Semanais já tratam Bolsonaro como eleito

Época psicanalisa Bolsonaro, numa capa pra lá de pretensiosa. Carta Capital tenta desconstruir o “mito”. IstoÉ, com uma das capas mais idiotas da história, segue mais preocupada em aprofundar o antipetismo e a divisão da sociedade inventando lendas sobre o a essa altura improvável Governo Haddad. E Veja, numa capa graficamente muito bonita, fala dos “Generais de Bolsonaro”, tratando do que até os coturnos do Mourão já sabem: se eleito, o Coiso vai implantar uma ditadura disfarçada, ainda que legitimada pelo voto.

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Veja repete estratégia suja e faz propaganda de Bolsonaro, colocando-o com a faixa presidencial em sua capa

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O jornalismo “isentão” de Veja

Não há muito o que comentar sobre a capa de Veja, colocando a faixa presidencial em Jair Bolsonaro, além de uma boina militar, antes que o eleitor possa voltar às urnas no segundo turno. Como sabemos que a revista, uma das últimas que resta à quebrada Editora Abril, não tem o dom da premonição, deveria torcer com mais discrição. Mas equilíbrio e isenção não frequentam essa redação há muitos anos. Veja tem uma das coleções de capas mais asquerosa do jornalismo brasileiro.  O que Veja faz é propaganda – e não duvide se repetir a estratégia de 2006 quando espalhou outdoors pelo país com sua capa com o então candidato Geraldo Alckmin. Na época, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou tirar as “peças de campanha” camuflada de Veja.

Mas hoje nem é preciso outdoor, basta que a capa viralize nas redes sociais e nos grupos de whatsapp e Veja terá cumprido seu papel sujo.  Faltam 16 dias para o segundo turno, uma virada de Fernando Haddad é difícil, mas não é impossível. Nesta sexta, 12, recomeçam os programas eleitorais, que vão até o dia 26 de outubro, antevéspera da votação. Bolsonaro já deu sinais de que vai fugir dos debates. Só o peru morre na véspera. Criar um fato consumado e a ideia de uma derrota certa é mais uma estratégia golpista. Não desista.

As últimas revistas semanais do resto de nossas vidas – como elas são hoje

Veja sobe no muro, como os tucanos que idolatra, e diz que o melhor é nem Haddad, nem Bolsonaro – que é, verdade seja dito, a posição de muitos eleitores brasileiros, que compraram a ideia de que a volta do PT ao poder equivaleria a uma aventura com o Capitão Caverna. Carta Capital coloca os dois gladiadores na capa, mas não se furta a mostrar seu lado. IstoÉ, da mesma forma, confirma seu lado, mas, como tem sido há algum tempo, de forma tosca e caluniosa. Época, o encarte do Globo de sexta, segue tentando sobreviver buscando “aquele ângulo que ninguém mais viu”, mas a neutralidade é só fachada.

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A denúncia que veio do frio e o iceberg que pode afundar Bolsonaro

Das profundezas do mar gelado das denúncias, um iceberg gigante foi despontando na reta final da campanha e congelou a chapa pura-farda: uma denúncia grave envolvendo o capitão-maridão Jair Bolsonaro desnudou sua vida pessoal – numa insuspeita associação Folha e Veja – para mostrar que o homem que odiava gays e minorias também tinha no armário o esqueleto de uma separação pra lá de litigiosa. Revelada, com requintes de crueldade, pela mídia que, embora não tenha nada de petista, beneficia o único candidato que nesse momento rivaliza com o Unabomber da caserna, Fernando Haddad. Claro que, se deixarmos o pensamento nos levar, podemos pensar também que a destruição de Bolsonaro – se ela ocorrer, o que parece improvável nesse momento -, beneficiaria a defunta terceira via – Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes, para citar os menos distantes no páreo. O nome do iceberg onde colidiu o barco bolsonarista é Ana Cristina Valle.

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Bolsonaro fazendo a barba na suíte do Albert Einstein, sem camisa, deixando aparecer a cicatriz e, com a ajuda da lâmina de barbear, ressaltando a semelhança com uma nefasta figura histórica (não é montagem). Pouco depois, teria a notícia de que sua alta teria que esperar um pouco mais. Seus problemas seguem com a revelação de detalhes de sua separação e novas falas desastrosas do vice Mourão. Reprodução/Twitter.

O primeiro impacto veio com a denúncia, publicada no dia 25 pela Folha de S.Paulo, revelando o conteúdo de um telegrama (Veja Twitter do repórter Rubens Valente)em que Ana Cristina, ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, diz ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por Bolsonaro — à época, eles disputavam a guarda do filho Renan. Hoje apoiadora da campanha do ex-marido, Ana Cristina atribuía sua saída do Brasil com o filho a essa ameaça, segundo o telegrama. Em um dos trechos do telegrama, o embaixador Carlos Henrique Cardim diz que “a senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos (em 2009) ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor (Bolsonaro). Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”. Quem ouviu a denúncia de Ana Cristina foi o vice-cônsul na embaixada brasileira em Oslo, segundo o embaixador. Em entrevista ao Correio Braziliense, Ana Cristina negou ter sido ameaçada. Gravou um vídeo, logo viralizado nas redes do ex-marido (Assista aqui), negando tudo, como se não passasse de uma fantasia, apesar dos documentos. O Itamaraty se negou a comentar. Tudo resolvido? Aí veio a capa de Veja, já nas bancas (Para assinantes).

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As revistas semanais, as penúltimas antes do pleito: Veja ferra Bolsonaro, Carta Capital destaca a hashtah #Elenão, Época faz jornalismo light – mas destaca produtora-fantasma de Bolsonaro – e IstoÉ, engajada, diz que “Lula montou um QG de campanha”, o que chama de “Projeto Haddad”

Veja mergulha no divórcio dos dois, com fartura de documentos. Tendo tido acesso ao processo, os repórteres descobriram que ela acusou o ex-marido de ocultar o patrimônio pessoal na divisão de bens. De acordo com os documentos que apresentou, ele também ocultou muito do que tinha da Justiça Eleitoral, em 2006. Para as eleições, o deputado afirmou que tinha um terreno, uma sala comercial, três carros e duas aplicações que somavam R$ 434 mil. Ele não revelou que possuía, ainda, mais três casas, um apartamento, outra sala comercial e cinco lotes. Tudo somado dava R$ 7,8 milhões, incompatíveis com sua renda de parlamentar.

Ana Cristina não ficou nisso. Afirmou que Bolsonaro tinha uma renda mensal de R$ 100 mil à época, R$ 183 mil em valores atualizados. E que roubara o conteúdo de um cofre pertencente ao casal com jóias, dólares e reais que somavam R$ 1,6 milhão. Veja entrou em contato com ela. “Quando você está magoado, fala coisas que não deveria”, ela disse. “Bolsonaro é digno, carinhoso, honesto e provedor.” Ana concorre a uma vaga de deputada federal com o nome Cristina Bolsonaro.

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Ana Cristina Valle, hoje em campanha com sobrenome Bolsonaro, tenta convencer a todos de que apenas “falou demais” e que o capitão foi um ex-maridão exemplar. A leitura da Folha e de Veja desmoraliza essa conversinha.

Após acusações de ex de Bolsonaro, vices mulheres reforçaram a campanha #Elenão. Candidatas do PCdoB, PDT e PSOL participarão de atos neste sábado. anuela d’Ávila (PCdoB), vice de Fernando Haddad (PT), e Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL), irão à manifestação em São Paulo, enquanto Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT), estará em ato em Goiânia (GO). Ana Amélia, do PP, claro, não aderiu. Questionada sobre como se posicionaria em um eventual segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, os mais bem colocados nas pesquisas mais recentes de intenção de voto, a gaúcha foi taxativa: “No PT, não há chances”.

“Os direitos não são dados, mas conquistados”.
Norberto Bobbio, filósofo italiano

Como se Bolsonaro não precisasse de mais problemas, seu vice, o companheiro de chapa e farda general Hamilton Mourão – o que já falou demais ao se referir a índios, negros e mulheres descasadas – continua brincando de falar do que não entende. Falando à Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana, Mourão, que sabe tanto de economia quanto Bolsonaro – ou seja, rigorosamente nada -, deflagrou nova crise na chapa ao atacar publicamente o décimo-terceiro salário e abono de férias, qualificando os benefícios – marcos no direito trabalhista do Brasil, que têm quase 60 anos -como “jabuticabas brasileiras”. Os candidatos rivais, claro, fizeram a festa, e Bolsonaro, mais uma vez, fingiu que desautorizou o vice, como se seu guru da economia não chamasse Paulo “Vale tudo” Guedes. “O 13° salário do trabalhador está previsto no art. 7° da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas. Criticá-lo, além de uma ofensa à quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição”, tuitou Bolsonaro, e retuitou Mourão.

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Com um chicote na mão – versão Ana Amélia da caserna -, que ganhou de presente de ruralistas, que usaram o objeto para machucar petistas durante a passagem da Caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul. Além de condenar direitos trabalhistas, como o décimo-terceiro salário e abono de férias, o General Mourão disse que o Brasil é um “cavalo maravilhoso que precisa ser montado por um ginete com mãos de seda e pés de aço”. Sem comentários. Reprodução.

O chamado “núcleo duro” da campanha de Jair Bolsonaro – difícil imaginar um núcleo mais duro que Bolsonaro ou Mourão – já fizeram reunião para tentar unificar e tutelar o polêmico vice. Não se tem notícia que alguém tenha conseguido enquadrar o general. Para piorar, Gustavo Bebianno, o centralizador presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, tem se estranhado com Eduardo, deputado filho do presidenciável, que é o mais atuante na campanha. Aguarda-se, na ordem, a próxima pesquisa eleitoral e a próxima crise interna na chapa pura-farda.

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A estranha foto retuitada pelo general Mourão em seu twitter, em 27 de setembro, de sua galeria de asneiras. Um armário cheio de armas e a frase “Reformando”. O militar reproduziu postagem do direitista Guilherme Fiúza: “7 de outubro, Dia Mundial Sem PT”. Defina “Sem PT”, Fiúza. Reprodução/Twitter.

Ah, a alta hospitalar de Bolsonaro foi adiada por causa de uma crise bacteriana. O que não impediu o candidato de postar uma curiosa foto no Instagram, no banheiro de seu quarto no Albert Einstein, sem camisa – para o corte no abdômen ficar visível – e fazendo a barba. “Me preparando para voltar à ativa!”, escreveu o capitão. O que tem isso de curioso? Na foto, Bolsonaro, com sua franja característica, é flagrado no momento em que o aparelho de barbear deslizava em cima de sua boca. Se você adivinhar com quem ele ficou parecido na cena ganha uma viagem com tudo pago para Braunau am Inn.

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Fernando Haddad segue forte na campanha, com um pé no segundo turno e chance de vira, vira! ainda antes de 7 de outubro. Na foto, em grande comício em Florianópolis. Na reta final, todo cuidado é pouco que os fabricantes de fake news, como a atriz coxinha Luana Piovani. Ricardo Stuckert / Divulgação

Em tempo – O ministro Ricardo Lewandowski, do STF, autorizou a colunista Mônica Bergamo, da Folha, a entrevistar o ex-presidente Lula. O ex-presidente está preso em Curitiba desde 7 de abril. Nenhuma entrevista foi autorizada até hoje. O jornal argumentou ao STF que uma decisão da 12ª Vara Federal em Curitiba que negou a permissão para a entrevista impôs censura à atividade jornalística e mitigou a liberdade de expressão, em afronta a decisão anterior do Supremo. Lewandowski concordou que era censura mesmo.

 

Capas das semanais varia entre ameaça de golpe e o extremismo da campanha

As principais revistas semanais brasileiras caminham, acreditam muitos analistas, para o cadafalso. Perderam não apenas tiragem e leitores, mas relevância, importância, consistência, sobriedade e, em alguns casos, compostura. Não souberam se reinventar. Tornaram-se, você sabe quais, apenas linha de transmissão de grupos empresariais e/ou políticos. Mas sou de uma geração que inevitavelmente chega no final de semana curioso – no caso, na sexta, já que todas passaram a rodar mais cedo por economia: qual vai ser a capa de Veja, IstoÉ, Carta Capital e Época, para citar as referências mais óbvias. CrusoÉ, do mesmo grupo do Antagonista, tem surpreendido, mas confesso que ainda tento controlar a minha resistência. Época virou uma espécie de suplemento do Globo. Veja foi uma das poucas sobras da derrocada da Abril.

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Esta semana, a capa mais non sense fica com Veja, que resolve fazer um especial de 50 anos – 1968-2018 -lembrando que “Veja nasceu da ditadura, floresceu na democracia – e chega a cinco décadas de vida pronta para continuar a zelar pelo regime das liberdades”. Imaginar Veja como zeladora não deixa de ser uma imagem interessante. Uma coisa meio bedel da esquerda. A edição, como não podia deixar de ser, é constrangedora – para Veja. Ao garimpar sua história – entre fotos e reportagens – mostra o que a revista já foi e o que virou.

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IstoÉ faz a capa mau humor da semana. Divide sua capa entre metade da cara de Lula (representando o PT, pois imagina-se que a revista saiba que o candidato é Fernando Haddad) e metade da cara de Bolsonaro e pergunta: “Quem é o mais odiado?”. E completa, com seus tradicionais subtítulos palavrosos (tome fôlego): “A polarização entre o antilulopetismo e o antibolsonarismo dá o tom da eleição dos extremos e da irracionalidade. No fim, deve ganhar o menos rejeitado”. Com um lustre de imparcialidade, o que a revista faz é ignorar Haddad, tirando-o da capa, e, subliminarmente, sugerir uma terceira via. Só faltou escrever o nome, que sabemos qual é.

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Época segue em sua sequência de capas com os presidenciáveis, sempre com fotos em close e títulos engraçadinhos. “O Regra-Três – Ciro Gomes entre o antipetismo e o antibolsonarismo”, diz a capa da revista de sexta do jornal O Globo. Haddad era “O candidato obediente – A campanha de Haddad no coração do lulismo”, com uma foto do petista com um chapéu de Lampião. Numa das capas mais bizarras, Marina foi descrita como “A candidata do silêncio – A estratégia de Marina Silva para chegar à Presidência”. A foto mostra Marina de costas.

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Finalmente, Carta Capital flerta com o humor ao colocar um fantasminha de filme B (uma toalha com buracos nos olhos e boca) com um quepe militar (minha ignorância não me permitiu identificar a origem do quepe, mas não me pareceu do Exército brasileiro – peço ajuda aos internautas) com o título “O despertar do velho fantasma – A maioria do Exército abraça Bolsonaro. Ameaças fardadas à democracia pairam no ar”.