Venezuela, nossas Malvinas

“A partir das 20h de hoje, quinta-feira, 21 de fevereiro, fica fechada total e absolutamente, até novo aviso, a fronteira com o Brasil. Vale mais prevenir do que lamentar.”
Nicolas Maduro, chefe de Estado venezuelano, no canal estatal VTV.

“Os militares não começam as guerras. Os políticos começam as guerras”
William Westmoreland, general do exército dos Estados Unidos, comandante das tropas norte-americanas na Guerra do Vietnã, entre 1964 e 1968

No começo dos anos 80, com a ditadura sanguinária fazendo água, o regime de exceção da Argentina decidiu meter o país num vergonhoso conflito com o Reino Unido pelo controle de um pequeno arquipélago no Atlântico Sul, as ilhas Malvinas – conhecidas em inglês como Falklands. A Grã-Bretanha ocupa e administra as ilhas desde 1883, mas nossos hermanitos de farda, cujo litoral fica só a 480 quilômetros do lugar, nunca aceitaram esse domínio. Aproveitando essa briga histórica, o ditador argentino Leopoldo Galtieri lançou a tal invasão às ilhas em 1982. No dia 2 de abril daquele ano, as tropas argentinas tomaram a capital das Malvinas, Stanley. O frenesi patriótico com que Galtieri* esperava unir o país não veio, e a Grã-Bretanha enviou ao local 28 mil combatentes – quase três vezes o tamanho da tropa rival – e escorraçou a Argentina do local. Com o fiasco nas Malvinas, o regime militar argentino afundou e foi substituído por um governo civil. O débil governo Bolsonaro, que em menos de dois meses já foi tosquiado pelos fatos, resolveu, ao seu jeito, criar suas Malvinas. Com uma política externa inconsequente, da América do Sul ao Oriente Médio, ancorada numa total subserviência aos interesses norte-americanos – que veem nas reservas de petróleo de Venezuela e Brasil – olha o Pré-Sal aí, gente! -, a saída para sustentar sua retomada econômica -, e tendo à frente gente com o nível de indigência intelectual de Ernesto “No Che” Araújo e seu tutor Olavo “Youtuber” de Carvalho, a família Bolsonaro empurra as Forças Armadas, hoje dominantes na Esplanada diante de civis toscos, para um conflito que sabe como começa, mas não tem ideia como vai sair.

Se o Brasil cometer a heresia de servir de bucha de canhão, e entrar militarmente na Venezuela – o que o vice-presidente Hamilton Mourão descarta completamente – teremos nossas Malvinas. E podemos estar provocando uma guerra muito maior – e isso não é heresia. Se contra a Venezuela estão os mesmos Estados Unidos e Grã-Bretanha que lutaram pelas inestimáveis Malvinas, do lado oposto estão Rússia e China, que apoiam o regime de Maduro. Uma grande potência do Norte já deveria ter aprendido com seu Vietnã. Aliás, se aprendeu foi a mandar os cucarachas de pele bronzeada no pelotão da frente.

Depois de dois meses conspirando com Washington e seus demais asseclas no continente, hoje tomado pelo pior da direita latino-americana, Bolsonaro – que deve se achar uma reencarnação de Sun Tzu, Napoleão ou Alexandre Magno – está pronto para arriscar o país, se as Forças Armadas toparem – numa pixotada de enormes proporções. Um dos últimos atos, a entrada de ajuda humanitária” na Venezuela via Roraima – um teatro que só serve para ajudar a derrubar o presidente Nicolas Maduro e extirpar o bolivarianismo, servindo como pretexto para um ataque por tabela dos Estados Unidos contra o país com as maiores reservas de petróleo do mundo – levou Maduro a anunciar que estava fechando na noite desta quinta, 21, as fronteiras com o Brasil. Grave? Gravíssimo.

O presidente venezuelano também considera o fechamento da fronteira com a Colômbia. A Venezuela já começou a mobilizar tropas e tanques de guerra para a fronteira entre seu país e o Brasil, um dos que reconheceram o auto-proclamado governo do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó. O governo americano já anunciou que o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, viajará para a Colômbia na segunda-feira, 25, para reforçar o apoio do governo de Donald Trump a Guaidó, em sua disputa de poder com Maduro. “O vice-presidente declarará claramente que chegou a hora de Nicolás Maduro se afastar”, afirma a assessoria de Pence em um comunicado.

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O Vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence – evangélico, conservador e republicano, não necessariamente nesta ordem -, o homem cuja missão é derrubar Maduro.

O texto afirma ainda que o vice-presidente participará na Colômbia de uma reunião do Grupo de Lima, criado em 2017 para promover uma saída para a crise venezuelana – ou seja, a saída de Maduro. Na prática, Bolsonaro, até agora com o joinha dos nossos comandantes militares, iniciou operações com EUA e Colômbia, previstas para começar no próximo sábado, cujo propósito nada oculto é derrubar o governo Maduro. Não feliz em patrocinar um golpe interno, que resultou no governo Michel Temer, os políticos do Brasil agora querem exportar a tecnologia, associados a quem mais entende de intervenções geopolíticas, responsável, não por acaso pelo golpe de 1964 que Bolsonaro e sua claque civil e militar venera. Não se trata a essa altura de defender Maduro, que vem se mostrando um presidente ruim – mas foi eleito democraticamente. Mas em respeitar a livre determinação dos povos. Só o povo venezuelano pode tirar Maduro do poder.

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O S-300VM é o grande guarda-chuva do sistema de defesa aérea venezuelano. Pode-se dizer que é o que tem mantido vivo o Regime Chavista e o Governo Maduro.

Em tempo: se o site DefesaNet não tiver pirado, o governo Maduro posicionou o Sistema de Mísseis de Defesa Aérea S-300VM próximo à fronteira com o Brasil. É a segunda ação após anunciar o fechamento da fronteira com o Brasil. Segundo o site, a posição onde o sistema S-300 foi posicionado é a região do Aeropuerto de Santa Elena de Uairén, que dista da cidade fronteiriça de Pacaraima, Estado de Roraima, cerca de 11km. A Venezuela possui 3 Sistemas de Defesa Aérea S-300, que inclui lançadores, sistemas de radares e apoio. Trazer um sistema estratégico tão valioso para uma posição de fronteira, caso isso seja verdade, torna Cabo Daciolo, já nas montanhas a essa altura, o único a salvo. Glória a Deuxxx!

* Galtieri foi substituído pelo general Reynaldo Bignone, que ficou seis meses no cargo até devolver o poder aos civis (condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, o último ditador morreu ano passado).

 

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