A continência e a conspiração

Um dia comum no clã Bolsonaro: o pai posou de sabujo do governo norte-americano e o filho surtou – ou isso ou, se não me engano, denunciou um complô para matar o pai tramado dentro de seu círculo mais próximo. Como não sabia sobre qual assunto escrever, escolhi os dois. São igualmente irresistíveis.

Vamos por ordem cronológica. Às 21h37 de quarta, 28, Carlos Bolsonaro, o filho mais novo do presidente eleito, escanteado da formação do ministério e desterrado de volta ao papel de vereador que defende a pena de morte, a tortura para traficantes de drogas e faz piada da proposta de legalização da união civil entre homossexuais, postou no Twitter algo que pode ser um surto ou uma denúncia grave. “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de (sic) sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário!”, escreveu. Não se sabe ainda da repercussão do Tweet em casa, mas na mídia foi tratado como notícia de rodapé. Seus seguidores – mais de 20 mil haviam curtido e cerca de 3 mil retuitado até a tarde desta quinta – não acharam brincadeira. “Ô louco. Tem aliado querendo a morte dele?”, perguntou um deles. “Bolsonaro tem que se livrar dessas pessoas”, recomenda outro fã. Um deles faz uma revelação: Já percebemos isso. Já sabemos quem é”. Mas deixou a descoberta no ar.

Ministerio Bolsonaro
À esquerda, Bolsonaro e tropa recebendo para um café com broa – e banana, claro – o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. Ao chegar para cumprimentar Bolsonaro, antes do aperto de mão, ganhou uma continência do presidente eleito do Brasil. À direita, em cima, Carlos Bolsonato, o twitteiro,  que disparou: “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto”. Aguarda-se o próximo capítulo. Embaixo, Eduardo Bolsonaro, em Washington, com o boné “Trump 2020”. Aguarda-se que a bandeira dos EUA seja hasteada ao lado da do Brasil na Praça dos Três Poderes.

Carlos atuou como responsável pelas redes sociais do pai em sua trajetória no Congresso e chegou a ser cogitado pelo eleito para assumir a Secretaria de Comunicação do governo. Acreditar que seu Tweet não foi feito de caso pensado é subestimá-lo – algo que eu não faria. Em evento na Vila Militar, no Rio de Janeiro, Bolsonaro evitou comentar diretamente a declaração de seu filho. “Minha morte interessa a muita gente. Quando recebi a facada, estava muito próximo de mim o elemento. Recentemente ele era filiado ao PSOL. Houve um fato recente de que uma pessoa tentou entrar com a identidade dele na Câmara dos Deputados. No meu entender há uma investigação bastante farta a ser concluída”, disse ele. Bom, o PSOL, que eu saiba, não está “muito perto” de Bolsonaro. Ao contrário.

Às 6h27 desta quinta, 29 – o menino dorme tarde e acorda cedo -, Carlos retomou o tema, dando a entender que não está falando de gente do PT ou PSOL, os primeiros a serem apontados como interessados no atentado contra o pai. “A pergunta que não pode calar e que muitos que se dizem “jornas” (sic) fazem questão de “esquecer”: quem mandou matar Jair Bolsonaro? Será que se fazem de idiotas por que foi um ex-membro do PSOL e simpatizante do PT?”. Mais mistério. Quase 27 mil curtidas e 5,5 mil retuites até a tarde. Dessa vez uma das respostas partiu do teólogo e escritor Leonardo Boff: “A investigação policial já tirou a limpo que ele agiu sozinho e está sob tratamento psiquiátrico. Como para vc, seus irmãos e pai nem Constituição e leis valem, continuam com ideias estapafúrdias, alimentando suspeitas infundadas só para culpabilizar as esquerdas”. Os posts estão aí embaixo antes que alguém ache que é fake news. Entrar no Twitter do sujeito é outra opção.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Meia hora depois que a mensagem foi postada, Bolsonaro estava em pé, na porta de sua casa em um condomínio na Barra da Tijuca no Rio, cercado de alguns de seus homens “mais próximos”: o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo; o futuro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno; e o futuro ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Aguardavam, ansiosos, a chegada do Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, e mais alguns assessores do governo Donald Trump. De repente, quando Bolton se aproximava, mão estendida para sacudirem falanges, falanginhas e falangetas, Bolsonaro bateu continência para o funcionário do segundo (terceiro?) escalão do governo norte-americano (Veja no Poder 360). A continência, como se sabe, é uma saudação militar e uma das maneiras de manifestar respeito e apreço aos seus superiores. Gesto reflexo? Outra de suas “marcas registradas”, como apontar “arminhas” com as mãos? Ou capachismo explícito? O leitor decide.

Na véspera, outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, encontrou-se em Washington com assessores do governo Trump – sabe-se lá pra quê. Agindo como uma espécie de chanceler informal, voltou a anunciar a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém – nem Freud, que nasceu em uma família judaica, explica -, decisão que contraria os interesses econômicos nacionais e que já havia sido contornada com a entrada em cenas dos generais que cercam seu pai, que haviam engavetado a ideia com um argumento matador: o Brasil poderia perder bilhões em exportações com nações árabes, concentradas justamente no agronegócio. Mas a cereja do bolo era o boné que Eduardo ostentava na cabeça: uma peça de campanha de Donald Trump. Só faltou o óculos Ray-Ban e o palitinho entre os dentes.

Após o encontro, John Bolton publicou em sua conta no Twitter que convidou Bolsonaro, em nome de Donald Trump, para uma visita aos Estados Unidos. Ele afirmou ainda que está “ansioso” para uma “parceria” entre os dois países. Estou mais ansioso em acompanhar a novelinha no Twitter de Carlos Bolsonaro.

Ah, um pouquinho de história contemporânea. Há 13 anos, o Brasil era soberano, defendia seus interesses e não batia continência para os Estados Unidos – duvida? Assista e encha o peito de orgulho.

Acabaram os rebeldes sem causa. Chegou a causa. É a geração mobile versus as Tias Lydias de Olavo de Carvalho

O novelo segue sendo desenrolado, revelando o que se esperava – e, desatando nó aqui, nó ali, o Ministério Bolsonaro vai tomando sua forma teratológica. Um governo paramilitar, de ultradireita, nível ‘O Conto da Aia‘ nos direitos humanos, sociais e das minorias, nível ‘Laranja Mecânica‘ em seu projeto fascista de ensino – área que a própria base evangélica considera “estratégica” -, com o tal Escola sem Partido e a proibição de que se discuta em sala de aula assuntos envolvendo gênero e sexualidade. No Itamaraty, simbiose total com os interesses americanos, com um chanceler adorador de Donald. E com as bancadas evangélicas, ruralistas, da bala, dos planos de saúde, mandando a ponto de entregarem a área de assuntos fundiários para a UDR (União Democrática Ruralista) e vetarem um educador moderado do Instituto Ayrton Senna para o Ministério da Educação porque não comungava com o tal Escola sem Cérebro. O resto da cretinocracia une o pior do argentarismo bancário e neopentecostal com um projeto de autocracia mezzo fardada, mezzo terninho de “apóstolo”. São os gângsters com doutorado da Escola de Chicago, cujos sobrenomes bem poderiam ser Nitti, Esposito, Drucci, Colosimo e Dillinger.

Se o moderado Mozart Neves é avançado demais para comandar o MEC, basta chamar o pai dos burros, Olavo de Carvalho, o “pensador”, o “ideólogo” de ultradireita, radicado na terra de “Papa” Trump, que já indicou o chanceler Ernesto Araújo, e agora emplacou seu segundo nome para a Esplanada,  o “professor e filósofo” colombiano, Ricardo Velez Rodriguez, professor de milico, saído batendo os coturnos dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. Ele também acha que o ensino no país tornou-se refém de uma “doutrinação de índole na ideologia marxista”. Outra Tia Lydia a tentar criar a distopia verde e amarela. Antes do discípulo de Olavo, outra casta estatal  -, a dos procuradores da República -, mostrou-se pronta para a missão de iniciar o Tratamento Ludovico: esvaziar as cabeças dos nossos filhos, impedi-los de pensar, de contestar, “caminhando e cantando e seguindo a canção”. E colocar no lugar a “educação moral e cívica” da ditadura e o ensino das academias militares, um internato de almas e espíritos livres.

Ministerio Bolsonaro.jpg
Da esquerda para a direita: cena do Método Ludovico, a terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no romance e filme Laranja Mecânica – longa de Stanley Kubrick sobre o romance de Anthony Burgess; o “bombeiro” do filme “Fahrenheit 451”, de ‎François Truffaut‎, baseado na obra de Ray Bradbury, que conta a história do homem que incendeia livros ao invés de conter incêndios; o novo ministro da Educação, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, apoiado pela bancada evangélica; o procurador Guilherme Schelb, que defende “tirar o socialismo da mente das pessoas”, como Edir Macedo, que fez sua fortuna pessoal tirando o diabo do corpo de seus fiéis, em farsas teatrais; e o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. Fogo!

Daí surgiu o nome Guilherme Schelb, o último dos cotados para a vaga, mas, depois de uma sabatina, desprezado por Bolsonaro. Nas redes sociais, Schelb defende o projeto Escola Sem Partido e diz que há doutrinação e manipulação comunista nas escolas – onde era essa escola, que eu perdi? Schelb defende “tirar o socialismo da mente das pessoas” e diz que Bolsonaro vai “expulsar socialistas do governo” – senti um cheirinho de Edir Macedo e enxofre na frase. Assim como Ernesto “Tio Sam” Araújo acha que havia um viés de esquerda em nossa política externa. Quem sabe não instalam uns cavalinhos inspirados na obra do escultor Josef Thorak em frente ao Itamaraty. E transformam José “O Mecanismo” Padilha em nossa Leni Riefenstahl.

No CCBB, a Führerbunker de Jair Bolsonaro em Brasília, formando seu ministério DEM/Arena-PSL-militares de pijama, sentiu o peso de uma bota gigantesca sobre a cabeça com a escolha para o MEC. Cedeu aos seus mais baixos instintos ao nomear um Montag, partidário do Tratamento Ludovico de extermínio de socialismo nas escolas. Como já defendia outro cotado para a vaga,  Aléssio Ribeiro Souto, general da reserva, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”.

No Congresso, a comissão especial da Câmara que discute a volta a 1964, ou, mais especificamente, o tal Escola Sem Partido, realizou novamente nesta quinta, 22, reunião sob clima tenso e com bate-boca entre deputados e manifestantes. Desde julho, é a nona reunião convocada para discutir e votar o parecer do relator, o travesso deputado federal Flavinho (PSC-SP). Com posse prevista somente para fevereiro de 2019, o deputado federal eleito Alexandre Frota (PSL-SP) entrou na comissão e sentou entre os deputados usando bóton de parlamentar na lapela sem ter tomado posse ainda. A votação, mais uma vez, vem sendo adiada após sucessivos tumultos nas sessões. Imagine o delicioso inferno que será esse Congresso em 2019, o ano da besta. “Ano que vem será um ano de guerra aqui na Casa”, disse o pastor e ex de Frota – segundo o astro de Brasileirinhas -, Pastor Marco Feliciano (Pode-SP). Será, Pastor. Será.

E, de repente, conversando com amigos, atentei para algo. O que estão propondo fazer com esses jovens – nem falo dos pais, como eu – da geração smartphone, dos youtubers, do pensamento livre – é um barril de pólvora. Ou, atualizando a metáfora, uma caixa de TNT do Minecraft. Vai dar ruim. Escola sem partido? Educação Moral e Cívica? OSPB (Organização Social e Política Brasileira)? Alguém acha que esse lixo do nosso tempo – eu que nasci em 1966 e entrei na Universidade de Brasília em 1987, ainda com um reitor biônico, o capitão Azevedo (capitão-de-Mar-e-Guerra José Carlos de Almeida Azevedo) – vai ser engolido por nosso filhos? Pois é, os caras criaram as Fake News pelo Whatsapp para se eleger, ganharam e agora acham que vão devolver o país a 1964, começando pela educação. Vão ganhar uma banana na velocidade da luz. E não adianta o MBL querer invadir a UNE com seus cara-borradas. Podemos ter o nosso maio de 1968 – sem que tenhamos que ser franceses e nem comer escargot – eca!

Ministerio Bolsonaro.jpg
O Ministério Bolsonaro, so far: uma união de DEM/Arena-PSL-militares de pijama, com uma base parlamentar que une as bancadas evangélica, ruralista e da bala. Vamos lá, de 0 a 10, que nota você daria para esse nightmare team?

É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando as vemos numa tela. Ou após uma eleição.

Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores

“E disseram que eu voltei americanizada
Com o “burro” do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”

“Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada”

Trecho de música que serviu de resposta sarcástica da grande Carmen Miranda a quem a criticava por fazer carreira em Hollywood, como se com isso fosse esquecer o Brasil. Seria uma carmelita descalça – sem trocadilhos – diante dos entreguistas de hoje

“O Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do Programa Mais Médicos (no Brasil) e assim comunicou à diretora da Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam a iniciativa”.
Nota do Governo Cubano. O comunicado não diz a data em que os médicos cubanos deixarão de trabalhar no programa. A Opas disse apenas que foi comunicada da decisão.

Até Dr. Hollywood, o parafinado, botocado e  candidato dele mesmo a ministro da Saúde de Jair Bolsonaro já entendeu. A meta na sua área é o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), que, com todos os seus (muitos) defeitos – gerenciais mais do que de verbas -, é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, que, aos trancos e barrancos – muitos barrancos -, busca garantir acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, para as pessoas cujo orçamento não cobre planos privados de saúde, não é opção preferencial do futuro governo. Seu projeto de educação, ao mesmo tempo, mistura “Escola sem partido”, doutrinação militar e cristã nas escolas, privatização do ensino técnico e controle das universidades públicas, com reitores biônicos. A escola onde há anos estuda meu casal de filhos me surpreendeu positivamente com um comunicado corajoso – o que só me confirmou o acerto no ensino construtivista. O título do texto basta: “Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?.” Fiquei orgulhoso. Na segurança pública, a política é a da Taurus e da CBC, manda a “bancada da bala”, o Estatuto do Desarmamento está com os dias contados. Armas para todos. Reagir à violência não com políticas sociais, mas com uma rajada diária de balas – pistolas nos porta-luvas dos carros e drones disparando para matar “bandidos” nas favelas. E na política exterior, ai meu Senhor, o novo chanceler, Ernesto Araújo, é o reflexo do alinhamento total com os Estados Unidos. O desejo oculto de voltar a ser colônia – dessa vez não de Portugal, mas da América de Trump. É, para dizer pouco, constrangedor.

É curioso observar que Bolsonaro, que passou a campanha afirmado que, se eleito, manteria uma política externa “sem viés ideológico” e criticando a ideologização do Itamaraty nos anos petistas, nomeie um sujeito que, como escreveu o jornalista Pedro Doria nas redes sociais, é “ideológico até o talo”. Para lastrear essa opinião. Os próprios jornais neste 15/11 chamam o futuro chanceler de “trumpista” – alguns como elogio. Durante a disputa eleitoral, Araújo criou blog no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. O alinhamento proposto pelo novo governo é tão estreito quanto o buraco da agulha por onde deveria passar o camelo.

Rebobinando a campanha eleitoral.  Em agosto, ainda em campanha, Bolsonaro declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil com base no exame de revalidação de diploma de médicos formados no exterior, o Revalida. A promessa também estava em seu plano de governo. Fora do Mais Médicos, os formados no exterior não podem atuar na medicina brasileira sem a aprovação no Revalida. Mas no caso do programa federal, todos os estrangeiros participantes têm autorização de atuar no Brasil mesmo sem ter se submetido ao exame. Bolsonaro disse ainda que “além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”. O presidente eleito acrescentou que “Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos – uns 70%, calcula – e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares”.”Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu no Twitter.

Imagens temporárias 9_
‘Mais Médicos’ chegaram ao Ceará em 2013 com contrato de trabalho de três anos.  O programa virou um sucesso nacional: médicos estrangeiros onde os brasileiros não faziam questão de atender. Um tapa na cara do corporativismo. Afrontado seguidamente por Bolsonaro, que ameaçou até romper relações com Cuba, o governo cubano informou que decidiu sair do Mais Médicos, citando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito. Dilma Rousseff criou o programa para atender regiões carentes sem cobertura médica. Posts de Bolsonaro nas redes sociais – sua praia – tentam repassar a culpa para quem queria servir.

No que interessa aos rincões do país, vamos à matemática. Deixarão o país 8.332 profissionais cubanos. Mais de 24 milhões de pessoas podem ficar sem atendimento. São 1.600 municípios hoje com cubanos em seus hospitais. Pequenas cidades do Nordeste temem um “apagão médico”, já adiantou a Folha de S.Paulo. A reação de Bolsonaro? Todo cubano que quiser pedir asilo ao governo brasileiro vai obter. Desce o pano.

coletiva-bolsonaro
Presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia Ernesto Araújo (ao lado dele) como novo ministro das Relações Exteriores. Segundo Bolsonaro, o novo chanceler é diplomata de carreira há 29 anos e um “brilhante intelectual”. De acordo com o site do Itamaraty, Araújo é o atual diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Ler seus textos recentes é um exercício de “sofrência”. USA! USA!
Captura de tela inteira 14112018 210254.bmp
Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Desejos ocultos de ainda ser colônia.

Pausa para reminiscências. Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Carmen se surpreenderia.

Sobre o “Mais Armas”, lembrei agora de um colega jornalista, nervosinho por natureza, pavio curtíssimo, que, numa carona ocasional, me surpreendeu um dia entrando numa briga de trânsito. Conhecido por seu temperamento explosivo, não deveria levar nem canivete no bolso de trás da calça. Nem para “Selvagem da Motocicleta” servia – desculpe, Coppola. Mas, me mostrou depois que os ânimos se acalmaram, tinha no porta luvas uma pistola, que, confessou, teve muita vontade de sacar. Havia crianças a bordo do lado de lá. Eu, do lado de cá, me encolhi no banco do passageiro. Por sorte, ninguém se feriu. Imagine esse potencial bangue-bangue como rotina, num país já violento até a medula. Mas entendo bem onde vamos parar com o programa “Armas para todos”. E “Drones para pobres”. Para que Bolsa Família, Bolsa Atleta, Água para Todos, Luz para Todos, Fome Zero, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Brasil Alfabetizado, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, Programa Universidade para Todos? E Mais Médicos? Vai para Cuba! Foram.

46309253_2357429897607600_5968837319652802560_n.jpg
E viva a internet, viva os memes!

 

A virada começou. Haddad será presidente

Não, não sou vidente. E obviamente nesse título tem voto, tem torcida e tem uma mensagem para você: não desmobilize. Não vá na onda dos institutos de pesquisa, relativize o que você lê na mídia tradicional, ignore as fake news, tente reverter um voto que seja – começando dentro de casa – e não deixe de votar no domingo, 28. Em Haddad e Manu, obviamente. Mas também não é só torcida. A visão emocionante da multidão nos Arcos da Lapa, no Rio, na terça, 23, mais do que um ato de enorme simbolismo e exemplo para o país, chamado não por acaso de “Ato da Virada” em apoio a Fernando Haddad, encharca os democratas – não apenas esquerdistas, a luta se tornou maior, você sabe disso – de esperança e respaldam um sentimento de há uma mudança no ar. Haddad e Manu tornaram-se maiores do que Lula e o PT – vejam que forma tortuosa de minimizar o antipetismo insuflado pela mídia, pelos eleitores que tiraram o ódio do armário e pelo exército de fake robôs tolerados pela Justiça Eleitoral, agredida nesta reta final até o limite do intolerável. Tornaram-se a única alternativa ao ao ódio, ao preconceito e ao retrocesso representados, com todas as medalhas coloridas e sem glória, pelo casal 20 do fascismo Bolsonaro-Mourão. Os apoios enrustidos de Ciro Gomes e Marina Silva – “apoio crítico” numa hora dessas é quase omissão – ajudaram, assim como o apoio de peito aberto de Guilherme Boulos. Mas, propaganda eleitoral à parte, foram Bolsonaro, filhos e apoiadores que têm feito o trabalho de desconstrução de si mesmos – ao contrário do papelão do PT com Marina Silva nas eleições passadas -, mostrando-se sem pudor com os antidemocratas que são. Sim, eles são assustadores. Sim, eles representam a volta às trevas.

Para não dizerem que não falei de números, usemos a matemática insuspeita de quem não quer a virada – mas não pode se desmoralizar. A vantagem de Bolsonaro sobre Haddad nas intenções de voto espontâneas caiu sete pontos porcentuais entre as duas pesquisas realizadas pelo Ibope no segundo turno. Embora mantenha a liderança em todas as abordagens, o Coiso teve uma queda mais acentuada nas menções em que os entrevistados dizem em quem pretendem votar sem serem estimulados com os nomes dos candidatos. Passou de 47% das intenções de voto espontâneas na pesquisa divulgada em 15 de outubro para 42% no levantamento divulgado na terça, 23. Caiu, inclusive, entre os evangélicos – apesar dos esforços dízimos de Edir Macedo, Universal e Record. O sincericídio torpe da trupe da caserna parece estar vencendo os púlpitos. Haddad, por sua vez, passou de 31% para 33% entre as duas pesquisas — a diferença entre os dois caiu de 16 para 9 pontos porcentuais. A movimentação dos dois candidatos também se repetiu nos votos válidos, que leva em conta a pesquisa estimulada e descarta os votos em branco, nulos e indecisos. Bolsonaro passou de 59% para 57% enquanto Haddad foi de 41% para 43%. No quesito rejeição – esse é um dado crucial porque ajuda a mergulhar o pântano dos indecisos, por mais filtros que se coloque – Bolsonaro subiu de 35% para 40%, salto de 5 pontos percentuais. Em contrapartida, a rejeição a Haddad diminuiu de 47% para 41%, baixando 6 pontos, números que favorecem o candidato da Coligação “O Povo Feliz de Novo”.

Tem mais. Enquanto Haddad segue massacrando Bolsonaro no Nordeste, o que tende a ser ampliado no mata-mata do segundo turno, a guerra do Sudeste-Sul também dá sinais sólidos de mudança. Na capital de São Paulo, o ex-prefeito Haddad já aparece com 51% dos votos válidos, ultrapassando os 49% dos votos de Bolsonaro – segundo o mesmo Ibope. Algo está se movendo e, no caso de São Paulo, já foi apelidado pela mídia de “Bolsodoria”. O voto casado em Bolsonaro para presidente e Doria para governador, micou. Segundo o Ibope, a dupla Fascistão e Milionário tem nesse momento pior desempenho entre os paulistanos do que entre os moradores do interior de São Paulo. Na capital paulista, Haddad chega a estar numericamente à frente de Bolsonaro, enquanto Márcio França, candidato do PSB e adversário de Doria na disputa estadual, lidera com 18 pontos de vantagem em relação ao tucano. Memória breve: Doria renunciou ao cargo de prefeito para disputar o governo do estado pouco mais de um ano depois de assumir, em 2017, mesmo tendo se comprometido a ficar na prefeitura até o fim do mandato. A onda de ódio espalhada pelo capitão-fujão de debates incomodou de tal forma que o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do PSDB Alberto Goldman afirmou nesta quarta, 24, que irá votar em Haddad para presidente. Em um vídeo e texto publicados em sua página no Facebook, Goldman disse que “votará em Fernando Haddad contra a ameaça aos valores democráticos”. Dessitiu de votar nulo. Mais gente insuspeita tem feito essa reflexão.

Enquanto isso, naquele país que corremos o risco de ser amanhã – e onde até a mídia do país compara Trump a Bolsonaro – o envio de pacotes com explosivos direcionados a críticos do presidente norte-americano está consternando a sociedade norte-americana. A distribuição dos artefatos começou na segunda, 22, e teve como alvos membros ou apoiadores do Partido Democrata – oposição a Trump. Depois disso, foram “presenteados” George Soros, doador de campanha dos democratas, no estado de Nova York, o ex-presidente Bill Clinton r Hillary Clinton, adversária de Trump nas eleições de 2016, e o escritório do ex-presidente Barack Obama. “Violência política não têm lugar nos EUA”, diz agora Trump, porteira arrombada. Alguém aqui se lembra como Bolsonaro começou a aparecer na mídia?