O VAR eleitoral pode salvar a democracia

“Acho que dá (para virar), sobretudo com as denúncias de corrupção na campanha do Bolsonaro. (…) Se o TSE apurar as denúncias, estou confiante”.
Fernando Haddad à Reuters ao chegar no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

“Eu não tenho controle se tem empresário simpático a mim fazendo isso (pagando para impulsionar fake news nas redes e whatsapp). Eu sei que fere a legislação. Mas eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência”.
Jair Bolsonaro, num quase mea culpa, ao Antagonista

Aos 40 minutos do segundo tempo, o time dos Ogros da Caserna parece levar uma vantagem difícil de tirar. Quase impossível, se você acreditar no Ibope ou no Datafolha, que mostram Bolsonaro perto dos 60% dos votos válidos. Complicada mesmo no cenário da pesquisa CUT/Vox Populi, que dá Bolsonaro com 53% e Haddad com 47%. Se essa diferença for mesmo de 6 pontos percentuais, há esperança nas urnas. Mas uma grave denúncia contra Bolsonaro e o esgoto a céu aberto que virou sua campanha abriram um clarão de esperança. O pedido feito pelo PT para impugnar a candidatura de Bolsonaro, a partir de uma manchete da Folha de S.Paulo – reportagem de Patrícia Campos Mello, aliás, agressivamente atacada por seguidores de Bolsonaro -, mostrando a fábrica de fake news via whatsapp montada pela campanha do capitão, e custeada alegremente por um grupo de sangue-sugas, entre eles Luciano Hang, dono da Havan, o sujeito que é tarado pela Estátua da Liberdade – pode se tornar a bala de prata da campanha. Já criou um fato novo e deve ser fortemente explorado pela campanha de Haddad, ainda que, no TSE, ricocheteie no laquê impenetrável de Rosa Weber ou na peruca Luiz XV de Luiz Fux. Ele que já declarou, há pouco tempo, que a Justiça Eleitoral poderia anular o resultado de uma eleição se esse resultado for decorrência da difusão massiva de notícias falsas. Bom, Fux também prometeu absolver Zé Dirceu… Vale ler o The Intercept sobre as convicções de Fux.

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Haddad, entre a esposa, Ana Estela, e a vice Manuela: vítima de uma fábrica de fake news montada pela campanha de Bolsonaro e bancada por caixa 2 de empresários como o dono da Havan, só quer que a Justiça Eleitoral faça seu trabalho. Mas quem está lá é Luiz XV Fux, que prometeu combater as fake news e agora, com as provas nas mãos, brinca de estátua

O fato é que a ‘Fantástica Fábrica de Fake News’ de Bolsonaro é ilegal, caracteriza doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, ou seja, caixa 2 – hashtag #caixa2dobolsonaro. Em agosto, o El País já havia arranhado o tema. Na prestação de contas do candidato do PRN, digo, PSL, consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital, como tendo recebido R$ 115 mil para mídias digitais. Segundo a Folha, os contratos chegaram a R$ 12 milhões e, por meio de compra de “disparos em massa” pelo whatsapp para uma base de usuários, deveriam fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT a partir de domingo, 21, abrindo a última semana da campanha. Fux está esperando o que para pedir o VAR? “Basta prender um empresário e vão entregar a quadrilha toda”, sugeriu Haddad. Se Rosa e Fux descongelarem, pode – e devem – impugnar a candidatura de Bolsonaro e mudar completamente o pleito, que pode até ser remarcado. Bolsonaro, evidentemente, jura pela alma de Brilhante Ustra que isso é mentira. Ao site Antagonista, Bolsonaro disse não ter controle sobre o que empresários apoiadores dele fazem. Epa!

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Rosa Weber, que é presidente da Corte, foi acusada por colegas de pouco jogo de cintura ao lidar com situações de crise, como as fake news da tropa de Bolsonaro, e até com os próprios pares. Constrangimento e saia justa no TSE.
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Luiz XV Fux, fazendo cara de sério e prometendo combater as fake news na campanha eleitoral. Que tal cumprir dessa vez sua palavra, ministro?

 

O TSE adiou uma coletiva de imprensa que estava prevista para as 16h desta sexta, 19, e remarcou para domingo, 21, às 14h, na sede do tribunal em Brasília. Participariam a ministra Rosa Weber, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a advogada-geral da União, Grace Mendonça, o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, além do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), general Sérgio Etchegoyen.

O Whatsapp foi mais rápido. Enviou notificação extrajudicial para as agências Quickmobile, Yacows, Croc services e SMS Market determinando que parem de fazer envio de mensagens em massa e de utilizar números de celulares obtidos pela internet, que as empresas usavam para aumentar o alcance dos grupos na rede social. Além disso, a empresa teria banido do aplicativo contas associadas às agências citadas. Curiosamente, um dos filhos do Coiso, Flávio Bolsonaro, eleito para o Senado pelo Rio, choramingou nesta sexta, 19, pelas redes sociais que teve o seu número de telefone banido pelo WhatsApp. Epa! Em entrevista para a BBC, o WhatsApp disse que seria impossível fazer novas ações antes do segundo turno das eleições.

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Meme dos memes: Jair ‘Willy Wonka’ Bolsonaro, o dono da Fantástica Fábrica de Fake News, montada por seus amigos. Perguntado sobre o assunto, foi evasivo, dizendo que não controla o que os apoiadores fazem, abrindo a interpretação para quem acha que ela está por trás de tudo

A reportagem da Folha teve enorme repercussão no meio político e na mídia, mas, curiosamente, foi solenemente ignorada pela Globo, como pontuou o sempre atento blogueiro Maurício Stycer. O “Jornal Nacional” optou por falar do caso de forma indireta, citando a decisão do PT de pedir a inelegibilidade de Bolsonaro “por suposto esquema de divulgação de notícias contra o PT nas mídias sociais”, como disse William Bonner.

Fujão de debates, foi liberado pela equipe médica, ciosa de seus diplomas – os médicos Antonio Luiz Macedo e Leandro Echenique -, a participar pelo menos do último debate, na TV Globo, mas avisou que não iria. Sem atestado médico, caiu a farsa e ficou exposta a estratégia de quem não tem o que dizer. Bolsonaro é intelectualmente limitado, conhece quase nada além de temas militares e de suas obsessões anti-direitos humanos, e seria devorado por Haddad, um professor e um político preparado. Talvez Bolsonaro fosse se a adversária fosse Dilma. Mas Haddad seria um risco de expor o falso mito, que será, e está evidente, um marionete dos interesses que o elegem – empresariado oportunista e inescrupuloso, quatro estrelas saudosos de poder, ruralistas reacionários, maiorais evangélicos que querem expandir seus templos transformados em caixas registradoras e implantar o fundamentalismo, inclusive nas escolas. Nosso ‘Conto da Aia’ particular. Um pesadelo. A ascensão do subterrâneo, general Villas Bôas e seguidores do ex-capitão, Edir Macedo, Silas Malafaia e manipuladores eletrônicos dessa estirpe, economistas medíocres a serviço de um neoliberalismo ultrapassado e que massacra os trabalhadores.

Para alguns analistas, como Alon Feuerwerker, se é difícil que a denúncia contra Bolsonaro, sem uma ação da Justiça Eleitoral, mude os rumos das eleições, a tão pouco tempo dos brasileiros voltarem às urnas, elas podem ter colocado no coturno de Bolsonaro, se eleito, uma bomba relógio que precisará ser desarmada já em seus primeiros meses de governo. Impeachment? Pessoalmente, não acredito que um governo Bolsonaro dure dois anos.

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Temer, o impopular: do golpe parlamentar às vésperas de ficar sem mandato, sem foro privilegiado e com um processo cabeludo que, se o país fosse sério, o levaria em pouco tempo para o xadrez.

Já Temer – lembram dele, o quase ex-presidente?, o sujeito mais impopular da história – tem passado mais tempo com seus advogados no Alvorada do que passando laquê nos cabelos e cremes nas mãozinhas. O pedido de seu indiciamento no inquérito dos Portos, pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, junto com sua filha Maristela e amigos de longa data, é só o final melancólico de um governo que assumiu com um golpe parlamentar, capitaneado por ele e por Eduardo Cunha, junto com a tucanada ligada a Aécio Neves. A terceira denúncia era esperada e Temer tenta, em seus últimos respiros como presidente, a anulação do ato da Polícia Federal junto ao STF. Quem sabe, num possível governo Bolsonaro, a não prisão de Temer possa ser mercadoria para negociar um apoio do MDB à base parlamentar do capitão.

Rei morto, rei posto. Depois de Alckmin, Temer reclama do abandono de outro tucano ex-aliado, João Doria

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Temer foi ao Twitter gravar um vídeo e, entre caras e bocas, reclamar do candidato João Doria, que o elogiava e agora, nas eleições, o critica. “Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade”, pediu. Rei morto, rei posto.

Michel Temer perdeu completamente o senso de ridículo, mas vem cometendo um sincericídio que acaba sendo, involuntariamente, engraçado. Não se sabe se o que o move a essa altura, a poucos meses de deixar o governo, ficar sem mandato e sem foro privilegiado, é um senso incompreensível de defesa de um legado que não existe – existe sim um enorme passivo social e político- ou se está seguindo a sugestão de algum marqueteiro em fim de contrato. O fato é que depois de dar uma bronca no candidato tucano Geraldo Alckmin por estar criticando o seu governo, após ter participado e usufruído dele, Temer agora decidiu fazer beicinho para outro tucano de plumagem mais curta, o candidato ao governo do estado de São Paulo do PSDB, João Doria. Assim como fez com Alckmin, Temer reclama de Doria por ter virado saco de pancada de quem, até há pouco, era um aliado amestrado.

No vídeo postado no Twitter (Assista aqui), intitulado “Desacelera @jdoriajr” – um trocadilho com o slogan de Doria, “Acelera SP” – com a expressividade de quem abusou do botox e trazendo na voz a indignação de um mímico -, Temer jogou na cara de Doria que, quando prefeito de São Paulo, “por brevíssimo tempo”, pediu muito auxílio ao governo federal, e foi prontamente atendido. E que, agora nas eleições, decidiu cuspir no prato que comeu. “Você tem usado a propaganda eleitoral para fazer críticas diretas e indiretas – ou seja, você está se desmentindo, porque ao longo do tempo você inúmeras vezes elogiou o meu governo. (…) Você que tanto me elogiou, que tantas vezes enalteceu o meu governo, não é por causa das eleições que você vai mudar suas características. Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade. Desacelera”, encerrou Temer.

Até o momento em que este artigo foi escrito havia 133 mil visualizações – o que mostra que para um presidente com rejeição de quase 100% e agenda parecida com a de funcionário às véspera das férias -, basta usar o humor, ainda que involuntário, para voltar a ser lembrado. Os comentários ao vídeo são uma piada à parte. “O cara inventou o Marketing de DR”, ironizou um internauta. “HAHAHAHAHAHAHA Presidente esse é o seu maior legado de governo, por favor continue!”, postou outro.

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Em outro vídeo (Assista aqui) , de 05/09, Temer reclamou de Alckmin em tom bem mais duro. No pronunciamento, Temer disse para Alckmin “falar a verdade” e criticou suas “falsidades”, uma vez que as críticas ao governo do MDB são relativas a pastas lideradas por partidos que fazem parte da base de apoio do tucano. “Se você vier a ganhar a eleição, essa base (do meu governo) será a sua base governamental. Eu lembro, Geraldo Alckmin, quando você, candidato a governador, candidato a presidente, nas vezes em que eu te apoiei, precisamente para esses cargos, eu acho que você era diferente. Não atenda ao que dizem seus marqueteiros, atenda a verdade. E a verdade é que nós fizemos muito por essas áreas, conduzidas por aqueles que apoiam a sua candidatura”, disse Temer.

É, Temer, até o fim da eleição você ainda vai ter que pedir a retratação de muitos ex-aliados. Rei morto – ou quase morto -, rei posto.

A conveniente amnésia de Alckmin: quem é mesmo Temer?

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O PSDB foi chave para a queda de Dilma, a ascensão de Temer e para a manutenção do governo recordista em rejeição. Agora candidato, Alckmin repete o apóstolo Pedro e nega uma, duas, três vezes ter feito parte do governo Temer

Geraldo Alckmin não é doido – Cabo Daciolo, o homem que revelou a Ursal e virou o candidato-meme, corre nessa raia. Nenhum surto de memória também explica sua súbita revelação: o candidato do PSDB à Presidência disse nesta quinta 13 que seu partido não tem “nada a ver” com o governo Michel Temer. Foi isso mesmo que você leu. Os tucanos não tiveram nenhuma responsabilidade, segundo o simpatizante da Opus Dei, na administração que arrombou o país. Ele ainda classificou a gestão do presidente cujo nome nem se recorda de “muito ruim”. Alckmin não bateu a cabeça, exceto nas pesquisas eleitorais, onde cada fica mais evidente que, além de não conseguir tirar votos do capitão Bolsonaro, magnetiza parte da feroz rejeição ao governo que apoia desde o golpe parlamentar de 2016 – o que alguns ainda chamam de impeachment, da mesma forma que muitos militares ainda chamam candidamente a ditadura de regime militar.

Aliás, minto. O PSDB de Alckmin e Aécio Neves, candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais, em 2014, estiveram juntos com o PMDB de Temer e Eduardo Cunha desde a engenharia da pauta bomba que inviabilizou o governo Dilma Rousseff no Congresso. Desde o primeiro momento. Integrando a equipe ministerial de Temer, do qual ainda faz parte, com o porteiro do Itamaraty, Aloysio Nunes Ferreira, que substituiu o deprimido José Serra. Além de Bruno Araújo, que foi ministro das Cidades, e Antônio Imbassahy, chefe da Secretaria de Governo, com gabinete dentro do Palácio do Planalto. Outro “executivo tucano” que prestou relevantes serviços foi Pedro Parente, que presidiu a Petrobras na liquidação do Pré-Sal. É possível ir mais longe. O PSDB não fez e faz parte do governo Temer, ele é a própria definição do governo Temer. Alckmin pode sapatear que não mudará esse fato: ele é tão Temer quanto o candidato oficial do PMDB, Henrique Meirelles.

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Ao tomar posse, e nomear seus ministros, no sinistro ano de 2016, Temer e Aécio fazia questão de demonstrar intimidade e a importância de sua aliança. Com Temer em desgraça, e Aécio reduzido a candidato a deputado federal, o presidenciável Alckmin diz que foi contra a participação do PSDB no governo surgido após o golpe parlamentar.

O episódio amnésico de Alckmin, em sabatina no Globo, é recentíssimo. Em julho passado, em entrevista ao programa É da Coisa, de Reinaldo Azevedo, na rádio Band News, Alckmin disse o contrário. Azevedo perguntou a Alckmin se os tucanos tinham “se comportado bem” com o Planalto. Também indagou se o tucano não enfrentaria a fama de ser um “candidato do B” do governo Temer, mas sem contar com o horário de TV e com a base do MDB. Era um fato. E restou a Alckmin admitir, justificando a aliança como necessária para assegurar a governabilidade. “(O PSDB) votou na crise grave que o país estava. Entendeu —e foi perfeitamente constitucional— o impeachment. Tendo votado o impeachment, teve responsabilidade com o novo governo. Não precisa participar, ter ministro A, B, C ou D”, disse o presidenciável, que também preside a legenda. Em campanha, Alckmin diz agora que, inclusive, foi contra a participação do partido na gestão Temer.

Espera-se para breve uma declaração de Alckmin informando que nunca viu Aécio mais gordo e renegando o “legado” FHC.

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