A continência e a conspiração

Um dia comum no clã Bolsonaro: o pai posou de sabujo do governo norte-americano e o filho surtou – ou isso ou, se não me engano, denunciou um complô para matar o pai tramado dentro de seu círculo mais próximo. Como não sabia sobre qual assunto escrever, escolhi os dois. São igualmente irresistíveis.

Vamos por ordem cronológica. Às 21h37 de quarta, 28, Carlos Bolsonaro, o filho mais novo do presidente eleito, escanteado da formação do ministério e desterrado de volta ao papel de vereador que defende a pena de morte, a tortura para traficantes de drogas e faz piada da proposta de legalização da união civil entre homossexuais, postou no Twitter algo que pode ser um surto ou uma denúncia grave. “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de (sic) sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário!”, escreveu. Não se sabe ainda da repercussão do Tweet em casa, mas na mídia foi tratado como notícia de rodapé. Seus seguidores – mais de 20 mil haviam curtido e cerca de 3 mil retuitado até a tarde desta quinta – não acharam brincadeira. “Ô louco. Tem aliado querendo a morte dele?”, perguntou um deles. “Bolsonaro tem que se livrar dessas pessoas”, recomenda outro fã. Um deles faz uma revelação: Já percebemos isso. Já sabemos quem é”. Mas deixou a descoberta no ar.

Ministerio Bolsonaro
À esquerda, Bolsonaro e tropa recebendo para um café com broa – e banana, claro – o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. Ao chegar para cumprimentar Bolsonaro, antes do aperto de mão, ganhou uma continência do presidente eleito do Brasil. À direita, em cima, Carlos Bolsonato, o twitteiro,  que disparou: “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto”. Aguarda-se o próximo capítulo. Embaixo, Eduardo Bolsonaro, em Washington, com o boné “Trump 2020”. Aguarda-se que a bandeira dos EUA seja hasteada ao lado da do Brasil na Praça dos Três Poderes.

Carlos atuou como responsável pelas redes sociais do pai em sua trajetória no Congresso e chegou a ser cogitado pelo eleito para assumir a Secretaria de Comunicação do governo. Acreditar que seu Tweet não foi feito de caso pensado é subestimá-lo – algo que eu não faria. Em evento na Vila Militar, no Rio de Janeiro, Bolsonaro evitou comentar diretamente a declaração de seu filho. “Minha morte interessa a muita gente. Quando recebi a facada, estava muito próximo de mim o elemento. Recentemente ele era filiado ao PSOL. Houve um fato recente de que uma pessoa tentou entrar com a identidade dele na Câmara dos Deputados. No meu entender há uma investigação bastante farta a ser concluída”, disse ele. Bom, o PSOL, que eu saiba, não está “muito perto” de Bolsonaro. Ao contrário.

Às 6h27 desta quinta, 29 – o menino dorme tarde e acorda cedo -, Carlos retomou o tema, dando a entender que não está falando de gente do PT ou PSOL, os primeiros a serem apontados como interessados no atentado contra o pai. “A pergunta que não pode calar e que muitos que se dizem “jornas” (sic) fazem questão de “esquecer”: quem mandou matar Jair Bolsonaro? Será que se fazem de idiotas por que foi um ex-membro do PSOL e simpatizante do PT?”. Mais mistério. Quase 27 mil curtidas e 5,5 mil retuites até a tarde. Dessa vez uma das respostas partiu do teólogo e escritor Leonardo Boff: “A investigação policial já tirou a limpo que ele agiu sozinho e está sob tratamento psiquiátrico. Como para vc, seus irmãos e pai nem Constituição e leis valem, continuam com ideias estapafúrdias, alimentando suspeitas infundadas só para culpabilizar as esquerdas”. Os posts estão aí embaixo antes que alguém ache que é fake news. Entrar no Twitter do sujeito é outra opção.

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Meia hora depois que a mensagem foi postada, Bolsonaro estava em pé, na porta de sua casa em um condomínio na Barra da Tijuca no Rio, cercado de alguns de seus homens “mais próximos”: o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo; o futuro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno; e o futuro ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Aguardavam, ansiosos, a chegada do Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, e mais alguns assessores do governo Donald Trump. De repente, quando Bolton se aproximava, mão estendida para sacudirem falanges, falanginhas e falangetas, Bolsonaro bateu continência para o funcionário do segundo (terceiro?) escalão do governo norte-americano (Veja no Poder 360). A continência, como se sabe, é uma saudação militar e uma das maneiras de manifestar respeito e apreço aos seus superiores. Gesto reflexo? Outra de suas “marcas registradas”, como apontar “arminhas” com as mãos? Ou capachismo explícito? O leitor decide.

Na véspera, outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, encontrou-se em Washington com assessores do governo Trump – sabe-se lá pra quê. Agindo como uma espécie de chanceler informal, voltou a anunciar a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém – nem Freud, que nasceu em uma família judaica, explica -, decisão que contraria os interesses econômicos nacionais e que já havia sido contornada com a entrada em cenas dos generais que cercam seu pai, que haviam engavetado a ideia com um argumento matador: o Brasil poderia perder bilhões em exportações com nações árabes, concentradas justamente no agronegócio. Mas a cereja do bolo era o boné que Eduardo ostentava na cabeça: uma peça de campanha de Donald Trump. Só faltou o óculos Ray-Ban e o palitinho entre os dentes.

Após o encontro, John Bolton publicou em sua conta no Twitter que convidou Bolsonaro, em nome de Donald Trump, para uma visita aos Estados Unidos. Ele afirmou ainda que está “ansioso” para uma “parceria” entre os dois países. Estou mais ansioso em acompanhar a novelinha no Twitter de Carlos Bolsonaro.

Ah, um pouquinho de história contemporânea. Há 13 anos, o Brasil era soberano, defendia seus interesses e não batia continência para os Estados Unidos – duvida? Assista e encha o peito de orgulho.

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