Bolsonaro não governa para todos os brasileiros e deixa claro que faz distinção ideológica; Rosa Weber lembra direitos humanos e respeito às “minorias estigmatizadas”

“Aos que não me apoiaram, peço sua ajuda. (…) Governarei em benefício de todos”.
Jair Messias “Moisés” Bolsonaro, em discurso de diplomação no TSE. Logo depois lembraria que o país tem diferenças “ideológicas” e interesses “alheios” aos seus. E seria lembrado por Rosa Weber, presidente do TSE, que era o Dia Mundial de Direitos Humanos, o que ele – e seu ghost writer – ignoraram. TSE, 10/12

Por mais que eu estivesse hipnotizado pelas tradutoras de Libras (linguagem de surdos) – a do presidente eleito e a do Tribunal Superior Eleitoral -, consegui entender o fundamental na cerimônia nada animada e com viés de saia justa de diplomação do ex-capitão Jair Bolsonaro e de seu vice, o general Hamilton Mourão, pelo TSE. Parecia um dia normal na vida de todos, da nossa democracia, uma ida ao mercado para fazer compras, mas para quem sabe ouvir e interpretar havia muito de subliminar nos discursos. Bolsonaro, por exemplo, elogiou a Justiça Eleitoral e disse que governará para todos, pediu ajuda aos “que não me apoiaram”, mas, de forma absolutamente calculada – e dispensável para quem supostamente chega ao poder para unir o país – frisou que veio para acabar com o que chamou de “ruptura com práticas que historicamente retardaram nosso progresso” e prometeu acabar com “manipulação ideológica e submissão de nosso destino a interesses alheios”. Foi mais longe, numa frase que me calou fundo. “O poder popular não precisa mais de intermediação”, disse. A referência palpável, como disse, era às novas tecnologias que permitem uma “relação direta entre o eleitor e seus representantes”. Mas o que Bolsonaro fez, naquele momento, foi mandar para as cucuias as instituições, incluindo partidos políticos – o que já mostrou indicando seus 22 ministros pela patente ou por indicação de alguma bancada reacionária.

Bolsonaro não apenas convidou para a cerimônia, de forma inédita, sua claque aquartelada, como fez questão de agradecer a presença, com a mesma cerimônia, dos representantes do Judiciário, do Congresso e dos “chefes militares”. “Jamais devemos afastar dos ideais que no unem, como o amor à Pátria” e “Vamos resgatar o orgulho de ser brasileiros” foram algumas das frases daquele que provavelmente é o discurso mais tosco do pós-democracia – reveja parte do discurso de Lula, em 2002. Aplaudido pelos presentes ao final do discurso, Bolsonaro fez o que foi ensinado a fazer quando está feliz. Bateu continência. É o novo cacoete, que conviverá com aquele gesto das arminhas com os dedos, como fez durante toda a campanha, ensinando até uma menina de colo a repetir, coisa linda – se você tem filha, então, ô.

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Bolsonaro em sua diplomação no TSE: destacou as diferenças ideológicas no país, enquanto Rosa Weber lembrou ao ex-capitão o respeito à Constituição, aos Direitos Humanos e às minorias

O discurso de Bolsonaro teve um contraponto, pelo menos pra mim, até certo ponto, inesperado. Se fez parte de todo “O Processo”, Rosa Weber, a presidente do TSE, representando o Judiciário – “com Supremo, com tudo” – deu alguns recados muito diretos par Bolsonaro – e deixei claro que falava “especialmente” para ele e Mourão. Weber começou repelindo “rupturas no processo democrático que desprezem o processo democrático” até lembrar – o que Bolsonaro ignorou, por ignorância ou conveniência – que estávamos no Dia Mundial dos Direitos Humanos. Vou repetir: Dia Mundial dos Direitos Humanos – não é uma data que um futuro presidente devesse ignorar em sua diplomação. Se fosse o Dia do Guarda da Esquina ele lembraria.

Weber – que não é Max, mas mandou bem -lembrou que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completava 70 anos e que, entre seus preceitos, estava a não “distinção de orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer outra condição”. Para um futuro presidente que já se mostrou reacionário nos chamados direitos civis, homofóbico e que pretende implantar o tal do ‘Escola sem Partido’, aberração pseudo-educacional que prega o fim do ensino sexual e proíbe disciplinas que tratem de ‘ideologia de gênero’ e usem o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual’, foi na mosca.

Foi mais longe. Sem citar nominalmente a ditadura implantada em 1964 – que Bolsonaro, Mourão e os militares presentes chamam de “revolução” e cujo legado” defendem, afirmado que os governos da época conquistaram avanços importantes, principalmente na área econômica -, lembrou “tempos especialmente sombrios” que desrespeitavam os direitos humanos. É quase certo que alguns militares cravaram as unhas nas braçadeiras de suas poltronas. “Em um país de tantas desigualdades, refletir sobre declarações não é mero exercício teórico, mas necessidade para governantes e governados”, disse ela. “A democracia não se resume à escolha periódica, mas exercício constante de diálogo e tolerância, mútua aceitação da tolerância. (…) Em uma democracia, maioria e minoria (..) hão de conviver sob a égide dos mecanismos constitucionais”, insistiu, caso alguém não tenha entendido, citando o “respeito às minorias estigmatizadas”. “A democracia repele a noção autoritária do pensamento único. É do respeito democrático a convivência dos opostos”, lacrou.

Rosa Weber incluiu um outro tema na ordem do dia, mais do que fundamental. Lembrou os “refugiados e pessoas deslocadas”, referência indireta – mas óbvia -aos venezuelanos que seguem para Roraima, e agora convivem com uma estranha intervenção federal. Alguns patéticos presentes gritaram “mito” ao final da cerimônia. Mito, antes que eu me esqueça, era Gandhi, não Gengis Khan.

Um comentário em “Bolsonaro não governa para todos os brasileiros e deixa claro que faz distinção ideológica; Rosa Weber lembra direitos humanos e respeito às “minorias estigmatizadas”

  1. Ótimo texto. Como médico tive a nítida sensação do estado geral decrépito do capitão brazuka , levemente semi-ofegante, quase como como se tentasse segurar um peido pela colostomia, que poderia transbordar caso ele falasse mais alto. A impressáo médica que tive não é de um paciente saudável física e mentalmente , mas de um paciente debilitado, em estado catabólico ativo, comportamento de estado de alerta ligado e que a qualquer momento poderia ter uma crise pânico, de cólera ou pior….. um ictus , uma síncope ou uma morte cardíaca súbita. Quem viver verá.

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