E Saad peitou o desmanche de empresas brasileiras chamado Lava Jato

“Antes de você prender uma pessoa, investigue. Busque provas, comprove aquilo. E depois você prende. Senão você vai destruindo carreiras, profissões, nomes, empresas, setores”.
Johnny Saad, presidente do Grupo Bandeirantes, a empresários, em crítica à Lava Jato

Não se sabia de onde partiria o petardo, nem seu efeito, mas sabia-se que ele seria disparado, mais cedo ou mais tarde, vista a situação econômica caótica do país – e a absoluta falta de propostas de saídas para a crise. São 13 milhões de desempregados. Mais de 3 milhões de brasileiros sem emprego há mais de dois anos – mulheres e adultos com mais de 40 anos os mais prejudicados. Pedreiros e estivadores, mas muitos engenheiros, petroleiros, economistas, geólogos. Demorou. A Lava Jato mostrou-se tóxica ao empresariado nacional. O empresariado mais progressista, acocorado, preferiu ficar mudo, até agora, vendo seus colegas do varejo de direita dominarem a narrativa. Gente como os Neros do Instituto Brasil 200, lançando chamas sobre a Roma tupiniquim, gente da estirpe de Flávio Rocha, da Riachuelo, Luciano Hang, o cabeça de prego da Havan, e João Appolinário, da Polishop. Apoiadores de Bolsonaro e de sua redenção. Gente pra quem Bolsonaro é mito, Moro é “patrimônio nacional” e a Lava Jato é inquestionável, não importa seus muitos “deslizes” em nome de extirpar o PT do poder, visto como “inventor” da corrupção na política nacional.

O depoimento do juiz de Maringá na CCJ mostrou o medo de políticos, mesmo da oposição, de criticar a Lava Jato que, para ficar na analogia, tornou-se com o tempo em um autêntico desmanche de empresas brasileiras, com Moro como o Rei da Sucata. E os políticos se acovardaram – o depoimento de Moro não virou atoa um circo de pulgas. Críticas agora parecem soar parciais, tardias, retaliatórias. Afinal, prenderam Lula e o tiraram do pleito de 2018, elegendo o capitão reformado que agora nomeia até major PM amigo dos filhos para a Secretaria de Governo. Jornalistas independentes, que moral tem? Mesmo o The Intercept, e o crítico de fora com maior visibilidade, Reinaldo Azevedo, que, na Bandnews FM, montou um pool com o site de Glenn Greenwald e equipe para vocalizar as descobertas da Vaza-Jato que a grande mídia quase ignora, que força tem? Criticar o modus operandi da Lava Jato montado por Serio Moro e Deltan Dallagnol, Carlos Fernando dos Santos Lima e companhia, não é mesmo fácil, com hacker, com Telegram, com tudo. São vacas sagradas.

Mas aí veio Johnny Saad e disse a um grupo de empresários o que significou a Lava Jato para a economia brasileira. E para a reputação de muitas pessoas. Saad tem seus motivos para dizer isso – e dizer isso agora. Assim como a Folha de S.Paulo para se aliar ao The Intercept, a partir deste domingo, 23, e publicar matérias casadas. Também tem seus motivos os Frias, mas, para mim, importa que estejam falando e não se juntando ao coral de mudos. Nesse caso, foi em evento fechado realizado pelo canal BandNews com empresários brasileiros na segunda-feira, 17 – e que, claro, passou despercebido da grande mídia -, que o dono do Grupo Bandeirantes afirmou, deixando alguns queixos caídos, que o combate à corrupção não pode “destruir empresas nacionais”. Saad destacou que a crise no Brasil não é resultado “só de problemas econômicos” e criticou a atuação da Lava Jato. “A elite que está aqui sentada, com o Poder Judiciário, com o poder Legislativo, com a CGU”, encarou Saad, “tem instrumentos para que possa se revolver isso. […] [Para] nós voltarmos a como era antigamente: antes de você prender uma pessoa, investigue. Busque provas, comprove aquilo. E depois você prende. Senão você vai destruindo carreiras, profissões, nomes, empresas, setores”, disse Saad.“Nenhuma das empresas internacionais que se envolveu no escândalo da Petrobrás ou em outros escândalos foi destruída. Penalize quem fez, mas não se penalize a empresa”, completou.

Não precisava citar nomes, mas usou como paradigma a Odebrecht, que recém-apresentou a maior solicitação de recuperação judicial já realizada no Brasil. O valor total das dívidas listadas atingiu R$ 98,5 bilhões. Desde que se viu envolvida nas investigações da Operação Lava Jato, em 2015, a Odebrecht viu seu quadro de funcionários se reduzir em cerca de 80% e sua receita bruta cair cerca de 20%. Tinha 276 mil trabalhadores, em 2015, incluindo funcionários e terceirizados, e no documento mais recente, pouco passava de 50 mil integrantes. Dezenas de empresas de fora do Brasil foram citadas em delações premiadas de ex-executivos das empreiteiras brasileiras e da Petrobras, incluindo alguns nomes famosos, mas o impacto sobre elas não se compara. Alguém tem notícias sobre caos na sul-coreana Samsung Heavy Industries, na sueca Skanska, na italiana Techint ou na holandesa SBM Offshore, que fornecia navios-plataforma para a Petrobras e tinha contratos no valor de 27 bilhões de dólares? Maersk, Jurong, Kawasaki, Keppel Fels, Mitsubishi, SBM, Sembcorp Marine, Mitsui, Toshiba, Sargent Marine, Astra Oil, GB Marine, Trafigura, Glencore, Ocean Rig, Sevan, Rolls-Royce. Alguém faliu? Quantos empregos se perderam? Foram todas fartamente citadas na Lava Jato de Moro. Parece, porém, que o propósito lá fora, sem o estrelismo de um juiz de primeira instância mancomunado com a politicalha local, era simplesmente apurar corrupção, não destroçar empresas e partidos. E quase virar, ela mesma, um partido.

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