Como Bolsonaro arrancou as divisas e rebaixou as patentes de seus generais usando um astrólogo desqualificado

“Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por informações minhas, que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se atrás de um doente preso a uma cadeira de rodas”.
Olavo de Carvalho, na boquinha da garrafa, ao referir-se a um ídolo da caserna, o general Villas Bôas, ex-comandante do Exército, que sofre de esclerose lateral amiotrófica, e hoje é assessor do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.

Um membro das Forças Armadas não pode regredir de patente, nem que seja de um posto não remunerado para um com salário. Mas Jair Messias conseguiu, na Presidência, depois de cercar-se de generais para blindar-se diante da opinião pública – e publicada -, humilhar de tal forma esses oficiais que suas divisas descolaram dos ombros e suas patentes hoje valem menos do que a do capitão reformado. Para isso não precisou mexer um dedo – nem fazer arminha. Bastou transformar em ministro sem pasta, e além-mar, o astrólogo tatibitati Olavo de Carvalho, que, depois de cinco meses de governo, fez um estrago tão grande que a chamada “ala militar” do governo parece hoje atônita, incapaz de reagir a algo até há pouco tempo básico: fazer a defesa dos interesses de sua tropa. A forma como os alta patentes baixaram a cabeça para o corte de 44% de seus orçamentos, R$ 5,8 bilhões do orçamento da área – só menor do que o corte previsto na Educação, de R$ 7,3 bilhões – só pode revelar resignação ou perplexidade.

O “filósofo” que passou a ser chamado pela mídia de “ideólogo” – “aquele que se atém excessivamente a ideias abstratas, a teorias, em prejuízo dos fatos e realidades” – tem, afinal, licença para matar. Em seus vídeos, posts ou tuítes, dispara dia e noite xingamentos e palavrões, os mais baixos, contra os generais de Bolsonaro. É um massacre autorizado. Nada contra Moro “Conge”. Ou Guedes. Ao contrário, elogios ao “Posto Ipiranga”. Em um dos pontos mais rasteiros de seus ataques de escrivaninha, aquela onde repousam seus cotovelos quando grava seus vídeos, entre baforadas no charuto, em sua casa em Richmond, Virgínia, Olavo acusou todos os seus alvos anteriores – os generais Augusto Heleno, Alberto Santos Cruz e Hamilton Mourão – de “esconder-se atrás de um doente preso a uma cadeira de rodas”, referência direta ao general Villas Bôas, ex-comandante do Exército, e que recentemente somou-se aos demais para tentar responder dignamente aos ataques torpes. Villas Bôas sofre de esclerose lateral amiotrófica. Parecia uma boa estratégia. Um militar cima de qualquer suspeita calaria de vez o astrólogo falastrão. A questão, no entanto, não é os militares deixarem-se ofender ou reagirem timidamente, a um desqualificado. É Bolsonaro deixar. E incentivar  a sova diária. E isso já está mais do que evidente.

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Como explicar que o homem que mais nomeou militares para o governo na história, ultrapassando até os próprios regimes militares, permita isso? Súbita aversão aos próprios soldados? Desde que assumiu, como vinha sinalizando na campanha e durante o governo de transição, Bolsonaro apinhou a Esplanada de fardados. O movimento, que ainda é crescente, espalhou oficiais da reserva das Forças Armadas por posições estratégicas e mesmo setores onde historicamente estavam fora, como a área portuária, controlada pelo MDB, e cargos na área ambiental, mais ligada à esquerda – casos do Ibama do e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio). Levantamento feito pelo Estado de S.Paulo em março – portanto, dois meses atrás, já contabilizava pelo menos 103 militares na lista dos cargos comissionados de ministérios, bancos federais, autarquias, institutos e estatais, entre elas a Petrobrás. Hoje certamente se aproximam de duas centenas de militares, impregnados pela máquina estatal.

No primeiro escalão, entre os 22 ministérios do governo Bolsonaro, seis deles foram imediatamente ocupados por membros do Exército, além do vice Hamilton Mourão. A Augusto Heleno e Alberto Santos Cruz somam-se Fernando Azevedo e Siva, na Defesa, o almirante Bento Costa Lima Leite, nas Minas e Energia, e Marcos Pontes, na Ciência e Tecnologia. Com o tempo, no entanto, percebeu-se que os verdadeiros generais de Bolsonaro não usam farda, nem precisam de cargo formal: são seus três filhos Carlos, Eduardo e Flávio, e o coringa Olavo. Eles criaram até uma narrativa: os militares, aquinhoados com frações do poder, traíram o chefe. Parecem dizer, parodiando Beth Carvalho, “você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão”. Mas não há traições, apenas uma ideia abstrata de Olavo de que os militares deixam Bolsonaro se estrepar na mídia  e que Mourão teria uma volúpia exagerada pelo exercício do poder.

Atribuir a tolerância de Bolsonaro com Olavo a uma dubiedade, negligência, imperícia, ou desonestidade intelectual do capitão da reserva, apoiado desde a campanha pela cúpula das Forças Armadas, é subestima-lo. Ele parece saber bem o que faz. Rebaixa seus generais pelas palavras de Olavo. E conta com a obediência, ensinada na caserna, para manter a âncora militar, que tem hoje o mesmo peso da âncora econômica, entregue ao Posto Ipiranga – e dependurada na Reforma da Previdência. O filósofo de quinta categoria faz o que faz combinado com Bolsonaro, como o fazem seus filhos, vendidos como animais políticos descontrolados, mas que sabem muito bem até onde podem ir. O John Wayne de Richmond, assim como o trio Moe, Larry e Curly-Joe, é hoje útil ao capitão, inclusive em seu desprezo encenado pelas Forças Armadas. E ganhará o sinal verde para continuar rosnando enquanto isso tiver serventia.

 

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