Menos Médicos, Menos índios

“Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Hígia, por Panaceia e por todos os deuses e deusas que acato este juramento e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais”.
Trecho do Juramento de Hipócrates

“Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente”
Trecho da música “Índios”, do Legião Urbana

“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.
Trecho do artigo 231 da Constituição Federal

O programa Menos Médicos do futuro governo segue dando resultados antes mesmo de Jair Bolsonaro tomar posse. Além de desmontar algo que estava dando certo, e apresentando resultados, por causa de uma birra ideológica com Cuba, o ex-capitão e futuro presidente mostrou que seu governo será uma constante troca dos pés pelas mãos. Na falta de um “Posto Ipiranga” para cada pasta ou assunto – o disponível, Paulo Guedes, será testado na Economia a partir de 1º de janeiro -, e com a absoluta submissão da maioria dos ministros aos seus caprichos (excetuando os generais que espalhou pela Esplanada e o vice falastrão), Bolsonaro seguirá fazendo besteira por se meter onde não entende. Caso da classe médica brasileira. A vinda dos médicos estrangeiros, particularmente dos cubanos, foi tratada por Bolsonaro e pelo deputado Luiz Henrique Mandetta, ortopedista e deputado do DEM, como uma terceirização de um setor essencial para alienígenas, quando se confirma agora que o Mais Médicos apenas supria uma demanda que os doutores nacionais não queriam preencher. Sem os 8.332 profissionais cubanos, ficaram expostos os buracos nos rincões – um deles as áreas indígenas em locais recônditos.

Releia os textos “Dr Richel & Mr Bolsonaro” e também “Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores”.

Das 106 vagas que não foram ocupadas depois da primeira etapa de seleção de profissionais para o Mais Médicos, 63 (59%) estão em Distritos Especiais de Saúde Indígena, os Dseis. Dos 34 distritos de saúde indígenas existentes no país, oito — todos no Norte — ficaram com vagas ociosas depois do término das inscrições no último dia 07/12. Especialistas ouvidos pela mídia atribuem o fato a três aspectos: o isolamento de algumas dessas comunidades, principalmente as da região amazônica, o perfil do estudante de medicina brasileiro e o modo como a carreira médica é feita no Brasil. Para se ter uma ideia, das 11 vagas que foram ofertadas no edital do Mais Médicos para o Tapajós, apenas cinco foram ocupadas. Em comparação, os distritos indígenas do litoral tiveram todas as vagas preenchidas na primeira etapa de seleção.

Não vou ficar aqui lembrando o Juramento de Hipócrates, que, pelo jeito virou o Juramento de Hipócritas. Mas lembrarei que a histórica Fundação Nacional do Índio agora está sob a goiabeira da pastora Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Colocar a Funai com “Tia Damares” só confirma o desprezo do novo governo pelos milhares de índios brasileiros. Bolsonaro já disse que índios em reservas são como animais em zoológicos e “Tia” Damares concordou em rever a “política do isolamento” de indígenas. Bolsonaro também antecipou que vai suspender todos os processos de demarcação de terras indígenas e alterar o status constitucional da Funai, de órgão de defesa do direito indígena para uma instituição subordinada ao interesse agrícola. Para Bolsonaro, as áreas já demarcadas estão “superdimensionadas”. Atualmente, o Brasil tem 436 terras indígenas plenamente reconhecidas —que somam 117 milhões de hectares, 14% do território nacional. O futuro presidente defende que as terras indígenas sejam abertas para empreendimentos de infraestrutura e atividades de mineração.

A Constituição de 1988 estabeleceu que os territórios indígenas no Brasil fossem demarcados pelo Governo federal em até cinco anos. Não foram. Segundo dados da Funai, cerca de 130 terras indígenas estão em processo de demarcação no Brasil e, portanto, poderiam ser afetadas pela medida planejada por Bolsonaro. Outras 116 estão em estudo para aprovação como terra tradicional e mais 484 áreas são reivindicadas para análise.

Talvez o Menos Médicos tenha uma intenção oculta de se inserir no Menos Índios.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close