – não dá para opinar sobre alguém hoje sem entrar em suas redes sociais, por mais insalubre que seja o trabalho -, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – em português, “Nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria” – o mostra em uma pose de imitador de John Wayne, que de tão caricatural parece remake de ‘Bonzanza’. A idolatria aos Estados Unidos e o anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba, está lá, puro, direto, sem curvas, conexão total com os babacas que o seguem.

Pretensioso, arrogante, narcisista, mitômano, faz de seu blog um passeio por lambidas na própria virilha e cagação de regras. Está nas principais redes sociais e disponibiliza um “Boletim Olavo de Carvalho”, um emaranhado de baboseiras que parecem coisa do livro “Cartas do Inferno”, do famoso teólogo C. S. Lewis – na década de 1940, C.S. Lewis escreveu uma série que foi publicada no The Guardian, contando a história de um demônio que enviava instruções a um subordinado através de cartas, com o propósito de destruir a fé de um cristão recém-convertido. Em um de seus últimos posts, “Isto explica praticamente TUDO (a caixa alta á dele), mostra, num gráfico simplório, sem fonte, que – respire fundo – a “qualidade do sêmen” masculino, comparada com 1940, caiu vertiginosamente. E abre para debates, com comentários que mostram bem quem é sua claque. “Ou seja estamos cada vez mais femininos…ou ficando ralos. Homens sem testosterona”, comenta um deles. “Meu Deus… junto com isso a testosterona, a virilidade, inteligência, coragem, amorosidade, TUDO vai pro beleléu”, espanta-se uma (!) internauta. Esse é o nível do debate.

Em outro post, ele observa: “A chegada da direita ao poder pelo voto popular foi o acontecimento mais traumático na vida da classe jornalística brasileira. Ela nunca imaginou que tamanha calamidade pudesse lhe acontecer, coitadinha”. O ódio à mídia tradicional, praticamente ignorada por Bolsonaro na campanha e depois de eleito, casa com esses ideais, de quem pretende governar pelas redes sociais. Em vídeo recente (Assista sem esperanças), intitulado “Democracia, o caralho” (isso mesmo), Olavo de Carvalho – estante fake de livros ao fundo e um curioso anel no dedo mínimo -, defende a tese de que a eleição de Bolsonaro é o reencontro do país com sua maioria conservadora. Dizer que o Brasil é uma democracia é uma coisa ridícula. (…) O Brasil não é uma democracia. Isso é uma farsa grotesca, ofensiva, insultuosa, agora vamos ter a democracia com Jair Bolsonaro” diz ele, para quem o PSL será o “grande partido conservador que sempre nos faltou”. Será que ele já ouviu falar em Arena?

Ah, no Facebook, Olavo oferece “Cursos avulsos com 50% de desconto”. Black Friday? Não sei, mas é uma oportunidade que não posso deixar de perder.

Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump

Ernesto Araújo foi uma nomeação engraçada. Não, sério, deixem de ser mau humorados. Primeiro, Ernesto me lembra logo o Che. Ernesto “Che” Guevara de la Serna (que aliás, era médico, Mais Médicos, ai meu Deus, piada pronta). A gente tripudiando do Onyx Lorenzoni, do Marcos Pontes, da Tereza Cristina, do Paulo Guedes, do Sérgio Moro – outra piada pronta, concordamos -, e o Bolsonaro, brilhantemente, me tira do coturno o Araújo, a primeira indicação de Olavo de Carvalho para a Esplanada dos Bolsominions. Pois Ernesto “Che” “Olavo” Araújo é a melhor piada de Bolsonaro até agora. Que favor para a oposição! Num dia, Bolsonaro implode o Mais Médicos. No dia seguinte, escolhe como chanceler um diplomata recém saído da segunda classe -ei, ei, não é preconceito, ele foi promovido a ministro de primeira classe – o nome técnico do topo da carreira, o chamado embaixador- apenas no primeiro semestre deste ano, o que foi visto como uma quebra de hierarquia grave e sem precedentes no Itamaraty. Mais ou menos como um capitão comandar generais – mas deixa isso pra lá. O sujeito não é só um “trumpista”, baba ovo de Donald Trump, como a mídia reconhece, é um sujeito medíocre. Assim como a gente olha o Mourão e pensa, peraí, mas como ele pode ser tão sem noção se formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio – também frequentada por Bolsonaro -, a gente olha pro Ernesto Araújo e se questiona: gente, como o Itamaraty, com a excelência de seus quadros, aprovou a entrada desse cidadão?

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Indicado por Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, futuro chanceler idolatra Donald Trump e  chamou o PT de Partido Terrorista. É certo como dois e dois são quatro que vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. A nomeação foi criticada dentro do Itamaraty por ter acabado de ascender à carreira de embaixador. Elogios, só de Bolsonaro e do atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, para quem seu sucessor é um diplomata “bem conceituado”.

Em artigo intitulado “Trump e o Ocidente”, escrito em 2017, Araújo afirma que o nazismo é uma ideologia de esquerda. Acompanhem o trecho: “E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional‑socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista)”. Gente, o cara acredita que Hitler era de esquerda. O cidadão criou um blog na campanha eleitoral no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. Isso mesmo, ele é anti-globalização. Será que ele combinou isso com o “Posto Ipiranga?”.

Nessa colcha de retalhos que vem se costurando o Ministério Bolsonaro, é certo como dois e dois são quatro que o “menino” de Olavo de Carvalho, se tiver alguma voz de comando, vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. Colunistas de todas as vertentes políticas estão apavorados. “O presidente Jair Bolsonaro pode fazer uma política externa ideológica de direita. Foi eleito para governar e escolher os caminhos do país. Só não pode acusar os governos petistas de terem partidarizado a política externa, porque é exatamente isso que ele está fazendo em grau muito mais elevado. O embaixador Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores, por tudo o que disse até agora em seu blog de ativista, indica que o governo escolheu um alinhamento entusiástico a Donald Trump e isso tem um custo econômico”, escreveu Miriam Leitão, no Globo. “Ao escolher Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, Jair Bolsonaro inclina-se para o lado de Trump. O futuro chanceler é fã do presidente americano e, como ele, crítico da globalização, “que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, como escreveu em seu blog. É uma teoria estapafúrdia, mas coerente com a caça aos vermelhos desatada pelo bolsonarismo”, fez coro Clóvis Rossi, na Folha. “O novo presidente terá um chanceler à sua imagem e semelhança. O futuro ministro Ernesto Araújo não é apenas um bolsonarista de carteirinha. Ele também emula o chefe no discurso contra o “globalismo”, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural””, reforçou Bernardo Mello Franco, no Globo. O que escreveu o Merval, tá curioso? “É uma surpresa desagradável, que indica, pela primeira vez na montagem do Ministério, uma decisão de fazer na política externa exatamente o que criticava nos governos petistas, com sinal trocado.”

Satisfeito?

Neutralidade mata. Posição dúbia também.

“Ou nós colocamos as coisas nos trilhos para sair dessa com liberdade, com respeito, ou nós vamos muito mal. Se a imprensa não ajudar, essa campanha não vai terminar bem. Não é assim que se ganha uma eleição. (…) “A democracia está em risco. Acordem”.
Fernando Haddad engrossa a voz contra Bolsonaro ao falar após evento público no centro de São Paulo. É preciso falar ainda mais grosso.

“Eu não diria aberta, mas há uma porta. O outro não tem porta. Um tem um muro, o outro uma porta. Figura por figura, eu me dou com Haddad. Nunca vi o Bolsonaro”.
Fernando Henrique Cardoso, ao Estado de S.Paulo, se comportando com mais dignidade que alguns ditos esquerdistas

 

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Fernando Henrique, que em seu governo ouviu Bolsonaro dizer que deveria ter sido fuzilado, abre uma portinhola para Haddad, que, de concreto, só recebeu apoio convicto do ex-presidenciável Boulos, do Psol; Ciro Gomes, que deu “apoio crítico” a Haddad e depois sumiu no mapa, enquanto o país incendeia; Aécio e Beto Richa, os anões políticos do PSDB, que anunciaram apoio do capitão-fujão; e o fascista Olavo de Carvalho, que defendeu eliminação até física da oposição a um possível governo das Cavernas/Casernas

Enquanto desaponta a postura neutra – ou apoios burocráticos e decepcionantes, pelo menos ATÉ AGORA – de alguns homens públicos, incluindo ex-candidatos à Presidência ditos “progressistas”, na disputa terminal entre Haddad e Bolsonaro no segundo turno, o capitão fascista ajuda construindo um “arco de alianças” que parece mais “tiro no pé”. Dois tucanos de biografia em frangalhos e que representam o que de pior existe no partido, Aécio Neves e Beto Richa, ex-governadores de Minas Gerais e Paraná, que viram suas trajetórias políticas virarem pó, apoiaram o Coiso. Após delação da JBS e investigação na lava jato, Aécio derreteu, foi afastado do mandato, deixou o comando do PSDB, fugiu do Senado e segurou-se numa cadeira de deputado federal por Minas Gerais, com 106 mil votos, 19º lugar no estado (teve 51 milhões de votos no 2º turno em 2014, só para lembrar). Outro tucano que passou de gigante (ao menos na mídia) a anão político, Beto Richa amargou o sexto lugar na disputa para o Senado, com 3,73% dos votos após ser preso por corrupção no mês de setembro.

Nessa barafunda política, um dos personagens surpreendentes do segundo turno até agora tem sido o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda que concluamos que esteja apenas no modo instinto de sobrevivência do partido que criou. Mas foi FHC – que, por Bolsonaro, já teria sido fuzilado – quem disse, em entrevista ao Estado de S.Paulo, que o capitão-fujão de debates “representa tudo que não gosto”, abrindo portas para um até há pouco impensável diálogo com setores do PSDB. FHC já disse que havia um muro entre ele e Bolsonaro, mas uma porta com Haddad, que poderiam abrir “em nome da democracia”. Momento memória: em entrevista à TV Bandeirantes em 1999, Bolsonaro afirmou que seria impossível realizar mudanças no Brasil por meio do voto. “Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC”, declarou na ocasião.

Ciro Gomes, terceiro colocado no primeiro turno e com um forte capital eleitoral à esquerda, continua devendo um apoio mais explícito a Haddad – mais do que dizer, pelas redes sociais, o obvio: que Bolsonaro é inaceitável e que “ditadura nunca mais”. Mas cadê a agenda com Haddad? Eles não subirão juntos em nenhum palanque? Não posarão juntos? Eles sabem o que isso representa – e meus amigos eleitores de Ciro também, portanto, me desculpem a insistência. O PDT informou que Ciro não subirá ao palanque nem fará campanha, e viajou para a Europa, devendo voltar apenas na semana da votação do segundo turno. Oi?

O “apoio crítico” anunciado pelo ex-candidato do PDT à candidatura de Haddad é muito pouco para o tamanho da encrenca. Enquanto isso, Bolsonaro, ganhou seu primeiro palanque no Nordeste, o candidato do PDT (!) ao governo do Rio Grande do Norte, que também disputa o segundo turno. Carlos Eduardo (PDT) enfrenta Fátima Bezerra (PT). Pode isso, Ciro? Vamos ficar mesmo rebobinando a fita de quem deveria ter apoiado quem com Bolsonaro colocando o primeiro pé na rampa presidencial. E até o PSTU (suspiro) divulgou nota em seu site na qual manifesta voto em Haddad, mas afirmou que não dará apoio político ao petista. Precisávamos de mais Boulos na esquerda brasileira. Neutralidade mata. Posição dúbia também. Ou vão esperar cumprirem-se os desígnios do “filósofo” fascista Olavo de Carvalho, guru da direita, que, como escreveu Caetano Veloso, em artigo na Folha de S.Paulo, “Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo”, sugere em texto que, caso Bolsonaro se eleja, imediatamente após a posse, seus opositores sejam não apenas derrotados, mas “totalmente destruídos” enquanto grupos, organizações e até indivíduos. Não acredita, leia aqui.