A ‘pegadinha’ de Bolsonaro

Para quem se escandalizou com a Fantástica Fábrica de Fake News montada pela comunicação de Jair Bolsonaro, especialmente entre o final do primeiro turno e o segundo turno da campanha eleitoral, que deu a vitória ao capitão, prepare-se para as notícias que trago. Ao crime eleitoral, denunciado pela Folha de S.Paulo e ignorado pela Justiça Eleitoral, junta-se falsidade ideológica, empulhação, engodo, enganação eletrônica escancarada do eleitor. O empresário carioca Paulo Marinho – suplente do senador eleito Flávio Bolsonaro, mas mais conhecido como ex-marido de Maitê Proença – é um dos principais nomes na órbita do presidente eleito. A casa de Marinho, 66 anos – suspeito na Justiça de ocultar patrimônio milionário em nome de parentes -, no bairro carioca do Jardim Botânico, foi usada para gravar programas eleitorais durante a campanha e serviu como sede para a primeira reunião de transição, antes do convento das carmelitas descalças se mudar para Brasília. Até aí, morreu Neves. Um personagem novo, porém, é André Marinho, filho do Paulo Marinho, dono de um blog de “humor a favor”, recomendado em vídeo pelo próprio Bolsonaro (“Canal André Marinho. Siga, compartilhe, inscreva-se e curta”), fazendo imitações supostamente engraçadas do presidente eleito. É difícil diferenciar a voz de Bolsonaro e de André, de tão idênticas. Ele é realmente talentoso. André, porém, foi mais longe para ajudar a eleger o amigo do pai.

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André Marinho, em seu blog, com óculos de realidade virtual e bandeira do Brasil ao fundo, e um cacho de bananas em cima de uma prancha de surf, imitando fuzilar adversários políticos: “Peguei a Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) aqui, peguei. Acabei de passar na gruta da Gleisi. Agora a próxima fase é o pântano do Guido Mantega”.

Em um vídeo que vazou em grupos de Whatsapp – santa ironia -, André aparece entre dois membros do grupo de direita, Movimento Brasil Livre (MBL) – supostamente o autor da gravação, não se sabe se para dar oficina de picaretagem ou o quê -, Kim Kataguiri, eleito deputado federal pelo DEM, e Arthur Moledo do Val, o “Arthur Mamãe Falei”, eleito deputado estadual no Estado de São Paulo -, confessando que, com conhecimento da família Bolsonaro – ele cita o senador eleito pelo PSL, Flávio Bolsonaro, que chegou a ser banido do WhatsApp por “comportamento de spam” – imitava Jair Bolsonaro em grupos de Whatsapp. O que confirma o esquema de contratos para disparos de centenas de milhões de mensagens com empresas como Quickmobile, a Yacows, Croc Services e SMS Market. Junto com os amigos MBL, entre gargalhadas e olhares de admiração, ele se vangloria de ter enganado eleitores e, exagerando, claro, de ter feito “milhares de áudios”, inclusive para os garimpeiros de Serra Pelada, um “reduto petista” – de onde ele tirou isso? “Devo ter virado uns 50 mil votos”, diz André, o imitador. Bom, o vídeo dispensa maiores detalhes. Apenas assista. Era só uma brincadeira? Deixemos a Justiça Eleitoral decidir. Eu sei o que vi.

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Paulo Marinho, Jair Bolsonaro e André Marinho, em momento feliz. Amigos que enganam eleitores unidos, permanecem unidos.

Paulo Marinho é dono de uma consultoria empresarial, a Carmo Consultoria. A proximidade com a família Bolsonaro, como já mostraram veículos, como a insuspeita revista Exame, da Abril, aconteceu por intermédio do então presidente do PSL, Gustavo Bebiano, de quem Marinho é amigo há mais de 30 anos. Eles trabalharam juntos nos anos 2000 no Jornal do Brasil, quando este era comandado por Nelson Tanure. Marinho era o vice-presidente e Bebiano o diretor jurídico. Seu filho, André Marinho, é presidente do braço jovem do Lide (Grupo de Líderes Empresariais), grupo criado em 2003 por João Doria, eleito governador de São Paulo. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, o empresário é conselheiro informal do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB).

O filho de Paulo Marinho, 24 anos, é um bom imitador de Bolsonaro, vamos admitir, chegando a traduzir a conversa entre o presidente eleito e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, no domingo, 28 – dias depois de ter feito um quadro com uma imitação da cena. Flávio Bolsonaro, com o pai ao fundo, até gravou um vídeo para sua campanha ao Senado – que não se sabe se foi levado ao ar, mas está no Youtube – com o Tom Cavalcante de araque. Resta saber se a Justiça Eleitoral vai achar engraçado também.

Ditador Bolsonaro quer fim do MEC e reitores biônicos nas universidades federais. Militar psicopata xinga e ameaça presidente do TSE. Doria cai na Pegadinha do Malandro

Está enterrado há oito anos em um cemitério de Brasília, com uma lápide queimando com fogo fátuo, o Capitão de mar e guerra José Carlos de Almeida Azevedo, último reitor biônico da Universidade de Brasília, indicado pela ditadura. Meu primeiro ano como estudante de Jornalismo na UnB teve esse verme como reitor. Felizmente, meu diploma não foi assinado por ele. Preposto do regime entre 1976 e 1985, com a universidade em ebulição democrática, Azevedo permitiu, por exemplo, que a Polícia Militar invadisse o campus da UnB para inibir uma greve estudantil. Reitores biônicos eram um dos símbolos da ditadura e do enterro da educação. Nos subterrâneos de um hotel em Brasília, a equipe que prepara o plano de governo do Coiso tem em mãos o calendário de escolhas dos reitores das universidades federais e um estudo sobre quem é quem nas instituições de ensino superior para servir de análise. A ideia: acabar com a escolha dos reitores pelas comunidades acadêmicas e retomar os reitores biônicos. Bolsonaro quer ir mais longe. Acabar com o Ministério da Educação. Se a reação for grande, vai colocar ali um militar na linha do general quatro neurônios Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para a educação em um eventual – vade retro – governo Bolsonaro. Entre outras boçalidades, ele defende queimar livros, recontar a história da ditadura de 64 e ensinar criacionismo nas escolas públicas.

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Equipe do ultradireitista Bolsonaro planeja acabar com o Ministério da Educação e escolher reitores das universidades federais. Auxiliares do candidato, que trabalham nos subterrâneos de um hotel em Brasília, propuseram ao Coiso que, uma vez eleito, não escolha o primeiro da lista e encontre um biônico, de preferência fardado

“Optam por manifestar ódio visceral e demonstrar intolerância com aqueles que consideram inimigo. Tem incapacidade de conviver com harmonia no seio de sociedade fundada em bases democráticas. Todo esse quadro imundo que resulta no vídeo, longe de traduzir liberdade de palavras, constitui corpo de delito com ofensas”.
Ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal

As cadelas fascistas de Bolsonaro, Mourão e demais tarados por torturadores seguem em seu cio antidemocrático há poucos dias do pleito. Nas redes sociais e grupos de whatsapp dissemina-se o ódio e prega-se a violência. Uma dessas bestas feras, um homem identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves não se deu ao trabalho de esconder o rosto e limpar a baba ao gravar e postar um vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber – numa clara tentativa de intimidação. Coisa que, por sinal, Bolsonaro e família têm feito diretamente. No vídeo, Alves chama Rosa Weber de “vagabunda” e afirma que, se o TSE aceitar ação contra seu candidato de extrema de direita irá sofrer as consequências. “Se aceitarem essa denúncia ridícula e derrubarem Bolsonaro por crime eleitoral, nós vamos aí derrubar vocês aí, sim”, diz o vídeo.

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O STF vai fazer o mínimo: investigar as agressões de um militar boçal que gravou um vídeo babando ódio e ameaçando e xingando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, tentando intimida-la caso barre a candidatura do ogro Bolsonaro

Dessa vez, nossas Cortes, omissas até a medula desde o início do processo eleitoral, ajudando a criminalizar Lula e o PT, única alternativa democrática à onda fascista, não ficaram só no declaratório – ainda que se destaque a fortíssima frase do decano Celso de Mello, sempre contido, atacando o que sempre esteve visível: o “ódio visceral” e a “intolerância (dos bolsominions) com aqueles que consideram inimigo”. A Segunda Turma do Supremo aprovou, por 5 votos a zero, requerimento para que a Procuradoria Geral da República investigue o vídeo do coronel Alves, parasita da democracia, que esquece quem paga seus soldos, o povo.

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“A cadela do fascismo está sempre no cio”,  escreveu Bertolt Brecht. Uma dessas cadelas alimentadas pela onda Bolsonaro, identificado como coronel da reserva do Exército Carlos Alves, grava e posta vídeo proferindo insultos à presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber. Besta sem culhões.

O PT havia pedido ao TSE para declarar o candidato do PSL à Presidência inelegível por oito anos, sustentado pela descoberta pela Fantástica Fábrica de Fake News montada pela engenharia suja do capitão, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo. O jornal relata casos de empresas apoiadoras de Bolsonaro que compraram pacotes de disparo de mensagens contra o PT por meio do WhatsApp. Essa prática é ilegal por ser evidência clara de doação de campanha feita por empresas. Desde 2015, empresas estão proibidas de fazer doação eleitoral. Segundo o jornal, as empresas apoiadoras de Bolsonaro compram um serviço chamado “disparo em massa” usando a base de usuários do candidato do PSL ou bases vendidas por agências de estratégia digital.

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A piada do dia tem botox “Sex tapes” que colocam João Doria, absorto, numa suruba com algumas “modelos” contratadas – só assim -, fez o candidato ao governo de São Paulo gravar vídeo no Instagram. Não, ele não se retratou. Ao lado da mulher Bia, negou que seja o cidadão quase desfalecido na cama com as beldades remuneradas. Geração de emprego?

Sex Tapes e Doria – E o que qualquer assessoria recomendaria a um candidato envolvido num suposto escândalo de “sex tapes”, sem que ninguém tenha certeza se é ele mesmo que aparece no vídeo? Não fale do assunto se não for absolutamente essencial, senão promoverá a suposta infâmia (Doria nega que seja ele o personagem masculino deitado na cama, meio desanimado, em meio a uma suruba com “modelos”). Não, Doria, que idolatra os americanos, copia até o padrão (equivocado) dos gringos de lidar com crises como essas. Ao lado da mulher, calada, semblante fechado, nega veementemente que seja o homem no vídeo que viralizou. E, claro, culpou o PT. “Essa baixaria é obra daquele que vai à missa sendo ateu, joga fora a Bíblia que recebeu de presente de um desavisado e que recebe ordens de um corrupto, ladrão e presidiário! FORA PT”, escreveu. Virou fenômeno de compartilhamentos e menções nas redes sociais. “Doria” e “João Doria” foram parar no trending topic do Twitter mundial. Bom ou ruim para o candidato? Nesse país, difícil dizer. Pode ganhar pontos pela exuberância das divas, mas perder pela flacidez de seu comportamento. Por razões sentimentais não postaremos os vídeos – você vai achar ou já recebeu pelo whatsapp. Fique com o “pronunciamento” consternado de Doria, fritando de ódio a ponto de derreter o botox.

Rei morto, rei posto. Depois de Alckmin, Temer reclama do abandono de outro tucano ex-aliado, João Doria

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Temer foi ao Twitter gravar um vídeo e, entre caras e bocas, reclamar do candidato João Doria, que o elogiava e agora, nas eleições, o critica. “Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade”, pediu. Rei morto, rei posto.

Michel Temer perdeu completamente o senso de ridículo, mas vem cometendo um sincericídio que acaba sendo, involuntariamente, engraçado. Não se sabe se o que o move a essa altura, a poucos meses de deixar o governo, ficar sem mandato e sem foro privilegiado, é um senso incompreensível de defesa de um legado que não existe – existe sim um enorme passivo social e político- ou se está seguindo a sugestão de algum marqueteiro em fim de contrato. O fato é que depois de dar uma bronca no candidato tucano Geraldo Alckmin por estar criticando o seu governo, após ter participado e usufruído dele, Temer agora decidiu fazer beicinho para outro tucano de plumagem mais curta, o candidato ao governo do estado de São Paulo do PSDB, João Doria. Assim como fez com Alckmin, Temer reclama de Doria por ter virado saco de pancada de quem, até há pouco, era um aliado amestrado.

No vídeo postado no Twitter (Assista aqui), intitulado “Desacelera @jdoriajr” – um trocadilho com o slogan de Doria, “Acelera SP” – com a expressividade de quem abusou do botox e trazendo na voz a indignação de um mímico -, Temer jogou na cara de Doria que, quando prefeito de São Paulo, “por brevíssimo tempo”, pediu muito auxílio ao governo federal, e foi prontamente atendido. E que, agora nas eleições, decidiu cuspir no prato que comeu. “Você tem usado a propaganda eleitoral para fazer críticas diretas e indiretas – ou seja, você está se desmentindo, porque ao longo do tempo você inúmeras vezes elogiou o meu governo. (…) Você que tanto me elogiou, que tantas vezes enalteceu o meu governo, não é por causa das eleições que você vai mudar suas características. Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade. Desacelera”, encerrou Temer.

Até o momento em que este artigo foi escrito havia 133 mil visualizações – o que mostra que para um presidente com rejeição de quase 100% e agenda parecida com a de funcionário às véspera das férias -, basta usar o humor, ainda que involuntário, para voltar a ser lembrado. Os comentários ao vídeo são uma piada à parte. “O cara inventou o Marketing de DR”, ironizou um internauta. “HAHAHAHAHAHAHA Presidente esse é o seu maior legado de governo, por favor continue!”, postou outro.

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Em outro vídeo (Assista aqui) , de 05/09, Temer reclamou de Alckmin em tom bem mais duro. No pronunciamento, Temer disse para Alckmin “falar a verdade” e criticou suas “falsidades”, uma vez que as críticas ao governo do MDB são relativas a pastas lideradas por partidos que fazem parte da base de apoio do tucano. “Se você vier a ganhar a eleição, essa base (do meu governo) será a sua base governamental. Eu lembro, Geraldo Alckmin, quando você, candidato a governador, candidato a presidente, nas vezes em que eu te apoiei, precisamente para esses cargos, eu acho que você era diferente. Não atenda ao que dizem seus marqueteiros, atenda a verdade. E a verdade é que nós fizemos muito por essas áreas, conduzidas por aqueles que apoiam a sua candidatura”, disse Temer.

É, Temer, até o fim da eleição você ainda vai ter que pedir a retratação de muitos ex-aliados. Rei morto – ou quase morto -, rei posto.