Estreia de Haddad em debate sonolento valeu por ironia de Marina: o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro pegou fogo

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Debate presidencial na TV Aparecida: morno, engessado, quase sem emoção, exceto pelos pitis de Álvaro Dias e pelo trocadilho de Marina com Paulo Guedes, o “guru” de Bolsonaro:  “Está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”.

Que me desculpem o trocadilho, mas foi uma penitência assistir ao debate presidencial na TV Aparecida – que trazia a novidade de ser o primeiro com Fernando Haddad, e que também reuniu Alckmin, Alvaro Dias, Boulos, Ciro, Marina e Meirelles. Injusto, talvez, culpar a TV católica pelo ritmo sonolento do debate, que não conseguiu empolgar sequer nas perguntas diretas entre os postulantes ao Planalto e terminou de forma enfadonha com o quadro final – quem teve essa ideia, meu Deus? – em que bispos perguntaram para os candidatos. O paradoxal é que talvez tenha sido o primeiro debate onde não se estimulou discórdias, mas tentou-se aprofundar ideias e propostas. Difícil dizer se isso ocorreu pelo respeito dos candidatos à platéia de batina, se pelo esgotamento da fórmula ou se por falta mesmo de um enfrentamento de verdade. Talvez tenha sido a falta do Cabo Daciolo e da Ursal. Talvez porque no fundo debate mesmo seria entre Haddad e o acamado Bolsonaro. Estavam todos tão carolas, citando Deus, com um excesso de reverência recíproca só perturbada, evidentemente, pelo botocado Álvaro Dias, com sua ira nada santa contra o PT e que aproveitava qualquer pergunta, ainda que fosse sobre família, como propôs Haddad, para lembrar a “herança maldita” do petismo, sua versão política do capeta.

A candidato da Lava Jato, como costuma ser rotulado o ex-tucano Álvaro Dias – o favorito de Moro, Dallagnol e da República de Curitiba -, hoje abrigado num certo Podemos, não se fez de carola e, possuído, partiu para cima de Haddad – metaforicamente, porque ele não é bobo -, com adjetivos como “porta-voz da tragédia” e “arauto da intolerância”, uma coisa meio Velho Testamento. E antes que Dias comparasse os governos Lula e Dilma a Sodoma e Gomorra, seu tempo acabou. Talvez lhe falte espiar os próprios pecados, como a acusação de que pediu R$ 5 milhões para aliviar para Adir Assad na CPMI do Cachoeira. Samir e e o irmão Adir operavam esquema bilionário de lavagem de dinheiro para as empreiteiras. Seu codinome na lista das empreiteiras era alicate – e fica a curiosidade do porquê. O doleiro Alberto Youssef foi outro que, numa sessão da CPI da Petrobras, confirmou ter financiado a campanha do senador Alvaro Dias. Não sei porquê, Dias me lembra muito outro arauto da moral, o ex-senador Demóstenes Lázaro Torres, cassado pelo Senado Federal por quebra de decoro parlamentar.

Haddad manteve a fleuma diante do candidato quase traço nas pesquisas. “Você fica sentado no seu gabinete no Senado, Álvaro, e desconhece a realidade”, retrucou Haddad, sem perder a ternura. Àquela altura, o programa registrava uma média de 80 mil pessoas no Twitter e quase 30 mil no Youtube, nada mal para a hora. Mas não foi só Álvaro que alfinetou o PT – Ciro Gomes e Marina Silva também deram suas estocadas, embora bem menos incisivas. Quando Ciro tentou demonstrar que o PT nada fizera para melhorar a qualidade das receitas no orçamento, Haddad saiu-se com o que chamou de “uma das maiores reformas tributárias às avessas no país”, que foi colocar os pobres no orçamento. “Foi pelo lado das despesas que fizemos todos os programas sociais feitos durante o nosso governo. O dinheiro chegou na mão do pobre”, retrucou.

Mas se faltava emoção – com Meirelles insistindo que criou 10 milhões de empregos, Boulos propondo a desmilitarização da polícia e a descriminalização das drogas, e Alckmin vendendo uma gestão impecável em São Paulo -, veio de Marina Silva a tirada da noite. Meirelles e Marina debatiam economia, quando vieram à tona as declarações do “guru” da economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, defendendo a volta da CPMF – o que foi desmentido pelo capitão (Leia “‘Posto Ipiranga’ nada, Paulo Guedes é o dono da refinaria”). “Ele (Bolsonaro) diz que (Guedes) é o seu ‘Posto Ipiranga’. Então está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”, ateou fogo Marina.

Lacrou.

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