O diabo na carne de Mr Crivella

O desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio está ameaçado de ser assumido pelo Rock in Rio de Roberto Medina. É mais ou menos como se a Liesa, a Liga dos Bicheiros das Escolas de Samba, quisesse assumir o Rock in Rio. Fala-se em um novo modelo de gestão do evento, mas por mais alergia que eu tenha ao atual modelo, controlado por criminosos, não consigo achar essa uma boa ideia. Especialmente porque continuaria tudo – direitos de transmissão exclusivos, marketing, licenciamentos – nas mãos da Globo. Não me cheira bem. A polêmica começou não por um súbito desejo das autoridades municipais de limpar o carnaval, digamos, de alta performance, da bandidagem, mas porque a fonte secou. O bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e dublê de prefeito do Rio, Marcelo Crivella, anunciou pela segunda vez seguida corte na ajuda às escolas, quase inviabilizando o desfile que é responsável por um dos principais fluxos turísticos para a cidade. O troco veio no rabo de um tridente. Se no ano passado, a Mangueira chegou a retratá-lo em um boneco de Judas na sua última alegoria, esse ano a coisa esquentou. A Acadêmicos do Sossego decidiu tirar o sono do alcaide. Última escola a desfilar no primeiro dia de desfiles da Série A este ano – que no fundo é a série B -, revelou uma alegoria com um diabo que tem o rosto do prefeito, com chifrinho e tudo.

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Promoção: de Judas ao Capeta – Em 2018, o bispo-prefeito Crivella, que detesta Carnaval, foi retratado como o traidor Judas no desfile da Mangueira. Esse ano, será o próprio cramulhão na apresentação da Acadêmicos do Sossego, de Niterói.

O tema da Sossego, que é de Niterói, é a liberdade religiosa e terá como mote “Não se meta com minha fé, acredito em quem quiser”. Cabe como uma luva ao homem eleito como um projeto de poder da IURD. A escultura de Crivella surgirá em meio a um terreiro quebrado, que representa as religiões de matriz africana, algo inadmissível para os neopentecostais, embora vivam de exorcismos teatrais e extorsão, trocando dízimos e patrimônios dos fiéis por uma porta para o céu.

O presidente da escola de samba, Wallace Palhares, mostrou o seu lado brincalhão ao negar a óbvia semelhança. “Eu não fiz o prefeito. Se ficou parecido, lamento, até porque ninguém nunca viu o diabo para comparar. Pode ser algo que tenha ficado no subconsciente, mas acho que é mais uma ilusão de ótica com o ‘pai da mentira’”. Subconsciente? Ilusão de ótica? Sen-sa-ci-o-nal. Depois falou sério. “A arte não é para os covardes e carnaval é para a liberdade artística.” Mais sincero, o diretor de carnaval da escola, Hugo Júnior, admitiu: “É o prefeito. O objetivo é fazer uma crítica política à desvalorização do carnaval por parte dele. Temos que defender nosso carnaval. Era para ser uma surpresa, mas vou me reunir com o presidente da escola e vamos decidir ainda o que vai ser feito, mas a princípio a escultura vai estar na avenida sim”, na sexta-feira, 1º de março.

A Prefeitura do Rio disse, em nota, que “respeita a liberdade de expressão e não vai se manifestar” sobre o fato. Se Crivella passou longe do sambódromo nos anos anteriores, e nem se dignou a participar da tradicional cerimônia de entrega da chave da cidade ao Rei Momo, esse ano não há dúvida: vai fazer um retiro em algum templo da IURD. Haja exorcismo.

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