Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio

“Agora acordei para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando exterminaram o Congresso. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. (… )”.
Trecho de fala da atriz Elizabeth Moss, protagonista e co-produtora da série ‘O Conto da Aia’, série distópica baseada em livro homônimo de Margareth Atwood. Temporada 1.

A redação do Enem 2018 – o Exame Nacional do Ensino Médio, o maior vestibular do Brasil, utilizado para avaliar a qualidade do ensino médio no país e porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras – teve como tema a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema não surpreendeu professores, que apostavam em uma redação girando em torno de fake news, um dos temas mais polêmicos da campanha. Acabou sendo ainda mais amplo. O Enem deu a estudantes – muitos certamente eleitores de Jair Bolsonaro – a chance de discorrer sobre algoritmos, mídias sociais, manipulação, catarse cibernética. Nada mais apropriado. O ditador eleito montou uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News‘, denunciada pela Folha de S.Paulo, nas mídias sociais e especialmente no Whatsapp, uma rede que gera muita confiança porque são pessoas próximas a elas que mandam as notícias. O objetivo de Bolsonaro foi alcançado: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT nas últimas semanas da campanha e financiadas por empresários amigos do “mito”. O TSE ficou petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Quanto ao Enem, às vésperas de um governo de ultradireita, que defende a “escola sem partido” e estimula o macarthismo por alunos, denunciando professores “comunistas”, não se surpreenda se acabar ou abolir a Redação das provas obrigatórias.

empresários-afirmam-gastar-dinheiro-na-campanha-de-Bolsonaro
Empreendedores ricos, Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos ricaços sovinas, gravaram vídeo de apoio a Bolsonaro, em que Gazin admitiu Caixa 2 e disse que não aguentava mais gastar na campanha de Bolsonaro. Deve ter valido a pena.

No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhotes do Coiso, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”.

Captura de tela inteira 05112018 131831.bmp
No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhotes do ditador eleito, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”. Bom, o tema acabou sendo “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Tomou, Papudo!

Se, redigindo, Bolsonaro já teria dificuldade de explicar, em palavras, o serviço sujo que delegou, por caixa 2, a empresas, responsáveis por fabricar e impulsionar fake news – vamos combinar que o forte do ex-capitão não são as palavras -, certamente o ultradireitista tiraria zero na prova de Redação, já que quem escreve textos que firam os direitos humanos pode perder até 200 dos 1 mil pontos possíveis. Imagine Bolsonaro, um homofóbico, misógino, preconceituoso, anti-direitos sociais e trabalhistas, defensor da ditadura de 64, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra, escrevendo sem ferir a gramática, nem os direitos humanos. Não passaria do primeiro parágrafo.

Encagaçado, o ministro da Educação de Temer (quem?), um certo Rossieli Soares (quem??) teve, imagine só, que vir a público para dizer que o tema da edição de 2018 foi escolhido há quatro meses pelos técnicos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A campanha eleitoral teve início em 16 de agosto. No primeiro dia do Enem, os candidatos fizeram também provas de Ciências Humanas e Linguagens, onde apareceram tópicos como feminismo, nazismo, escravidão, regime militar, crise de refugiados, entre outros. Na prova de Linguagens, uma pergunta abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis — a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito. Bolsonaro, não pense que estou brincando, pode acabar querendo impugnar o Enem por ser parte do inventado kit gay uma de suas fake news da campanha.

bohemian.jpg
Cenas gays do filme “Bohemian Rhapsody”, que conta a história do mito Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, estão sendo vaiadas (!) nos cinemas brasileiras. O descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie?

E para não dizer que não falei de ódio, depois das vaias à lenda do rock Roger Waters, o ex-Pink Floyd, que exibiu em sua turnê no Brasil o #Elenão e o #Resist em um protesto contra a inescapável eleição de Bolsonaro, dessa vez quem teve a memória desrespeitada foi o cantor Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, que morreu de Aids em 1991, aos 45 anos de idade. Um dos filmes mais aguardados do ano, ‘Bohemian Rhapsody‘ chegou aos cinemas brasileiros na última semana, contando sua biografia. Se por um lado os fãs do grupo saíram extasiados da sala, outra parte dos espectadores brasileiros vaiaram (!) cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie? É de dar muita vergonha – e medo. Eu vejo “O Conto da Aia” e cada vez mais enxergo o Brasil.

Ditador Bolsonaro quer fim do MEC e reitores biônicos nas universidades federais. Militar psicopata xinga e ameaça presidente do TSE. Doria cai na Pegadinha do Malandro

Está enterrado há oito anos em um cemitério de Brasília, com uma lápide queimando com fogo fátuo, o Capitão de mar e guerra José Carlos de Almeida Azevedo, último reitor biônico da Universidade de Brasília, indicado pela ditadura. Meu primeiro ano como estudante de Jornalismo na UnB teve esse verme como reitor. Felizmente, meu diploma não foi assinado por ele. Preposto do regime entre 1976 e 1985, com a universidade em ebulição democrática, Azevedo permitiu, por exemplo, que a Polícia Militar invadisse o campus da UnB para inibir uma greve estudantil. Reitores biônicos eram um dos símbolos da ditadura e do enterro da educação. Nos subterrâneos de um hotel em Brasília, a equipe que prepara o plano de governo do Coiso tem em mãos o calendário de escolhas dos reitores das universidades federais e um estudo sobre quem é quem nas instituições de ensino superior para servir de análise. A ideia: acabar com a escolha dos reitores pelas comunidades acadêmicas e retomar os reitores biônicos. Bolsonaro quer ir mais longe. Acabar com o Ministério da Educação. Se a reação for grande, vai colocar ali um militar na linha do general quatro neurônios Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para a educação em um eventual – vade retro – governo Bolsonaro. Entre outras boçalidades, ele defende queimar livros, recontar a história da ditadura de 64 e ensinar criacionismo nas escolas públicas.

bolsonaro-1
Equipe do ultradireitista Bolsonaro planeja acabar com o Ministério da Educação e escolher reitores das universidades federais. Auxiliares do candidato, que trabalham nos subterrâneos de um hotel em Brasília, propuseram ao Coiso que, uma vez eleito, não escolha o primeiro da lista e encontre um biônico, de preferência fardado

“Optam por manifestar ódio visceral e demonstrar intolerância com aqueles que consideram inimigo. Tem incapacidade de conviver com harmonia no seio de sociedade fundada em bases democráticas. Todo esse quadro imundo que resulta no vídeo, longe de traduzir liberdade de palavras, constitui corpo de delito com ofensas”.
Ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal

As cadelas fascistas de Bolsonaro, Mourão e demais tarados por torturadores seguem em seu cio antidemocrático há poucos dias do pleito. Nas redes sociais e grupos de whatsapp dissemina-se o ódio e prega-se a violência. Uma dessas bestas feras, um homem identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves não se deu ao trabalho de esconder o rosto e limpar a baba ao gravar e postar um vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber – numa clara tentativa de intimidação. Coisa que, por sinal, Bolsonaro e família têm feito diretamente. No vídeo, Alves chama Rosa Weber de “vagabunda” e afirma que, se o TSE aceitar ação contra seu candidato de extrema de direita irá sofrer as consequências. “Se aceitarem essa denúncia ridícula e derrubarem Bolsonaro por crime eleitoral, nós vamos aí derrubar vocês aí, sim”, diz o vídeo.

rosa-weber-coletiva.jpg
O STF vai fazer o mínimo: investigar as agressões de um militar boçal que gravou um vídeo babando ódio e ameaçando e xingando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, tentando intimida-la caso barre a candidatura do ogro Bolsonaro

Dessa vez, nossas Cortes, omissas até a medula desde o início do processo eleitoral, ajudando a criminalizar Lula e o PT, única alternativa democrática à onda fascista, não ficaram só no declaratório – ainda que se destaque a fortíssima frase do decano Celso de Mello, sempre contido, atacando o que sempre esteve visível: o “ódio visceral” e a “intolerância (dos bolsominions) com aqueles que consideram inimigo”. A Segunda Turma do Supremo aprovou, por 5 votos a zero, requerimento para que a Procuradoria Geral da República investigue o vídeo do coronel Alves, parasita da democracia, que esquece quem paga seus soldos, o povo.

Captura de tela inteira 23102018 171437.bmp.jpg
“A cadela do fascismo está sempre no cio”,  escreveu Bertolt Brecht. Uma dessas cadelas alimentadas pela onda Bolsonaro, identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves, grava e posta vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber. Besta sem culhões.

O PT havia pedido ao TSE para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos, sustentado pela descoberta pela Fantástica Fábrica de Fake News montada pela engenharia suja do capitão, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo. O jornal relata casos de empresas apoiadoras de Bolsonaro que compraram pacotes de disparo de mensagens contra o PT por meio do WhatsApp. Essa prática é ilegal por ser evidência clara de doação de campanha feita por empresas. Desde 2015, empresas estão proibidas de fazer doação eleitoral. Segundo o jornal, as empresas apoiadoras de Bolsonaro compram um serviço chamado “disparo em massa” usando a base de usuários do candidato do PSL ou bases vendidas por agências de estratégia digital.

Captura de tela inteira 23102018 180520.bmp
A piada do dia tem botox “Sex tapes” que colocam João Doria, absorto, numa suruba com algumas “modelos” contratadas – só assim -, fez o candidato ao governo de São Paulo gravar vídeo no Instagram. Não, ele não se retratou. Ao lado da mulher Bia, negou que seja o cidadão quase desfalecido na cama com as beldades remuneradas. Geração de emprego?

Sex Tapes e Doria – E o que qualquer assessoria recomendaria a um candidato envolvido num suposto escândalo de “sex tapes”, sem que ninguém tenha certeza se é ele mesmo que aparece no vídeo? Não fale do assunto se não for absolutamente essencial, senão promoverá a suposta infâmia (Doria nega que seja ele o personagem masculino deitado na cama, meio desanimado, em meio a uma suruba com “modelos”). Não, Doria, que idolatra os americanos, copia até o padrão (equivocado) dos gringos de lidar com crises como essas. Ao lado da mulher, calada, semblante fechado, nega veementemente que seja o homem no vídeo que viralizou. E, claro, culpou o PT. “Essa baixaria é obra daquele que vai à missa sendo ateu, joga fora a Bíblia que recebeu de presente de um desavisado e que recebe ordens de um corrupto, ladrão e presidiário! FORA PT”, escreveu. Virou fenômeno de compartilhamentos e menções nas redes sociais. “Doria” e “João Doria” foram parar no trending topic do Twitter mundial. Bom ou ruim para o candidato? Nesse país, difícil dizer. Pode ganhar pontos pela exuberância das divas, mas perder pela flacidez de seu comportamento. Por razões sentimentais não postaremos os vídeos – você vai achar ou já recebeu pelo whatsapp. Fique com o “pronunciamento” consternado de Doria, fritando de ódio a ponto de derreter o botox.

No bueiro da família Bolsonaro, fechar o Supremo é só uma das opções. Se não querem “eleger” uma ditadura, eleitores ainda têm alguns dias para pensar

A família Bolsonaro é tudo, menos imprevisível. É como um subterrâneo fétido onde basta levantar qualquer tampa de bueiro, em qualquer ponto, e sabemos que virá um mau cheiro insuportável. Jair Bolsonaro – e sua família -, como descreveu até o The New York Times em editorial “é um brasileiro de direita com opiniões repulsivas. Ele disse que preferiria um filho morto a um homossexual; que uma colega no Congresso era feia demais para ser estuprada; que os afro-brasileiros são preguiçosos e gordos; que aquecimento global é apenas uma ‘fábula’. Ele é nostálgico dos generais e torturadores que governaram o Brasil por 20 anos. No próximo domingo, no segundo turno da eleição, o Sr. Bolsonaro provavelmente será eleito presidente do Brasil”. Bom, esperemos que o NYT esteja errado pelo menos na última frase. O NYT esqueceu de listar a defesa de Bolsonaro da isenção de julgamento de PMs que matam em serviço – o aval para a carnificina em áreas pobres. Ou alguém imagina que se esteja falando de ações em condomínios na Barra da Tijuca, Morumbi ou Lago Sul?

screencapture-nytimes-2018-10-21-opinion-brazil-election-jair-bolsonaro-html-2018-10-22-13_10_21.png
O editorial do NYT que chama Bolsonaro de homem de direita “com opiniões repulsivas”. “Ele disse que preferiria um filho morto a um homossexual; que uma colega no Congresso era feia demais para ser estuprada; que os afro-brasileiros são preguiçosos e gordos. (…) Ele é nostálgico dos generais e torturadores que governaram o Brasil por 20 anos.”

O último bueiro levantado do esgoto de ideias desses ogros que alternam farda e terninho é um vídeo capturado em 9 de julho. Quando respondia a perguntas de alunos de um curso preparatório para concurso da Polícia Federal, o deputado federal Eduardo Bolsonaro se manifestou sobre a possibilidade de o Supremo impugnar a candidatura de seu pai. “Eles vão ter que pagar para ver”, afirmou. “O pessoal até brinca: se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo. Não é querendo desmerecer o soldado e o cabo. O que é o STF, cara? Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua?” (Assista). No vídeo, ele também menciona o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a “moral” do juiz Sergio Moro. “É igual a soltar o Lula. O Moro peitou um desembargador que está acima dele, por quê? Porque o Moro está com moral pra cacete. Você vai ter que ter c. para conseguir reverter uma decisão dele. Ele só joga lá. Quero ver quem vai dar o contrário”, concluiu. Ministros do STF reagiram, como o decano do tribunal, Celso de Mello, que disse a Mônica Bergamo que a declaração era “inconsequente e golpista”. O vaga-lume político FHC piscou: as afirmações “cheiram a fascismo”. E ficamos por isso mesmo,  segue a campanha. Mais um dia, mais um passo para o cadafalso.

Captura de tela inteira 22102018 132018.bmp
O ogro Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado da história do País, com 1,8 milhão de votos, e a prosaica defesa do fechamento do STF: “Se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo”. Ensaio para uma inevitável ditadura, que ainda pode ser detida pelo voto.

Papai Bolsonaro, candidato da KKK, como já fez outras vezes com os filhos e com Mourão, o general em quem pensa mandar, tentou dar uma de Mandrake, hipnotizando a platéia. Primeiro questionou se não foi tirado do contexto. “Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra.” Até aí ia bem. E aí mudou o foco. “Está havendo hoje manifestação em todo o Brasil. É sinal de que a população está realmente preocupada com o futuro e quer alguém diferente do PT na presidência.” Oi? Eduardo recuou, sem convicção. Jogo de cena. Como os áudios vazados de William Waack ou de Boris Casoy, seguidos de sinceras desculpas. Em breve, se o exército de robôs seguir zumbindo fake news nos grupos de Whatsapp e nas redes sociais, com a complacência da Justiça Eleitoral, e os zumbis bolsominions continuarem seu caminho trôpego até as urnas, nem mais desculpas virão. Nós sabemos o que virá. Uma ditadura que não vai durar dois anos até ser engolida pelos próprios bueiros que abriu.

VAR pode VARrer Bolsonaro por infestar Whatsapp de Fake News; Empresários confessam dinheiro sujo na campanha

“Primeiro turno é Bolsonaro. Pra nós não ter que gastar (sic) mais dinheiro. Pra não ficar gastando no segundo turno. Quem tá indeciso é lá, é lá que tem que ser, porque ‘cabou, nós gasta (sic) menos dinheiro”.
Mário Gazin, na linguagem típica dos canalhas sovinas, fundador e presidente do conselho de administração do Grupo Gazin, ao lado de outro sangue-suga, Luciano Hang, dono da Havan, em twitter postado pelo próprio Bolsonaro.

O TSE, por enquanto, está petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Duas mulheres fortes no comando das duas casas – hora de dar umas marteladas para que Rosa Weber e Raquel Dodge não deem uma de Medusa. A Polícia Federal de Temer sabe-se lá o que faz, mas costuma ter bom senso de sobrevivência. Fato é que começam a transbordar pelo esgoto da campanha suja de Bolsonaro confissões de empresários, que, sem necessidade de acareação, confirmam as graves denúncias da Folha de S.Paulo de que foi montada pela campanha do PSL uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News’, sustentada com doações ilegais, o popular caixa 2, para produzir uma avalanche de disparos pelas redes sociais e WhatsApp para uma base de usuários. Objetivo: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT na última semana da campanha. Como se ainda fossem necessárias mais provas, como a declaração de Bolsonaro de que “não controla” seus apoiadores – Oi? -, bombou na rede um vídeo compartilhado orgulhosamente, no dia 28 de agosto – portanto, antes da votação do primeiro turno -, pelo candidato do PSL à Presidência, onde Luciano Hang, dono da Havan – o tarado da Estátua da Liberdade – pergunta para o empresário Mário Gazin, outro magnata endinheirado do varejo, em quem votar. No jogral patético, Gazin responde, candidamente, a la Tio Patinhas: “Bolsonaro, e no primeiro turno, para nós não ter (sic) que gastar mais dinheiro no segundo turno”. Opa!

empresários-afirmam-gastar-dinheiro-na-campanha-de-Bolsonaro
Empreendedores ricos, mas politicamente estúpidos: Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos canalhas sovinas, gravam vídeo de apoio de apoio a Bolsonaro, mas Gazin só sabe falar do dinheiro que não aguenta mais gastar na campanha. Batom na cueca do caixa 2.

Sócios e executivos do Grupo Gazin doaram, como pessoas físicas, R$ 300 mil para o Diretório Regional do Democratas em Mato Grosso como contribuição eleitoral no primeiro turno, mas naquela ocasião dentro do “caixa 1”, como pessoas físicas. Os doadores foram Jair José Gazin, Mario Valério Gazin, Rubens Gazini, Antônio Roberto Gazin e João José da Silva. No total, o partido recebeu R$ 1.536.000 em doações desses filantropos. O Grupo Gazin é uma das maiores redes varejistas e atacadistas do País, além de aturar em outras áreas como consórcio, serviços, indústria de colchões, estofados, espumas, molas, distribuição de combustíveis, financeira, viagens e comércio eletrônico. Não duvido que tenham erguido seus impérios com enorme esforço pessoal, mas suas posições políticas e métodos de cooptação no mínimo levantam suspeitas sobre a rapidez com que enriqueceram, para dizer o mínimo. Aliás, sintam o nível desse cidadão Hazan.

É a ponta do iceberg? É. Uma protuberante ponta. Um grupo de 30 juristas, entre eles um ex-ministro do Supremo e um ex-ministro da Justiça, entregou à presidente do TSE, Rosa Weber, documento cobrando o mínimo: providências sobre o esquema de disseminação de mensagens contra o PT pago por empresas por meio do WhatsApp. “Se existe a lei que exige ficha limpa, por qual razão pode-se admitir que as eleições sejam contaminadas por propaganda irregular-ilícita?”, questionam os juristas. Entre os 30 signatários estão Lênio Streck, Sepúlveda Pertence (ex-ministro do STF), Celso Antônio Bandeira de Mello, Antônio Carlos de Almeida Castro Kakay, José Eduardo Martins Cardozo (ex-ministro da Justiça) e Alberto Zacharias Toron. O documento anexa uma série de exemplos de fake news disseminadas ao longo da campanha contra o candidato do PT.

A campanha de Fernando Haddad virou suas baterias para o caso, como não poderia deixar de ser, descolou as marcas de palco e os programas pre-gravados de lado para centrar fogo no horário eleitoral gratuito na televisão no esquema de propaganda ilegal pelo WhatsApp contra o PT. O programa petista conseguiu, talvez pela primeira vez na campanha, deixar Bolsonaro no córner, acusando a candidatura rival de ser bancada com “dinheiro sujo” de uma “organização criminosa”. Bolsonaro revidou com seu jeito meigo xingando Haddad de “canalha” e “vagabundo”, logo ele um bunda-suja. Explico aos não iniciados.

Vieram à tona entrevistas feitas há 40 anos com o então general-presidente Ernesto Geisel, o quarto e penúltimo da ditadura, concedidas à cientista política Maria Celina d’Araújo e ao antropólogo Celso Castro, entre julho de 1993 e abril de 1994 — e que, mais tarde, viraram um livro. Geisel afirma: “Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. O deputado é conhecido na corporação como “bunda-suja”, o termo usado pelos militares de alta patente — como Geisel — para designar aqueles que não subiram na carreira. Hoje ele está cercado de quatro estrelas de pijamas, saudosistas como ele do regime militar, e por parte da tropa iludida com seu discurso de volta aos “anos dourados” do regime.

E se Ciro Gomes emudeceu em seu descanso europeu, e seu irmão Cid trocou os pés pela língua transformando um ato de apoio a Haddad, em Fortaleza, em munição para Bolsonaro, o PDT – certamente autorizado por Ciro – apresentou ao TSE uma ação nesta sexta, 19, na qual pede que seja investigado o suposto esquema de financiamento ilegal de campanha por meio de empresários que teriam contratado o disparo de mensagens via WhatsApp como forma de favorecer o candidato Jair Bolsonaro. Na ação, o PDT acusa a campanha de Bolsonaro de disseminar fake news com o objetivo de prejudicar os adversários na campanha e defende que os votos dados a Bolsonaro no primeiro turno sejam anulados, com a convocação de novas eleições. A ação casa – complementa – com pedido do PT, na véspera, para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos. A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, se reuniu com a ministra Rosa Weber. Após a reunião, o advogado do partido, Eugênio Aragão, afirmou que a ministra prometeu uma resposta breve.

O processo do PDT, uma Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral), foi movido como repercussão à reportagem da Folha de S.Paulo, que na quinta, 18, apontou que empresas privadas estariam comprando pacotes de disparo em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp, com contratos de até R$ 12 milhões. Nesse turbilhão de emoções na reta final, o TSE, que havia convocado solenemente uma entrevista coletiva, junto com a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, para esta sexta, 19, remarcou-a para domingo, 21, às 14h, na sede do tribunal em Brasília. O caldo engrossou.

 

O VAR eleitoral pode salvar a democracia

“Acho que dá (para virar), sobretudo com as denúncias de corrupção na campanha do Bolsonaro. (…) Se o TSE apurar as denúncias, estou confiante”.
Fernando Haddad à Reuters ao chegar no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

“Eu não tenho controle se tem empresário simpático a mim fazendo isso (pagando para impulsionar fake news nas redes e whatsapp). Eu sei que fere a legislação. Mas eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência”.
Jair Bolsonaro, num quase mea culpa, ao Antagonista

Aos 40 minutos do segundo tempo, o time dos Ogros da Caserna parece levar uma vantagem difícil de tirar. Quase impossível, se você acreditar no Ibope ou no Datafolha, que mostram Bolsonaro perto dos 60% dos votos válidos. Complicada mesmo no cenário da pesquisa CUT/Vox Populi, que dá Bolsonaro com 53% e Haddad com 47%. Se essa diferença for mesmo de 6 pontos percentuais, há esperança nas urnas. Mas uma grave denúncia contra Bolsonaro e o esgoto a céu aberto que virou sua campanha abriram um clarão de esperança. O pedido feito pelo PT para impugnar a candidatura de Bolsonaro, a partir de uma manchete da Folha de S.Paulo – reportagem de Patrícia Campos Mello, aliás, agressivamente atacada por seguidores de Bolsonaro -, mostrando a fábrica de fake news via whatsapp montada pela campanha do capitão, e custeada alegremente por um grupo de sangue-sugas, entre eles Luciano Hang, dono da Havan, o sujeito que é tarado pela Estátua da Liberdade – pode se tornar a bala de prata da campanha. Já criou um fato novo e deve ser fortemente explorado pela campanha de Haddad, ainda que, no TSE, ricocheteie no laquê impenetrável de Rosa Weber ou na peruca Luiz XV de Luiz Fux. Ele que já declarou, há pouco tempo, que a Justiça Eleitoral poderia anular o resultado de uma eleição se esse resultado for decorrência da difusão massiva de notícias falsas. Bom, Fux também prometeu absolver Zé Dirceu… Vale ler o The Intercept sobre as convicções de Fux.

IMG_3449-1140x620
Haddad, entre a esposa, Ana Estela, e a vice Manuela: vítima de uma fábrica de fake news montada pela campanha de Bolsonaro e bancada por caixa 2 de empresários como o dono da Havan, só quer que a Justiça Eleitoral faça seu trabalho. Mas quem está lá é Luiz XV Fux, que prometeu combater as fake news e agora, com as provas nas mãos, brinca de estátua

O fato é que a ‘Fantástica Fábrica de Fake News’ de Bolsonaro é ilegal, caracteriza doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, ou seja, caixa 2 – hashtag #caixa2dobolsonaro. Em agosto, o El País já havia arranhado o tema. Na prestação de contas do candidato do PRN, digo, PSL, consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital, como tendo recebido R$ 115 mil para mídias digitais. Segundo a Folha, os contratos chegaram a R$ 12 milhões e, por meio de compra de “disparos em massa” pelo whatsapp para uma base de usuários, deveriam fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT a partir de domingo, 21, abrindo a última semana da campanha. Fux está esperando o que para pedir o VAR? “Basta prender um empresário e vão entregar a quadrilha toda”, sugeriu Haddad. Se Rosa e Fux descongelarem, pode – e devem – impugnar a candidatura de Bolsonaro e mudar completamente o pleito, que pode até ser remarcado. Bolsonaro, evidentemente, jura pela alma de Brilhante Ustra que isso é mentira. Ao site Antagonista, Bolsonaro disse não ter controle sobre o que empresários apoiadores dele fazem. Epa!

rosaweber.jpg
Rosa Weber, que é presidente da Corte, foi acusada por colegas de pouco jogo de cintura ao lidar com situações de crise, como as fake news da tropa de Bolsonaro, e até com os próprios pares. Constrangimento e saia justa no TSE.
15295945345b2bc2a6c4b76_1529594534_3x2_rt
Luiz XV Fux, fazendo cara de sério e prometendo combater as fake news na campanha eleitoral. Que tal cumprir dessa vez sua palavra, ministro?

 

O TSE adiou uma coletiva de imprensa que estava prevista para as 16h desta sexta, 19, e remarcou para domingo, 21, às 14h, na sede do tribunal em Brasília. Participariam a ministra Rosa Weber, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a advogada-geral da União, Grace Mendonça, o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, além do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), general Sérgio Etchegoyen.

O Whatsapp foi mais rápido. Enviou notificação extrajudicial para as agências Quickmobile, Yacows, Croc services e SMS Market determinando que parem de fazer envio de mensagens em massa e de utilizar números de celulares obtidos pela internet, que as empresas usavam para aumentar o alcance dos grupos na rede social. Além disso, a empresa teria banido do aplicativo contas associadas às agências citadas. Curiosamente, um dos filhos do Coiso, Flávio Bolsonaro, eleito para o Senado pelo Rio, choramingou nesta sexta, 19, pelas redes sociais que teve o seu número de telefone banido pelo WhatsApp. Epa! Em entrevista para a BBC, o WhatsApp disse que seria impossível fazer novas ações antes do segundo turno das eleições.

Captura de tela inteira 18102018 181628.bmp
Meme dos memes: Jair ‘Willy Wonka’ Bolsonaro, o dono da Fantástica Fábrica de Fake News, montada por seus amigos. Perguntado sobre o assunto, foi evasivo, dizendo que não controla o que os apoiadores fazem, abrindo a interpretação para quem acha que ela está por trás de tudo

A reportagem da Folha teve enorme repercussão no meio político e na mídia, mas, curiosamente, foi solenemente ignorada pela Globo, como pontuou o sempre atento blogueiro Maurício Stycer. O “Jornal Nacional” optou por falar do caso de forma indireta, citando a decisão do PT de pedir a inelegibilidade de Bolsonaro “por suposto esquema de divulgação de notícias contra o PT nas mídias sociais”, como disse William Bonner.

Fujão de debates, foi liberado pela equipe médica, ciosa de seus diplomas – os médicos Antonio Luiz Macedo e Leandro Echenique -, a participar pelo menos do último debate, na TV Globo, mas avisou que não iria. Sem atestado médico, caiu a farsa e ficou exposta a estratégia de quem não tem o que dizer. Bolsonaro é intelectualmente limitado, conhece quase nada além de temas militares e de suas obsessões anti-direitos humanos, e seria devorado por Haddad, um professor e um político preparado. Talvez Bolsonaro fosse se a adversária fosse Dilma. Mas Haddad seria um risco de expor o falso mito, que será, e está evidente, um marionete dos interesses que o elegem – empresariado oportunista e inescrupuloso, quatro estrelas saudosos de poder, ruralistas reacionários, maiorais evangélicos que querem expandir seus templos transformados em caixas registradoras e implantar o fundamentalismo, inclusive nas escolas. Nosso ‘Conto da Aia’ particular. Um pesadelo. A ascensão do subterrâneo, general Villas Bôas e seguidores do ex-capitão, Edir Macedo, Silas Malafaia e manipuladores eletrônicos dessa estirpe, economistas medíocres a serviço de um neoliberalismo ultrapassado e que massacra os trabalhadores.

Para alguns analistas, como Alon Feuerwerker, se é difícil que a denúncia contra Bolsonaro, sem uma ação da Justiça Eleitoral, mude os rumos das eleições, a tão pouco tempo dos brasileiros voltarem às urnas, elas podem ter colocado no coturno de Bolsonaro, se eleito, uma bomba relógio que precisará ser desarmada já em seus primeiros meses de governo. Impeachment? Pessoalmente, não acredito que um governo Bolsonaro dure dois anos.

imagem
Temer, o impopular: do golpe parlamentar às vésperas de ficar sem mandato, sem foro privilegiado e com um processo cabeludo que, se o país fosse sério, o levaria em pouco tempo para o xadrez.

Já Temer – lembram dele, o quase ex-presidente?, o sujeito mais impopular da história – tem passado mais tempo com seus advogados no Alvorada do que passando laquê nos cabelos e cremes nas mãozinhas. O pedido de seu indiciamento no inquérito dos Portos, pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, junto com sua filha Maristela e amigos de longa data, é só o final melancólico de um governo que assumiu com um golpe parlamentar, capitaneado por ele e por Eduardo Cunha, junto com a tucanada ligada a Aécio Neves. A terceira denúncia era esperada e Temer tenta, em seus últimos respiros como presidente, a anulação do ato da Polícia Federal junto ao STF. Quem sabe, num possível governo Bolsonaro, a não prisão de Temer possa ser mercadoria para negociar um apoio do MDB à base parlamentar do capitão.