A tanatopraxia de Moro e Toffoli

Sérgio Moro, ex-juiz que condenou e mandou prender Lula, hoje ministro de Jair Bolsonaro e chefe da Polícia Federal, e Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, e representante máximo da Justiça no país, passaram nesta triste quarta-feira, 30, por um processo de tanatopraxia. Não sei se foi doloroso para eles ter o sangue substituído por formol. Provavelmente, não. A dor ficou com o ex-presidente Lula, proibido de ir ao velório do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, que morreu de câncer na véspera, aos 79 anos. Com suas omissões – no caso de Dias Toffoli, que tentou inventar o velório pós-mortem, e em unidade militar -, e suas decisões – representadas pelas negativas da Justiça de Execuções Penais de Curitiba e da Polícia Federal, ambas comandadas por Moro -, foram embalsamados na memória do povo. Não vão apodrecer, mas são desde já duas múmias da República.

O medo de ver Lula livre, ainda que pelos minutos em que choraria ao lado do caixão a perda de um ente querido, o pavor de que pudesse discursar, reunir uma multidão, que o país assistisse as ruas, hoje mudas, se mexendo de novo, congelou o sangue que ainda existia nas veias de Moro e Toffoli. E conseguiram, mesmo em um país esfolado como o nosso, descer ao ponto mais baixo da natureza humana. Como escreveu Josias de Souza (Leia), “caminharam na contramão dos mais elementares sentimentos humanos”, atropelando “valores civilizatórios, como o humanismo, e a própria Lei de Execuções Penais”, que autoriza presos a deixar o cárcere para comparecer, mediante escola policial, a velórios e enterros de parentes próximos. O pretexto da falta de tempo para planejar a “logística” do deslocamento do preso, persistiu Josias, também ofendeu a lógica, pois a morte bate de repente, sem aviso.

A proibição para que Lula velasse o irmão não tem paralelo em nenhuma decisão judicial, que libera presos às centenas, todos os anos, para dar um último adeus aos amados, nem na vida do próprio Lula – o que torna tudo ainda mais grave e triste. Durante a ditadura militar, há 38 anos, o então operário Luiz Inácio da Silva foi autorizado pelo diretor-geral do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Romeu Tuma, a comparecer ao velório de sua mãe, Eurídice Ferreira, a Dona Lindu. O filho, que se tornaria presidente, estava preso há 24 dias por liderar uma greve no ABC Paulista. Quase quatro décadas depois, Lula, de volta ao cárcere em cumprimento a uma pena para a qual carecem provas, e condenado apenas em segunda instância, não teve o mesmo direito.

Como escreveu Helena Chagas, nos Divergentes, Lula, preso comum, foi oficialmente assumido pelo Estado como um preso de alta periculosidade política (Leia). “Uma República que tem medo das palavras de um presidiário que vai a um enterro e voltará em seguida à cadeia não pode andar bem das pernas”, escreveu Chagas.

Lula vive. Vavá vive. Moro e Toffoli estão mortos.

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