Parle, stupide!

E Bolsonaro discursou em Davos, em sua estreia em um palanque internacional, falando para empresários e executivos do mundo inteiro, apresentando o Brasil de coturno, sem povo e “sem o viés ideológico”, a tara do presidente. O Brasil com Netanyahu e anti-Maduro. Sem Boff e com Olavo de Carvalho, o paizinho de Ernesto Araújo – um dos três ministros citados por ele junto com Sérgio Moro e Paulo Guedes. Menos Médicos, Menos Social, Mais Armas, Mais Desmatamento, Mais Preconceito. Com os dez dedos intactos, já que nunca trabalhou numa prensa, nem foi operário, mas com uma bela bolsa de colostomia na cintura. Não chega a compensar os debates a que covardemente faltou na campanha presidencial, nem as entrevistas da qual escapa, mas serviu para vê-lo falar ao vivo – o que assisti prazerosamente pela internet. Com a verve que lhe é peculiar, a sagacidade conhecida e a loquacidade ímpar de um grande orador, Bolsonaro fez um discurso patético. Não foi fraco, foi pífio. Parecia um aluno de primário lendo sua primeira redação – nota C.

Não se sabe quantas pessoas se debruçaram sobre as duas ou três páginas do discursinho – segundo apuração da Folha, Bolsonaro e seus assessores não escreveram um texto-base para o pronunciamento e o presidente apenas colheu sugestões de auxiliares do governo e decidiria ele mesmo quais usaria -, mas não poderia ser mais clichê, insípido, rancoroso e mentiroso. Faltou um assessor  sem rabo preso pra dizer: “Está uma merda”. Mas não existe tal triste figura. A ponto de Bolsonaro começar o discurso citando a eleição, vencida há três longínquos meses – “Nas eleições, gastando menos de 1 milhão de dólares e com 8 segundos de tempo de televisão, sendo injustamente atacado a todo tempo, conseguimos a vitória” – e terminar citando o slogan de campanha – “Tendo como lema ‘Deus acima de tudo’, acredito que nossas relações trarão infindáveis progressos para todos”. Bolsonaro sabe quantas pessoas na platéia não acreditam em um Deus ou têm outras crenças, diferentes de sua igreja neopentecostal na Barra da Tijuca? Ou mais ainda, não concordam em misturar negócios, política e religião? Não não sabe.

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“O Brasil é um paraíso, mas ainda muito pouco conhecido”.
Uma das frases lapidares de Jair Bolsonaro em Davos, falando com suas conhecidas pausas que ninguém imita melhor que Marcelo Adnet.

Foram 3.866 caracteres, lidos sofridamente em oito minutos, e as duas palavras mais usadas foram “mundo”, 11 vezes, e “Brasil”, 9 vezes. Uma pobreza vocabular que só perde para a falta de emoção. E de sensibilidade social. Presidente de um país pobre, não falou em povo.  Não falou em programas sociais. Não se mencionou pobreza, só o Brasil turístico, cordial e acolhedor que ele quer recuperar. “Assumi o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica”, disse. “Estamos de braços abertos. Quero mais que um Brasil grande, quero um mundo de paz, liberdade e democracia”, persistiu. Disse que montou uma equipe “não aceitando ingerências político-partidárias”, omitindo as bancadas que mandam em seu governo – ruralista, evangélica, da bala, sem falar nos militares – e teve o desplante de prometer a “compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico”, ele o cara que colocou a Bancada Ruralista e a UDR no comando das áreas diretamente ligadas ao setor. “Vamos diminuir a carga tributária” persistiu o homem que falou em aumentar o ICMS, depois disse que fora um engano, mas ainda cogita sim aumentar impostos – como já admitiu Guedes – para compensar arrecadação baixa e país em recessão. E esse foi o discurso, pronto, acabou.

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No final, Bolsonaro respondeu perguntas escritas do fundador do Fórum de Davos, Klaus Shwab. E respondeu…por escrito. Saberia ele as perguntas previamente? Claro, bobinho. Ainda assim, precisou de colinha. Faltou às aulas de debate no segundo turno das eleições presidenciais.

Não aceite que te digam que foi um discurso “protocolar”, “aceitável” e “genérico” e “dentro da expectativa dos investidores”. Nunca antes na história de Haia um discurso foi tão estúpido.

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