Haddad não é Aécio, nem Bolsonaro. Derrotado, porta-se como um democrata

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O democrata Fernando Haddad e sua companheira de chapa Manuela d’Ávila: o primeiro exemplo de que somos diferentes dos fascistas está em reconhecer a derrota, virar a página , seguir em frente e lutar no voto para retomar os rumos do país à paz social. Enquanto Haddad voltou a dar aulas, o Posto Ipiranga de Bolsonaro, Paulo Guedes, deu seu primeiro piti só porque foi perguntado por uma jornalista argentina sobre Mercosul, que para ele deve ser um palavrão

Jair Bolsonaro retribuiu com ironia aos cumprimentos que o candidato derrotado do PT a presidente, Fernando Haddad, lhe enviou nesta segunda-feria, 29. Pelo Twitter, Bolsonaro respondeu: “Senhor Fernando Haddad, obrigado pelas palavras! Realmente o Brasil merece o melhor”. Mais cedo, Haddad havia escrito: “Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”, disse Haddad, que recusou-se a repetir o tucano golpista Aécio Neves que, desde a eleição de Dilma Rousseff, nas últimas eleições presidenciais, prometeu lutar para derruba-la- e foi o que fez com o apoio da cúpula do PSDB e do PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha.

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Conto de Aia a la Bolsonaro. A cena patética do primeiro pronunciamento do ex-capitão e fascista de plantão eleito, entre o cantor gospel e tarado fundamentalista Magno Malta, com a camisa da seleção, e o ator pornô Alexandre Frota, procurando novas “Brasileirinhas”. Como escreveu Milton Hatoum: “Pareciam membros de uma seita religiosa fundamentalista e não dirigentes de um Estado laico”. Brasil no fundo do poço.

Como agradar a todos é impossível, lideranças petistas, como Valter Pomar, criticaram o candidato do PT, acreditando que não deveria ter cumprimentado o candidato eleito do PSL. Haddad também foi criticado por eleitores dos dois lados da esfera política. Mas também foi muito elogiado pelo gesto digno. Até onde me lembro, isso o que Haddad fez se chama respeito à democracia. O mal está instalado, mas não adianta dar uma de avestruz. A resposta agora é na oposição, na vigilância democrática e no voto.

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Haddad, que não é o golpista Aécio Neves, nem o fascista Bolsonaro, cumprimenta, democraticamente, Bolsonaro pela vitória, chamando-o de “presidente”, e recebe uma resposta escrota do ditador eleito. Foi criticado até por petistas, que preferem dar uma de avestruz e fingir que o mal já não está está instalado, mas foi eleito e precisa ser derrotado no voto

Recordar é viver. Após o pleito de 2014 – quando Dilma venceu Aécio por 54 milhões de votos contra 51 milhões de votos dados ao helicopter junkie -, o PSDB entrou com um bizarro pedido de auditoria nas urnas eletrônicas – lembra alguém que andou duvidando das urnas até recentemente?. A partir do início de 2015, ao ser reeleito presidente do PSDB, o então senador e hoje deputado pé-de-chinelo afirmou, em convenção do partido, que Dilma Rousseff não concluiria seu mandato. E repetiu a ladainha de que perdeu as eleições presidenciais para “uma organização criminosa”, e não para um partido político, o que logo seria substituída pela farsa das pedaladas fiscais, com Eduardo Cunha, com TCU, com STJ, com Supremo, com tudo. Em entrevista publicada ao Estado de S.Paulo em setembro passado, Tasso Jereissati, ex-presidente nacional do PSDB, admitiu que o partido cometeu “um conjunto de erros memoráveis” em sua trajetória recente, o que inclui a contestação ao resultado da eleição presidencial de 2014. Tasso afirmou que o PSDB foi “engolido pela tentação do poder” ao se aliar a Michel Temer (MDB) após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e também reconheceu que os tucanos abandonaram “princípios básicos” do partido só para fazer oposição ao PT. Será que alguém acha que Haddad e o PT deveriam agora se unir a Ciro ou a Alckmin para contestar o resultado das urnas? Particularmente, não acho que o governo Bolsonaro dure muito e que vai ser escorraçado pelas ruas e pelo Congresso em um processo de impeachment. Fora isso, é urna, é voto.

FHC e sua carta com tinta invisível

Imagine uma briga de rua, onde dedo no olho e joelhada nos, digamos, bagos, são os golpes mais leais. Após algum tempo, só três valentões continuam de pé, dois em melhor estado, todos exaustos. De repente, um conhecido passa e, mantendo uma distância segura, começa uma pregação por paz e união, dirigida a quem jazia no chão. O bom samaritano já observava a cena desde o início, mas achou melhor só se aproximar quando estivessem todos muito cansados para correr atrás dele. Guardadas as diferenças entre a porrada a céu aberto e as eleições presidenciais em curso – desculpem, não resisti à comparação -, o generoso senhor é o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso que, como por encanto, reapareceu em cena – na forma de uma carta – para pedir a união do centro político – aqueles que “não se aliam a visões radicais” – no pleito mais surreal das últimas décadas. Divulgar uma carta dessas quando facada, porrada e bomba já comem soltas, e faltando 17 dias para brasileiras e brasileiros irem às urnas, equivale a escrever o melhor poema da história numa ilha deserta, jogar no mar e ver que, em segundos, a garrafa fora engolida por uma baleia.

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FHC e sua carta para boi dormir. Nem Alckmin levou a sério. (Twitter/Reprodução)

Confesso que cheguei a pensar que se tratava de uma fake news, mas, se for, todos embarcamos nela, o que, na prática, torna a notícia real. Sem citar nomes – para que, né -, FHC pediu um acordo de apoio a quem “melhores condições de êxito eleitoral tiver” — caso contrário a “crise tenderá certamente a se agravar”. O ex-presidente não especifica quem seriam os candidatos moderados, mas não é preciso ser genial para eliminar Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) – os “tais radicais”. Ou como, curiosamente, escreveram Época e IstoÉ em suas matérias de capa, a “polarização” entre o antipetismo e o antibolsonarismo. Deduz-se que a conciliação segundo FHC esteja em Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Henrique Meirelles (MDB) e Alvaro Dias (Podemos). Ciro Gomes (PDT)?. Ele não veste a carapuça. “É muito mais fácil um boi voar de costas. O FHC não percebe que ele já passou. A minha sugestão para ele, que ele merece, é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”, debochou Ciro Gomes, em campanha no DF.

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No dia seguinte ao debate promovido pela CNBB, em Aparecida, Ciro Gomes fez uma visita à Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida. “A minha sugestão para ele (FHC), é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”. (Foto: Reprodução/Twitter)

Mais sutil, Marina Silva disse que “fazer um discurso para que haja uma união e dizer que o figurino cabe no candidato do seu partido talvez não seja a melhor forma de falar em nome do Brasil”. O ex-tucano Alvaro Dias sugeriu, em tom irônico, que o primeiro passo rumo à unificação das forças de centro deveria ser a renúncia à candidatura de Alckmin. Ah, Alckmin elogiou a carta publicada por Fernando Henrique, mas disse que não vai seguir a sugestão do ex-presidente. “Não vou procurar candidatos. A ideia é uma reflexão junto ao eleitorado”, desdenhou o tucano, em campanha em Recife. “A carta de FHC chegou tarde. Ao lado do túmulo da candidatura de Alckmin, enterraram-se as esperanças do ex-eleitorado tucano. No epitáfio, lê-se o seguinte: “Não contem mais comigo”, interpretou o analista Josias de Souza (Leia aqui).

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FHC, no Twitter, depois de divulgar carta no Facebook: tentando explicar o que não deveria exigir explicação

Pouco depois de divulgar o texto no Facebook (Leia aqui), FHC reafirmou no Twitter o apoio a Alckmin. “Enviei carta aos eleitores (oi?) pedindo sensatez e aliança dos candidatos não radicais. Quem veste o figurino é o Alckmin, só que não se convida para um encontro dizendo ‘só com este eu falo'”, tuitou FHC. O candidato do PSDB – embora tenha quase metade do tempo de propaganda eleitoral na TV -, está estagnado nas pesquisas de intenção de voto e não tem conseguido deslanchar para poder brigar por um lugar no segundo turno. Em entrevista na Folha de S.Paulo no dia 02/09, o ex-presidente tucano afirmou que Bolsonaro antecipou a tradicional disputa entre PT e PSDB para o primeiro turno. Alguém mais viu isso?

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Avanço impressionante: Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360  já mostra Haddad tecnicamente empatado com Bolsonaro no primeiro turno. (Foto: Ricardo Stuckert/PT)

Voltando à briga de rua, talvez FHC não estivesse se dirigindo aos moribundos candidatos de centro – mas aos que seguem de pé. Quer dizer, menos Bolsonaro. No mundo real, depois de Ibope e Datafolha, Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360 (Leia aqui), realizada nos dias 19 e 20/09, divulgada na noite desta sexta, 21, indica que Jair Bolsonaro tem 26% das intenções de voto para presidente e permanece na liderança da corrida ao Palácio do Planalto. A novidade é que agora Fernando Haddad registra 22% e já aparece em empate técnico com o capitão. Ciro tem 14%. Os “centristas” de FHC – Alckmin, Marina, Meirelles, Amoêdo e Álvaro Dias somam, juntos, 17%. Votos brancos, nulos e indecisos estão em queda.

Rei morto, rei posto. Depois de Alckmin, Temer reclama do abandono de outro tucano ex-aliado, João Doria

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Temer foi ao Twitter gravar um vídeo e, entre caras e bocas, reclamar do candidato João Doria, que o elogiava e agora, nas eleições, o critica. “Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade”, pediu. Rei morto, rei posto.

Michel Temer perdeu completamente o senso de ridículo, mas vem cometendo um sincericídio que acaba sendo, involuntariamente, engraçado. Não se sabe se o que o move a essa altura, a poucos meses de deixar o governo, ficar sem mandato e sem foro privilegiado, é um senso incompreensível de defesa de um legado que não existe – existe sim um enorme passivo social e político- ou se está seguindo a sugestão de algum marqueteiro em fim de contrato. O fato é que depois de dar uma bronca no candidato tucano Geraldo Alckmin por estar criticando o seu governo, após ter participado e usufruído dele, Temer agora decidiu fazer beicinho para outro tucano de plumagem mais curta, o candidato ao governo do estado de São Paulo do PSDB, João Doria. Assim como fez com Alckmin, Temer reclama de Doria por ter virado saco de pancada de quem, até há pouco, era um aliado amestrado.

No vídeo postado no Twitter (Assista aqui), intitulado “Desacelera @jdoriajr” – um trocadilho com o slogan de Doria, “Acelera SP” – com a expressividade de quem abusou do botox e trazendo na voz a indignação de um mímico -, Temer jogou na cara de Doria que, quando prefeito de São Paulo, “por brevíssimo tempo”, pediu muito auxílio ao governo federal, e foi prontamente atendido. E que, agora nas eleições, decidiu cuspir no prato que comeu. “Você tem usado a propaganda eleitoral para fazer críticas diretas e indiretas – ou seja, você está se desmentindo, porque ao longo do tempo você inúmeras vezes elogiou o meu governo. (…) Você que tanto me elogiou, que tantas vezes enalteceu o meu governo, não é por causa das eleições que você vai mudar suas características. Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade. Desacelera”, encerrou Temer.

Até o momento em que este artigo foi escrito havia 133 mil visualizações – o que mostra que para um presidente com rejeição de quase 100% e agenda parecida com a de funcionário às véspera das férias -, basta usar o humor, ainda que involuntário, para voltar a ser lembrado. Os comentários ao vídeo são uma piada à parte. “O cara inventou o Marketing de DR”, ironizou um internauta. “HAHAHAHAHAHAHA Presidente esse é o seu maior legado de governo, por favor continue!”, postou outro.

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Em outro vídeo (Assista aqui) , de 05/09, Temer reclamou de Alckmin em tom bem mais duro. No pronunciamento, Temer disse para Alckmin “falar a verdade” e criticou suas “falsidades”, uma vez que as críticas ao governo do MDB são relativas a pastas lideradas por partidos que fazem parte da base de apoio do tucano. “Se você vier a ganhar a eleição, essa base (do meu governo) será a sua base governamental. Eu lembro, Geraldo Alckmin, quando você, candidato a governador, candidato a presidente, nas vezes em que eu te apoiei, precisamente para esses cargos, eu acho que você era diferente. Não atenda ao que dizem seus marqueteiros, atenda a verdade. E a verdade é que nós fizemos muito por essas áreas, conduzidas por aqueles que apoiam a sua candidatura”, disse Temer.

É, Temer, até o fim da eleição você ainda vai ter que pedir a retratação de muitos ex-aliados. Rei morto – ou quase morto -, rei posto.