Estrelas cadentes: o destino das fardas falantes em um governo petista

Se eleito, como começam a indicar as pesquisas de intenção de voto, embora o cenário ainda seja traiçoeiro, Fernando Haddad, terceiro da linhagem petista a assumir o poder – vai ter mais problemas para lidar do que a economia em frangalhos, o inconformismo dos antipetistas derrotados – dessa vez trocando Aécio Neves por Jair Bolsonaro – e a torcida contra das Organizações Globo. A absoluta inexistência de comando do “governo” Temer – tenho sérias dúvidas se ele não chega com menos poderes e mais desmoralizado do que Sarney em 1989 – e o próprio caráter militar da chapa pura-farda de capitão da reserva Jair Bolsonaro (PSL)-general da reserva Antônio Hamilton Mourão (PRTB), devolveu ao país algo sepultado desde o fim peculiar de nossa ditadura militar, sem qualquer punição às Forças Armadas pelas violações dos direitos humanos perpetradas pelos órgãos de repressão. A chamada “Questão militar” – relevante de um país vindo de uma ditadura que durou de 1964 a 1985, e ainda sob tutela. Daí termos Bolsonaro e outros militares acendendo vela para o Dr. Tibiriçá, o coronel do Exército e torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, e fartura de falas anti-democráticas de militares da reserva e da ativa, inclusive -e mais grave – do general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, Comandante do Exército Brasileiro desde 5 de fevereiro de 2015 e tido como uma voz moderada entre os militares, que em entrevista ao Estadão, disse que “a legitimidade do novo governo pode até ser questionada” (Releia aqui). Reveja alguns momentos do general falastrão (Aqui, aqui e aqui)

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A chapa pura-farda Bolsonaro-Mourão, que, curiosamente, mesmo com os dois na reserva, fere a hierarquia militar: o capitão mandando no general. Discurso militarista, ameaças de golpe, chantagem com a classe média e desmoralização do poder civil
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Sérgio Etchegoyen, o militar empurrado aos holofotes por crises do governo Temer: o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência colocou o Exército de novo no Planalto, em um governo fraco, em crise, carente de um nome que inspire autoridade, de Temer, Padilha, Moreira e Marun. Durante o governo Vargas, o avô do ministro ocupou diversos cargos militares até ser escolhido para substituir o chefe de polícia do Distrito Federal, Filinto Müller, onde teve atuação moralista, além de perseguir as atividades políticas de oposição ao governo.

Haddad terá que lidar com essa questão com urgência, a começar do civil que indicará para a pasta da Defesa – hoje com um militar, general Joaquim Silva e Luna, quebrando uma tradição desde a criação da pasta, em 1999 (substituindo o vaselina Raul Jungmann, deslocado para o recém-criado Ministério Extraordinário da Segurança Pública) -, quem colocará no Gabinete de Segurança Institucional (GSI, antiga Casa Militar), ocupada por Temer pelo linha-dura general Sérgio Etchegoyen, e quem substituirá, além do general Villas Bôas (Exército), os comandantes da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Leal Ferreira, e Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato. Além, claro, do que fazer com a malfadada – e cercada de expectativa pela mídia – intervenção no Rio, sob o comando do general Walter Souza Braga Netto, do Exército, e que terminará no raiar de dezembro. A intervenção, como se sabe, fora ações midiáticas no início, não conseguiu reduzir os homicídios, acumula o maior índice de mortes por policiais desde 2008 e tem retirado menos armas das ruas.

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Até a voz moderada engrossou: o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante do Exército, disse que “a legitimidade do novo governo pode até ser questionada”. Ele foi duríssimo em seu discurso no dia do Exército.
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O interventor da segurança no Rio, Braga Netto, à frente de membros das Forças Armadas em dia de ações na Vila Kennedy, em Bangu. Resultados pífios frente à grande expectativa criada pela mídia e pelo falido – inclusive moralmente – governo do Rio.

Mais. Bolsonaro decidiu entregar a militares a área de infraestrutura do governo caso seja eleito presidente. No último dia 17/09, o guru econômico do presidenciável, Paulo Guedes, teve seu primeiro encontro com o chamado Grupo de Brasília, que reúne militares da reserva interessados em ver suas propostas implementadas em um governo Bolsonaro. O grupo é liderado pelo general da reserva Osvaldo Ferreira, do qual também fazem parte os generais Augusto Heleno e Aléssio Ribeiro Souto, além do professor da UnB, Paulo Coutinho. As reuniões, realizadas a portas fechadas no hotel Brasília Imperial, na capital, foram a primeira tentativa de unir as equipes que orbitam ao redor de Bolsonaro e que, faltando poucos dias para a eleição, ainda trabalham desarticuladas.

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Dia da Independência: 54 reformados do Exército tentam vaga no Congresso nesta eleição.

Uma curiosidade. Na madrugada deste dia 25/09, o site do Ministério da Defesa foi hackeado por um grupo ligado ao movimento Anonymous. Foram vazadas informações confidenciais de integrantes do Exército, como o telefone do general Eduardo Villas Boas. O general da reserva Hamilton Mourão também foi citado nominalmente. O grupo comunicou a invasão, com a posterior divulgação de caminhos para dados roubados. O grupo classificou a própria atitude como “uma mensagem direta ao fascismo e autoritarismo que ameaça a democracia brasileira”, nomeando os dois militares citando anteriormente e o candidato Bolsonaro.

É esse o momento que vivemos, e devemos isso a Temer, Bolsonaro, Mourão e esse pequena tropa de “elite”. Citando o insuspeito Merval Pereira, no Globo. “Bolsonaro defende o golpe de 1964, já elogiou torturadores e admite, pessoalmente, ou através de seus principais aliados como o vice, general Mourão, a intervenção militar. Além do mais, ameaçou fuzilar adversários, entre eles Fernando Henrique Cardoso, e, recentemente, ‘os petralhas’. Não há dúvida de que Bolsonaro não cabe no figurino de democrata”. Merval foi mais longe, mas vou ignorar (Leia você). A senha da baboseira golpista é falar que “as Forças Armadas estão atentas às suas missões institucionais”, como se a Constituição abrisse brecha para golpes – militares, civis-militares, parlamentares ou antigolpes, como se sofisticou dizer hoje. O tema cresceu tanto, e tanto foram os recados, que nos últimos dias veículos insuspeitos fizeram editoriais sobre o tema – a que ponto chegamos.

O Globo publicou o editorial “É preciso não banalizar o risco de golpe” (Aqui), onde afirma que “não é cabível sequer cogitar um golpe. Prejudica a democracia”. Seguiu, curiosamente, em editoria do mesmo grupo, da revista Época, bem mais forte, “Basta de ditaduras! Fora, golpistas!” (Leia), lembrando o “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”, definiu editorial de 2013 do jornal O Globo, de 2013, para quem “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”, reconhecendo, sem meias palavras, ter cometido um erro ao apoiar o golpe de 1964. O Estadão veio com “A insensatez das elites” – você leu direito (Aqui)- onde escreve que “São tão frágeis os alegados elos de Bolsonaro com qualquer ideia de modernização da economia que custa crer que investidores e empresários que prezam seu dinheiro estejam realmente convencidos da conversão do ex-capitão ao credo liberal”.

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Jack Palance da caserna. Chegando em um self service, general Mourão aceita o “desafio” de um clone do ex-campeão peso-médio do UFC, Anderson Silva, de fazer meia dúzia de flexões. “Mourão cai nas graças do povo!’, diz seu Twitter.

Claro que o Exército não se resume a essas pessoas. Generais moderados das Forças Armadas não querem sabe disso. Caberá a Haddad, se eleito, refazer o percurso feito por ex-presidentes e colocar de novo ordem na caserna, limitando a congregações de pijama, como os Clubes Militares, os ataques histéricos e inofensivos à ordem democrática.

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O candidato a deputado estadual Tenente Coronel Zucco (PSL-RS), um dos militares em campanha, usou veículos adquiridos em leilões do Exército e emprestados por empresário, para fazer carreata cívica em Capão da Canoa, no litoral gaúcho. Pela similaridade dos caminhões usados no ato, muitas pessoas denunciaram que haviam sido cedidos pelo Exército.

Em tempo 1 – No Twiter, Eduardo, um dos filhos de Bolsonaro, contou – e postou foto – ter sido visitado na casa de Marrone, da dupla Bruno e Marrone – os sertanejos, por razão a ser estudada, tem um viés capacho -, junto com Amado Batista. O cantor – 40 anos de carreira, cerca de 35 milhões de discos vendidos e dono de dois aviões -, que se envolveu recentemente em uma polêmica na saída de um evento, quando disparou para fãs “Tira a mão de mim”, foi torturado por dois meses, na ditadura, apenas por quem trabalhando numa livraria, vendeu livros considerados subversivos a intelectuais. E numa inacreditável entrevista a Marília Gabriela, diz que mereceu. Eu acho que mereci. Fiz coisas erradas, eles me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho.

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Amado Batista, o torturado complacente, apoia Bolsocaro. Ele diz que mereceu os choques que levou por vender livros “subversivos”. Bizarro.

Em tempo 2 – O babado do dia está na Folha (Leia). A ex-mulher de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle, afirmou ao Itamaraty em 2011 que foi ameaçada de morte por ele, o que a levou a deixar o Brasil. O relato consta de um telegrama reservado arquivado no órgão, ao qual a Folha teve acesso. Na época Bolsonaro e Ana Cristina travavam uma disputa judicial no Rio de Janeiro sobre a guarda do filho do casal, então com cerca de 12 anos.

A ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle, durante ato pró-Bolsonaro nas ruas de Resende, interior do estado do Rio de Janeiro. Atualmente Ana Cristina, ex-servidora da Câmara Municipal de Resende (RJ), usa o sobrenome Bolsonaro e é candidata a deputada federal pelo Podemos. Ela disse apoiar a candidatura do ex-marido ao Planalto e considerou “superado” o episódio na Noruega, apesar de ter admitido ter sido pressionada por ele à época.

 

 

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