O dia em que votei em Bolsonaro

(Contém spoiler de The Walking Dead)

Fã da obra original em quadrinhos e também da série The Walking Dead, aprendi um truque para, em alguns momentos, me misturar aos zumbis sem ter que perder meu cérebro. Me embrenhar na horda. Na maneira mais rústica, espalhar pelo corpo os restos mortais, vísceras e carnes, salpicar sangue pelo rosto, e ir em frente. Mas um novo grupo de sobreviventes, os Sussurradores, sofisticaram o disfarce. Eles usam a pele dos zumbis para andar entre as hordas. O que isso tem a ver com esse artigo? Bom, foi assim que votei em Bolsonaro.

Quer dizer, óbvio que não votei. Mas votei. Disse que votei. Pra que? Pra me misturar nas hordas. Entender o que pensam os caminhantes. Sem nenhuma esperança de conversão, isso foi estratégia da campanha, mas para furar a bolha, tentar argumentar, sem que o interlocutor já me rotule rapidamente como “petista” – não sei se perceberam, mas na cabeça dessas pessoas, ser de esquerda é ser petista -, e ignore o meu lado no diálogo. Sim, tem um sadomasoquismo nisso tudo.

A corrida seguia em silêncio, era noite, estávamos cansados, eu e ele, quando puxei assunto com o taxista. Um morador do subúrbio do Rio, que vive com dificuldades, odeia a ex-mulher, como odeia o Uber, e ama os filhos, como ama a possibilidade de um dia acertar as seis dezenas na MegaSena.

– O que o sr está achando do nosso presidente? – arrisquei.
– Ele ainda não assumiu, né. Tenho muita esperança.

Logo surgiu o assunto dos médicos cubanos. Citei que tinha um irmão médico para me dar algum respaldo técnico. Essa parte é verdadeira.

– Vai ter muita cidade sem médico. Podiam ter deixado os cubanos aqui. Eram odiados pela classe médica, mas ajudavam o povo.
– Eram escravos. O governo de Cuba pegava 70% dos salários deles. E já preencheram as vagas. Só queriam espalhar comunistas no meio do nosso povo.

É impressionante como esses sujeitos são esponjas da mídia. Uma vez abduzidos, compram tudo o que diz a mídia. Tentei explicar que isso não era verdade, que a contratação dos cubanos é diferente, o pagamento é feito por meio da Opas – por que fui falar em Opas?- , e que não preencheram as vagas. Muitos se inscreveram, mas menos de 30% dos profissionais inscritos no edital do Mais Médicos já se apresentaram aos municípios para iniciar as atividades. A maior parte não quer trabalhar no interior. Há vagas em áreas indígenas e em cidades com 20% da população ou mais em situação de extrema pobreza.

– O sr é comunista?
– Eu sou flamenguista – sorri suavemente.

O clima ficou tenso. Devia ter dito que era palmeirense. Elogiei a escolha dos militares por Bolsonaro. Cinco generais e um almirante na Esplanada, fora ele, um ex-capitão, e militares no segundo escalão, na equipe de transição, por todos os lados. Ele se sentiu confiante de novo. Elogiou o vice Mourão e o chefe do GSI, Augusto Heleno.

– Meu pai conhece o Augusto Heleno. É um herói nacional. Como Caxias.

Gelei.

Você não acha ruim para o país fechar a Embaixada da Palestina do Brasil “porque a Palestina não é um país” e transferir a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém – para repetir o Donald Trump? A balança comercial com os árabes é muito mais importante. Somos um país em crise.

Ele não sabia o que era Opas, mas sabia o que era Hamas. Mudei de assunto de novo. O táxi seguia seu caminho. Ruas desertas.

– Seus filhos estudam? – perguntei.

– Escolas públicas.

Meus filhos estudam numa escola construtivista na Barra da Tijuca. Eu estava quase sem vísceras. Parecia cada vez mais…humano. Perguntei seu nome pela primeira vez.

– Fulano, você não acha errado que nossos filhos sejam proibidos de ter educação sexual nas escolas? Não é melhor que entendam e respeitem as diferenças de gênero?
– O sr quer um filho viado?

A resposta direta seria uma armadilha. Ele me colocou no córner.

– O sr sabia que quanto mais as crianças sabem sobre sexo, mais eles querem transar? Ex-pe-ri-men-tar, soletrou.

E fez uns trejeitos supostamente gays.

– E o atentado contra o presidente, hem? Mas ele parece bem. Comemorou o título com o Palmeiras… Qual o seu time?
– Flamengo.

Tínhamos algo em comum

– Bolsonaro é Vasco, né.

Silêncio. Estávamos quase chegando. Lembrei a ele que Mourão assumiria a Presidência, simbolicamente, em 1º de janeiro. Trinta e quatro anos depois do general João Baptista Figueiredo deixar o Palácio do Planalto, um representante das mais altas patentes do Exército voltaria a ocupar a presidência do Brasil — embora por poucos dias. Vice-presidente eleito, o general da reserva assumirá o comando do país por cerca de duas semanas. Esse é o período estimado para a recuperação de Bolsonaro, que vai retirar a bolsa de colostomia que o acompanha desde o “atentado” a faca sofrido durante a campanha.

Ele percebeu que fiz aspas com os dedos indicadores quando falei em atentado. Não importava mais. A viagem antropológica e política foi didática. Vou repetir. Até um dia ser desmascarado e possivelmente ser largado em algum acostamento vazio.

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