O chute de Salles no caixão de Chico

Eu era jornalista com um ano de profissão quanto Chico Mendes foi assassinado. Era 22 de dezembro de 1988, exatamente uma semana depois dele completar 44 anos. Eu tinha 21. Poucas coisas marcariam ao longo de toda a vida aquele jovem repórter. Líder seringueiro, Chico foi executado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa, em Xapuri, no Acre, quando saía pra tomar banho. Uma morte anunciada. Chico não era só um líder sindical. Já em 1988, nos confins da Amazônia, Chico era reconhecido internacionalmente e chamado de ecologista e de ambientalista, termo que até hoje se aplica a muito pouca gente nesse país. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Acre, Chico levara os olhos do mundo para dentro da selva – não como turistas num safári, mas denunciando a terrível devastação na ecologia amazônica em nome do desenvolvimento econômico, em uma região de fronteira agrícola. Esses temas que hoje parecem fora de moda para o novo governo. Ecologia. Meio Ambiente. Preservação. Reforma Agrária. Chico tornou-se um incômodo para fazendeiros e desmatadores. Foi eliminado, assim como, em 2005, seria Dorothy Stang, a Irmã Dorothy, religiosa norte-americana naturalizada brasileira assassinada em em Anapu, Pará, por defender quem não tinha voz na floresta. Na noite de segunda-feira, 11, no programa Roda Viva – sim, ainda existe -, um sujeito que desonra o cargo de ministro do Meio Ambiente, tentou tirar de Chico o que lhe resta: sua lembrança, sua história, seu legado.

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O ministro “almofadinha” tenta desqualificar o herói ambientalista. Talvez o melhor cargo para Ricardo Salles fosse porta-voz da UDR, onde poderia defender o desmatamento sem limites e o “afrouxamento” das leis ambientais e mostrar que desconhece conceitos como ‘causa’ e ‘caráter’

Só isto bastaria – se já não houvesse tantas outras razões – para que Ricardo “Almofadinha” Salles fosse demitido. Com um chute no traseiro. Mas Salles periga ganhar uma menção honrosa em alguma assembléia legislativa ou um elogio do youtuber ancião Olavo de Carvalho. Para quem não viu a cena, recomendo que veja e reveja – prometo que não precisa se torturar com a entrevista inteira. Assista apenas o competente jornalista Ricardo Lessa, por sinal um sujeito que entende de meio ambiente, perguntar ao atônito ministro, com seu terninho bem cortado e seu óculos fashion, e arrancar-lhe a seguinte frase: “Olha, eu não conheço o Chico Mendes, e tenho um certo cuidado de falar sobre ‘coisas’ que eu não conheço”, disse Salles, ponderando que é preciso pesar a versão do “pessoal do agro”, que diz que “o Chico Mendes não era isso que é contado”. Cristina Serra, outra fera do jornalismo, quis saber o que o “pessoal do agro” dizia de Chico. Sem o menor escrúpulo, Ricardo Salles chutou o caixão. “Que Chico Mendes usava o seringueiro para se beneficiar. (…) Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?”, perguntou o fundador do movimento Endireita Brasil. Faltavam três minutos para acabar a entrevista, o ministro falava de sua primeira viagem à Amazônia. Espero que seja recebido por alguns seringueiros que o lembrem quem é Chico Mendes.

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