“Marighella” é o novo “Aquarius”

Engraçado como o tempo passa. No inocente maio de 2016, a equipe de “Aquarius”, liderada pelo diretor Kleber Mendonça Filho e pela atriz Sônia Braga, protestou contra o impeachment de Dilma Rousseff durante a estreia do filme em Cannes. “Um golpe ocorreu no Brasil”, “Resistiremos” e “Brasil não é mais uma democracia” eram alguns dos cartazes que o cineasta e sua equipe seguravam no tapete vermelho, antes de voltar a se manifestar ao grito “Fora!” na sala do Grande Teatro Lumiere, minutos antes da projeção. Os gringos não entenderam nada, e continuam sem entender. Quem tem que entender é a gente. E como o país precisou naquele momento de Sônia, Cravo e Canela, hoje precisa de gente como Wagner Moura que, ligada a máquina do tempo, quase três anos depois, um Temer e um Bolsonaro no meio, lançou em Berlim “Marighella”, filme sobre o revolucionário brasileiro assassinado durante a ditadura militar, que, queiram ou não os arautos do “Essa porra não adianta nada mesmo”, já virou um simbolismo de algum tipo de resistência, algum tipo, desse governo militar-fascista que se instalou pelo voto de cabresto-fake news no Planalto.

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“Aquarius”, 2016, Cannes – Da esquerda para a direita, Maeve Jinkings, Sonia Braga, Carla Ribas, Kleber Mendonça Filho e Humberto Carrão protestam contra o impeachment da presidente Dilma no Festival de Cannes; “Marighella”, 2019, Berlim – Wagner Moura ao lado de Maria Marighella (direita), neta de Carlos Marighella, no último filme na seção oficial do Festival de Berlim.

Não vi, obviamente o filmes, não estou – e certamente o verei. Não espero que a produção ajude a combater uma versão da história brasileira que afirmam ser propagada pelo presidente Jair Bolsonaro, não me iludo. Mas sei que o drama, filmado antes da eleição presidencial do ano passado, sirva pra pelo menos manter uma trincheira onde possamos estar, não importa quantos somos. Como modestamente esse blog pretende ser, uma mini-trincheira, para quem quiser aliviar seus ódios e intestinos. O diretor Wagner Moura disse que o filme é, ainda assim, uma resposta artística ao cenário no qual Bolsonaro foi eleito, e eu acredito nele. Acreditei mais ainda quando posou em Berlim com a placa de rua que tornou-se o símbolo de resistência, “Rua Marielle Franco”, vereadora negra como Marighella, que morreu da mesma forma nas mãos de agentes do Estado – no caso dela, o estado paralelo da milícia, tolerado pelo poder público.

O filme retrata um grupo clandestino liderado por Carlos Marighella, interpretado por Seu Jorge, cujo objetivo é estimular a resistência informando o público sobre atos de tortura e assassinatos perpetrados por um governo que usa o controle da mídia para manter seus crimes em segredo. Wagner Moura disse que o filme tem uma missão semelhante – derrubar uma narrativa que retrata os defensores da ditadura como heróis e apaga a história da resistência. “(Bolsonaro) tem elogiado torturadores, ele tem elogiado a ditadura… as pessoas estão começando a dizer que o golpe de Estado de 1964 foi na verdade o ‘movimento’ de 1964”, disse Moura a repórteres.

O Brasil foi governado por militares durante 21 anos, a partir de 1964. Um relatório de 2014 da Comissão Nacional da Verdade revelou que centenas foram mortos ou desapareceram durante a ditadura, e que milhares foram presos. Capitão da reserva do Exército reformado, o presidente Jair Bolsonaro tem expressado abertamente a admiração dele pela ditadura. Ele admira o torturador condenado Brilhante Ustra- ele e seus filhos. A produtora de “Marighella”, Andrea Barata Ribeiro, disse que ainda é incerto quando, ou até se, o filme será amplamente lançado no Brasil, e que obstáculos financeiros podem ser tão significativos quanto qualquer resistência política à produção. “Se necessário, faremos um lançamento independente do filme por meio de crowdfunding.” Contem comigo.

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