Maitê Proença no Meio Ambiente faz todo o sentido. Que o digam as cachoeiras…

Eu não falei que o Dr Rey – que levou a porta na cara no condomínio de Bolsonaro, na Barra da Tijuca – estava certo em sonhar? Quem não chora, não mama. Quem não pede, não leva. Quem não faz lobby é inocente. Dr Rey só queria acabar com o SUS e nos dar a chance de ter um ministro da Saúde que fala portuglês. Não desista, Dr Rey. Se o ex-astronauta garoto propaganda de travesseiros, Marcos Pontes, pode ser ministro da Ciência e Tecnologia, se a deputada Tereza Cristina, a “musa” dos agrotóxicos – ela propõe flexibilizar as regras para fiscalização e aplicação desse veneno nas plantações – pode ser a chefe da Agricultura, se o fundador do Ibmec, hoje Insper, e do banco BTG, pode ser o guardião da Fazenda, se o juiz Sérgio Moro, que botou Lula na cadeia, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro, pode ser o xerife da Justiça/Polícia Federal, se Onyx Lorenzoni, parte da “Bancada da Bala”, financiado a vida toda pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Forjas Taurus, pode ser o chefe da Casa Civil, qual é o problema do cirurgião plástico vendedor de pulseiras bioquânticas querer uma vaguinha na Esplanada?

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O superministério Bolsonaro, reunindo o melhor que o marketing tem: Maitê “Dona Beija” Proença, que entende tudo de biodiversidade, pode ir para o Meio Ambiente; o ex-astronauta Marcos Pontes, que vende “travesseiros da Nasa”, vai para Ciência e Tecnologia e pode controlar universidades públicas; Na Agricultura, Tereza Cristina, darling da Bayer – dona da Monsanto -, dona do RoundUp, agrotóxico mais popular do mundo; Paulo Guedes, Ibmec, BTG, “Posto Ipiranga” da Economia; e Dr Rey, o injustiçado, que só queria chefiar a Saúde pra jogar o SUS, do qual entende tanto quanto de senso de ridículo.

Deixem de ser preconceituosos com as subcelebridades! Prova disso é que a atriz, poeta, ex-Saia Justa Maitê Proença – menos conhecida pelas novelas globais, mas por ter arrebentado a banca na capa de fevereiro de 1987, há mais de 30 anos, da Playboy – , que pode ser nossa nova ministra do Meio Ambiente. Eu disse Meio Ambiente, galera, não Cultura. O ex-ator pornô Alexandre Frota, um dos sucessos da produtora Brasileirinhas, e eleito deputado apoiando Bolsonaro, pode manter as esperanças de uma vaga na Cultura. Maitê tem uma relação intrínseca com a mãe natureza. Fotografada por JR Duran, fotógrafo favorito de muitas estrelas, foi catapultada ao estrelato justamente pelos banhos de cachoeira – cachoeira, meio ambiente, tudo a ver! – no papel da sensual Dona Beija, protagonista da novela da hoje extinta TV Manchete. Foi recorde de vendagem por quase dez anos, até que, em 1995, Adriane Galisteu se despiu para a publicação. Maitê posou novamente, mas o primeiro ficou sendo seu ensaio mais lembrado.

Foi divulgado que o nome de Maitê foi proposto ao presidente eleito Jair Bolsonaro para a pasta do meio ambiente “por um grupo de ambientalistas, economistas e pesquisadores”, como adiantou a coluna de Ancelmo Gois nesta segunda, 12. Ela teria um “bom trânsito na área ambiental e fora dela”. Provavelmente, tanto quanto a ex-seringueira, ambientalista e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem de acesso ao mundo cinematográfico de Alexandre Frota. O empresário Paulo Marinho, ex-marido de Maitê Proença e ligado à campanha de Bolsonaro, considerou o nome da atriz para o Meio Ambiente “uma loucura”. Ah, o preconceito. Assim fica difícil formar um ministério de alto nível.

Bolsonaro começa transição ofuscado por dois superministros, Guedes e Moro, que podem ser solução ou problema daqui a quatro anos – ou menos

“A pasta da Justiça, ainda mais turbinada, deve render a Moro protagonismo inédito para um ministro. Caberá a Bolsonaro, que já terceirizou a política econômica para Paulo Guedes, ter habilidade para não se tornar um coadjuvante do próprio mandato”.
Jornalista Carlos Marcelo, dos Diários Associados

Se você achou, a princípio, estranho um ex-capitão presidente tendo como vice um general quatro estrelas reformado – algo como ter o gerente de estoque promovido repentinamente a presidente da empresa e o ex-CEO rebaixado a seu carregador de malas -, olhe de novo para a extravagante Esplanada dos Ministérios que está se formando às vésperas da posse de Jair Bolsonaro. Mourão e os demais generais que habitarão o primeiro escalão, batendo continência para o ex-capitão, estão deixando os holofotes, e colocando em segundo plano a tese de uma crise militar, looping de hierarquia, etc, depois que Bolsonaro anunciou o tamanho dos poderes de Paulo Guedes e Sérgio Moro. A mídia cita, sem exagero, que são “superministros”, tamanhas as áreas acopladas a suas pastas. São, automaticamente, pré-candidatos presidenciais para 2022, o que pode gerar, com o tempo, um curto circuito com Bolsonaro – que, por enquanto, jura de pés juntos que não vai querer um segundo mandato. Ah, tá. Até lá – ou até antes, se Bolsonaro não repetir a sina de Fernando Collor -, eles terão que conviver, os três, inclusive Moro, que já anda dando recados sobre verbas, pedindo dinheiro de loterias, etc. Lula/Fernando Haddad, Ciro Gomes e até Luciano Huck e Joaquim Barbosa são outros possíveis pré-candidatos, mas suas chances dependem da turma pré-citada. Só para reflexão: Bolsonaro é seis anos mais novo que Paulo Guedes e Moro, 46 anos, dezessete a menos que o patrão.

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Silvio Santos fala com Bolsonaro durante o Teleton. “Sei que o Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar e o senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, disse SS; General Mourão, a la Figueiredo, na capa de Época, a revista-encarte do Globo; Sérgio Moro na capa do Estadão; e Paulo Guedes, em matéria do mesmo Estadão.

Parte da mídia, a econômica em particular, já elegeu o “Posto Ipiranga” como grande fonte. Neste domingo ficamos sabendo que será ele a herdar o Ministério do Trabalho, a ser extinto, o que coloca a Secretaria de Políticas Públicas de Emprego nas suas mãos, podendo criar a tal carteira de trabalho verde e amarela (a minha segue sendo a azulzinha), que – “expressão da moda” – “flexibilizará os direitos trabalhistas“. Restarão aos contratados, em extinção, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. Além da carteira, a secretaria concentra programas como seguro-desemprego e abono salarial, e o Codefat (conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador), o que amplia a força de Guedes. Em 2018, o FAT teve previsão orçamentária de R$ 76,8 bilhões. Ah, Paulo Guedes deve ter Joaquim Levy -que está no Banco Mundial – no BNDES e Ivan Monteiro na Petrobras. Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro de Michel Temer, também deve estar no governo Bolsonaro.

Já Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública, terá poder de investigação do governo – será o chefe da Política Federal – e informação sobre crimes financeiros – dono do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Continua fortíssimo, embora tenha perdido, na última hora, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União, que tendem a virar tapumes para paisagens vazias. As Organizações Globo – O Globo e Jornal Nacional como carros-chefe – já elegeram Moro como seu darling e oferecem a ele um espaço tão desproporcional que constrange. É notícia todo santo dia, independente da taxa de umidade em Brasília.

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O Extra foi escalado para humanizar Bolsonaro e o faz da forma mais evidente e tosca possível. Capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro”; “A lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc.

Enquanto os jornalões do grupo fazem sua parte, o mais popular dos veículos impressos do grupo Globo, o Extra, foi escalado para um papelão diário. Um dos jornais mais lidos do país, tenta humanizar o chefe Bolsonaro. Só que de forma tão evidente, que beira o ridículo. Bom, leia você mesmo (e veja as imagens) com capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro – Conheça a vida do presidente eleito em fotos e histórias pessoais”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro” (diz o Extra que o pão com leite condensado, preferido do presidente eleito, “está caindo na boca do povo”); “a lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc. Onde será que o Extra consegue material para tantos “furos” diários. Acho que Silvio Santos, o dono do SBT, terá que repensar as pautas de seu novo “Semana do Presidente”. O Extra está roubando todas as pautas.

De Willy Wonka a Alice: sem Ministério do Trabalho e maquiando dados de emprego e renda do IBGE, Bolsonaro, eleito por uma fábrica de fake news, quer inventar o País das Maravilhas

“Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. (…) Nós temos que ter realmente uma taxa, não de desempregados, uma taxa de empregados no Brasil”.
Jair Bolsonaro, ditador eleito, em 05/11/18, prontinho pra um extreme makeover das taxas de emprego e renda medidos pelo IBGE. Sem Ministério do Trabalho, melhor reclamar pro bispo. Macedo.

“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”.
Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda, em 01/09/1994, em conversa nos bastidores da TV com o jornalista Carlos Monforte, captada por antenas parabólicas de telespectadores antes de entrar ao vivo no Jornal da Globo. Ele se referia ao IPC-r, o índice que reajustava os salários.

Há 88 anos, mais precisamente em 26 de novembro de 1930, uma das primeiras iniciativas do “governo revolucionário” implantado por Getúlio Vargas foi criar o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, chamado por Lindolfo Collor, o primeiro titular da pasta, de “Ministério da Revolução”. A pasta – possivelmente junto com Educação, Saúde, Justiça, Fazenda e Itamaraty, as mais emblemáticas da Esplanada – surgiu para concretizar o projeto do novo regime de interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas pelo Ministério da Agricultura – sendo na realidade praticamente ignoradas pelo governo. De volta ao passado. O ditador eleito Jair Bolsonaro, que já disse – sim, ele disse na campanha – que quer que o Brasil “volte a ser como há 40 ou 50 anos”, vai superar sua meta. Vai voltar quase 90 anos. Ele confirmou nesta quarta, 07, que vai acabar com o Ministério do Trabalho, que será engolido por alguma pasta nanica. Mais do que isso, Bolsonaro prepara-se para mexer em um dos índices mais confiáveis do país, a metodologia que mede taxas de emprego e renda, divulgada pelo IBGE.  Bolsonaro, que na campanha se aproveitava desse índice para falar mal do “legado petista”, agora chama-o de “farsa”. Nada como um dia depois do outro com uma eleição no meio.

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Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Ricupero e Getúlio Vargas. O ditador eleito vai extinguir o Ministério do Trabalho, criado há 88 anos, e quer mexer na taxa de emprego e renda medida pelo IBGE, centro de excelência e que usa metodologias internacionais, para “mostrar o que é bom e esconder o que é ruim”, como ensinava Rubens Ricupero. Também vai empurrar o Ministério do Trabalho para dentro de alguma pasta nanica. Se não tem emprego e estamos em liquidação, pra que medir o desemprego, certo?

O tema é um dos mais sensíveis na economia, com uma taxa de 11,9% de desemprego, o que significa que 12,4 milhões de pessoas estão em busca de uma oportunidade. A intenção é evidente: maquiar os números. Tão óbvio que economistas que acompanham os dados de mercado de trabalho e funcionários do IBGE estrilaram. Só para que se tenha uma ideia, o IBGE foi criado em 1936, passou pelo Estado Novo e pelo Regime Militar sem nunca ter sofrido qualquer tipo de interferência de um presidente. Bolsonaro diz se inspirar num pais quebrado, a Argentina, que fez uma intervenção no órgão de pesquisa que causou descrença na taxa de inflação. Depois disso, a revista britânica The Economist deixou de publicar os dados oficiais da Argentina.

Sem Ministério do Trabalho, maquiando os dados de emprego e renda, Bolsonaro, eleito com uma Fantástica Fábrica de Fake News, pode criar o País das Maravilhas. De Willy Wonka, passará a Alice – junto com Ony Lorenzoni, o Gato de Cheshire, e Paulo Guedes, ou Absolem, a lagarta lisérgica que não tira o narguilé da boca -, transmitindo ao país seu “milagre econômico” turbinado por fumaça enquanto negocia com o Congresso, em meio o fog democrático, as leis e mudanças constitucionais que quer. Nesse ponto o marketing será essencial, numa estratégia parecida com a usada pela agência AM4, responsável pela campanha digital do presidente eleito. Se não tem um Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil e mago político do general-presidente Ernesto Geisel, Bolsonaro montou um bem azeitado esquema nas redes sociais. Só terá que desligar a torneira do esgoto das fake news contra seu ex-adversário Fernando Haddad e abrir as comportas das good news de seu governo. No fundo, a mesma coisa.

Bolsonaro, por sinal, está montando o governo mais reacionário do período pós-ditadura. Além dos Onyx e Guedes já anunciados, ele confirmou que o general Augusto Heleno, que já havia sido anunciado como ministro da Defesa, assumirá agora o posto de ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). A Defesa voltará a ser um feudo quatro estrelas: o capitão nomeará um oficial-general, o topo das carreiras no Exército, Marinha ou Aeronáutica. Na Agricultura, adivinhem, a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) será a dona do latifúndio. Reforma agrária é coisa do passado. MST, chupa! Atual presidente da Frente Parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional, conhecida como a bancada ruralista, Tereza Cristina foi indicada pela FPA para o cargo. No Congresso, Tereza Cristina foi uma das principais defensoras do projeto que muda as regras no registro de agrotóxicos.

Em tempo: o TSE, numa atitude insólita e inédita em tempos democráticos – bom, não são mais democráticos – considera antecipar a diplomação de Bolsonaro para antes de sua próxima cirurgia. A Corte sugeriu que a solenidade ocorra no dia 11 de dezembro, um dia antes de presidente eleito ser submetido a procedimento de reversão de colostomia.

Esgoto é a palavra que me ocorre.

Estreia de Haddad em debate sonolento valeu por ironia de Marina: o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro pegou fogo

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Debate presidencial na TV Aparecida: morno, engessado, quase sem emoção, exceto pelos pitis de Álvaro Dias e pelo trocadilho de Marina com Paulo Guedes, o “guru” de Bolsonaro:  “Está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”.

Que me desculpem o trocadilho, mas foi uma penitência assistir ao debate presidencial na TV Aparecida – que trazia a novidade de ser o primeiro com Fernando Haddad, e que também reuniu Alckmin, Alvaro Dias, Boulos, Ciro, Marina e Meirelles. Injusto, talvez, culpar a TV católica pelo ritmo sonolento do debate, que não conseguiu empolgar sequer nas perguntas diretas entre os postulantes ao Planalto e terminou de forma enfadonha com o quadro final – quem teve essa ideia, meu Deus? – em que bispos perguntaram para os candidatos. O paradoxal é que talvez tenha sido o primeiro debate onde não se estimulou discórdias, mas tentou-se aprofundar ideias e propostas. Difícil dizer se isso ocorreu pelo respeito dos candidatos à platéia de batina, se pelo esgotamento da fórmula ou se por falta mesmo de um enfrentamento de verdade. Talvez tenha sido a falta do Cabo Daciolo e da Ursal. Talvez porque no fundo debate mesmo seria entre Haddad e o acamado Bolsonaro. Estavam todos tão carolas, citando Deus, com um excesso de reverência recíproca só perturbada, evidentemente, pelo botocado Álvaro Dias, com sua ira nada santa contra o PT e que aproveitava qualquer pergunta, ainda que fosse sobre família, como propôs Haddad, para lembrar a “herança maldita” do petismo, sua versão política do capeta.

A candidato da Lava Jato, como costuma ser rotulado o ex-tucano Álvaro Dias – o favorito de Moro, Dallagnol e da República de Curitiba -, hoje abrigado num certo Podemos, não se fez de carola e, possuído, partiu para cima de Haddad – metaforicamente, porque ele não é bobo -, com adjetivos como “porta-voz da tragédia” e “arauto da intolerância”, uma coisa meio Velho Testamento. E antes que Dias comparasse os governos Lula e Dilma a Sodoma e Gomorra, seu tempo acabou. Talvez lhe falte espiar os próprios pecados, como a acusação de que pediu R$ 5 milhões para aliviar para Adir Assad na CPMI do Cachoeira. Samir e e o irmão Adir operavam esquema bilionário de lavagem de dinheiro para as empreiteiras. Seu codinome na lista das empreiteiras era alicate – e fica a curiosidade do porquê. O doleiro Alberto Youssef foi outro que, numa sessão da CPI da Petrobras, confirmou ter financiado a campanha do senador Alvaro Dias. Não sei porquê, Dias me lembra muito outro arauto da moral, o ex-senador Demóstenes Lázaro Torres, cassado pelo Senado Federal por quebra de decoro parlamentar.

Haddad manteve a fleuma diante do candidato quase traço nas pesquisas. “Você fica sentado no seu gabinete no Senado, Álvaro, e desconhece a realidade”, retrucou Haddad, sem perder a ternura. Àquela altura, o programa registrava uma média de 80 mil pessoas no Twitter e quase 30 mil no Youtube, nada mal para a hora. Mas não foi só Álvaro que alfinetou o PT – Ciro Gomes e Marina Silva também deram suas estocadas, embora bem menos incisivas. Quando Ciro tentou demonstrar que o PT nada fizera para melhorar a qualidade das receitas no orçamento, Haddad saiu-se com o que chamou de “uma das maiores reformas tributárias às avessas no país”, que foi colocar os pobres no orçamento. “Foi pelo lado das despesas que fizemos todos os programas sociais feitos durante o nosso governo. O dinheiro chegou na mão do pobre”, retrucou.

Mas se faltava emoção – com Meirelles insistindo que criou 10 milhões de empregos, Boulos propondo a desmilitarização da polícia e a descriminalização das drogas, e Alckmin vendendo uma gestão impecável em São Paulo -, veio de Marina Silva a tirada da noite. Meirelles e Marina debatiam economia, quando vieram à tona as declarações do “guru” da economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, defendendo a volta da CPMF – o que foi desmentido pelo capitão (Leia “‘Posto Ipiranga’ nada, Paulo Guedes é o dono da refinaria”). “Ele (Bolsonaro) diz que (Guedes) é o seu ‘Posto Ipiranga’. Então está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”, ateou fogo Marina.

Lacrou.

“Posto Ipiranga” nada, Paulo Guedes é o dono da refinaria

“Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, promete a salvação; na verdade, ele é uma ameaça para o Brasil e para a América Latina”.
Trecho do editorial da revista inglesa “Economist”

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Bolsonaro e seu “Posto Ipiranga” Paulo Guedes, uma estranha união. O capitão é o direitista certo na hora certa. O economista, o neoliberal disposto a fazer tudo o que pede o mercado – incluindo privatizações até há pouco tempo impensáveis.

Você acredita mesmo que, com os compromissos que já assumiu – com seus financiadores, com o mercado, com Deus e o Diabo na terra de Temer -, Jair Bolsonaro, o capitão-presidenciável, enquadrou o general sem farda Paulo Guedes, que em tom amistoso chama de seu “posto Ipiranga” – maneira suave de dizer que a economia e a gestão do governo serão terceirizadas para um dos fundadores do Instituto Millenium? Esqueça a ingenuidade. Se você pensa que o banqueiro Henrique Meirelles é a encarnação do mal capitalista, precisa conhecer melhor o “guru econômico” do capitão. Porta de entrada de Bolsonaro no mercado, Guedes não é só o avalista, ele é o responsável por transformar o mercado na cheerleader de um capitão que, até se tornar a melhor alternativa para derrotar o PT, não passava de um parlamentar machista e medíocre com ideias reacionárias e pouquíssima influência no Congresso – o que seu número de projetos aprovados só atesta.

Talvez a lembrança de Bolsonaro no extinto CQC, na Band, no não tão distante ano de 2011, ajude a recordar a figura patética hoje chamada de mito. No quadro batizado de “O povo quer saber” (Assista aqui), Bolsonaro respondia a diversas perguntas no programa então comandado por Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque, e destilava seu preconceito com negros, gays e mulheres. Tas explicava a Luque, que não o conhecia, que tratava-se de um “deputado muito polêmico” que “é contra tudo e quer resolver as coisas do país a bala”.

A direita cresceu e apareceu – e Bolsonaro tornou-se o troglodita certo no lugar certo. Em um país onde a segurança passou a ocupar tema central, o militar incorporou como ninguém o discurso do “olho por olho, dente por dente”, que incluiu o saudosismo à ditadura, o apoio da linha-dura militar e a promessa de armar a população contra os bandidos. A indispensável porta de entrada para o mercado foi aberta por Guedes – como Armínio Fraga fazia com Aécio Neves.

No estaleiro desde que levou uma facada, muita gente tem falado por ele. Se os filhos Bolsonaro controla aos berros, mais difícil é segurar a língua do vice general, Hamilton Mourão – que defendeu uma Constituição elaborada por não eleitos e a ideia de que filhos criados por mães e avós, sem a presença do pai, correm mais risco de entrar para o tráfico. Fora acentuar o caráter preconceituoso do militar, o discurso não causou estragos entre os convertidos. E, vamos combinar, dificilmente espantará indecisos em um país onde, em tempos de intolerância, há muito ruiu a lenda do brasileiro cordial. O prende e arrebenta anda muito popular.

O verniz econômico veio com o ultra neoliberal Guedes, fundador e sócio majoritário do grupo financeiro BR Investimentos e um dos quatro fundadores do Banco Pactual, além de sócio majoritário do Ibmec. Há algum tempo, Guedes tem falado, em círculos restritos, sobre seus planos para a economia. Nada que já não se sabia. Anunciado com antecedência como futuro ministro da Fazenda caso o capitão seja eleito, Guedes, talvez por imperícia, tenha cometido o pecado mortal de, antes das eleições, falar abertamente em aumento de imposto. Foi na terça, 18, durante um evento restrito promovido pela GPS Investimentos – vazado, em parte, por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo (Leia aqui). À vontade, o economista admitiu criar um imposto semelhante à já extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) – a que os tucanos ajudaram a enterrar.

Mais do que isso, apresentou a proposta de criação de uma faixa unificada de IR de 20% – o que significaria aumentar o imposto de quem ganha menos, acabando com as alíquotas intermediárias. E baixar de quem ganha mais. Isso beneficia a fatia do eleitorado onde Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas, como bem lembrou Leonardo Sakamoto (Leia aqui). Mas se Guedes diz o que o mercado quer ouvir, a cautela aconselha a não tripudiar da ignorância do eleitor. Bolsonaro, na versão da mídia, quase abriu os pontos de tanto esbravejar no Albert Einstein. É uma questão de manter as aparências. Não dar munição aos adversários.

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Para isso, Bolsonaro tuitou, tuitou, tuitou – e os filhos Carlos e Flávio retuitaram, retuitaram. “Ignorem essas notícias mal intencionadas dizendo que pretendermos recriar a CPMF. Não procede”, tuitou Bolsonaro, na noite do dia 19. Mais cedo, Bolsonaro já havia tuitado que “Chega de impostos é o nosso lema!”. Nesta quinta, 20, voltou à carga. Novamente nas redes sociais, assegurou que, se eleito, “os princípios liberais serão a bússola” de seu governo. “Nós temos os fundamentos e as pessoas certas para, finalmente, trazer ao nosso país os valores que estampam a nossa bandeira”, afirmou, em postagem no Instagram. Ou seja, não disse nada, nem negou nada.

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Na campanha presidencial de 2006, ameaçar vender Petrobras e Banco do Brasil ainda era uma heresia, mesmo para os tucanos. Acusado por Lula de privativista, Alckmin usou uma jaqueta bege com os símbolos das estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e Correios. Era seu jeito de defender as estatais.

Candidato a “superministro” de Bolsonaro – uma espécie de Zélia Cardoso de Mello de terno e gravata de grife -, Guedes afirma, para quem quiser ouvir, que fará, se chegar ao poder, uma ampla privatização, inclusive da Petrobras, maior estatal brasileira, e Banco do Brasil. “Privatizações, concessões e desmobilizações. Tinha que vender tudo”, afirma o economista, com Ph.D. na Universidade de Chicago, considerada o templo mundial do liberalismo. Soam hoje, por isso, ridiculamente românticos os tempos em que o PSDB tremia ao ser rotulado de privativista. Em 2006, em uma palestra na Associação Nacional dos Funcionários do BB (Anabb), em Brasília, Alckmin usou uma jaqueta bege com os símbolos das estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e Correios. Era seu jeito de defender as estatais. No que diz respeito às estatais, Guedes está, metaforicamente, nu.

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A The Economist descobre o Bolsonaro que muitos brasileiros não querem ver: “O senhor Bolsonaro seria um presidente desastroso. Sua retórica mostra que ele não tem respeito suficiente para que muitos brasileiros, incluindo gays e negros, governem de forma justa. Há poucas evidências de que ele entende os problemas econômicos do Brasil bem o suficiente para resolvê-los. Suas genuflexões à ditadura fazem dele uma ameaça à democracia em um país onde a fé nela foi abalada pela exposição do suborno e a miséria da crise econômica”.

Uma das melhores definições de Paulo Guedes talvez tenha sido dada por outro economista querido do mercado, Pérsio Arida, coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin (PSDB). E não são palavras delicadas. Arida disse, numa entrevista ao Estadão (Leia aqui), que Guedes não passa de um mitômano. “Ele nunca produziu um artigo de relevo. Nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz ideia das dificuldades. Tornou-se um pregador liberal. Falar é fácil, fazer é muito mais difícil”, diz.

Bolsonaro teve, paradoxalmente, uma má notícia da turma do mercado lá fora, que parece se importar mais com coisas como democracia e direitos do que aqui dentro. A revista The Economist, bíblia liberal em todo o mundo, dedicou a capa desta semana a Jair Bolsonaro, “A mais recente ameaça da América Latina”. No editorial que repete a manchete, acrescenta o enunciado “Ele seria um presidente desastroso”. Nada que o “Posto Ipiranga” não possa piorar.