FHC e sua carta com tinta invisível

Imagine uma briga de rua, onde dedo no olho e joelhada nos, digamos, bagos, são os golpes mais leais. Após algum tempo, só três valentões continuam de pé, dois em melhor estado, todos exaustos. De repente, um conhecido passa e, mantendo uma distância segura, começa uma pregação por paz e união, dirigida a quem jazia no chão. O bom samaritano já observava a cena desde o início, mas achou melhor só se aproximar quando estivessem todos muito cansados para correr atrás dele. Guardadas as diferenças entre a porrada a céu aberto e as eleições presidenciais em curso – desculpem, não resisti à comparação -, o generoso senhor é o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso que, como por encanto, reapareceu em cena – na forma de uma carta – para pedir a união do centro político – aqueles que “não se aliam a visões radicais” – no pleito mais surreal das últimas décadas. Divulgar uma carta dessas quando facada, porrada e bomba já comem soltas, e faltando 17 dias para brasileiras e brasileiros irem às urnas, equivale a escrever o melhor poema da história numa ilha deserta, jogar no mar e ver que, em segundos, a garrafa fora engolida por uma baleia.

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FHC e sua carta para boi dormir. Nem Alckmin levou a sério. (Twitter/Reprodução)

Confesso que cheguei a pensar que se tratava de uma fake news, mas, se for, todos embarcamos nela, o que, na prática, torna a notícia real. Sem citar nomes – para que, né -, FHC pediu um acordo de apoio a quem “melhores condições de êxito eleitoral tiver” — caso contrário a “crise tenderá certamente a se agravar”. O ex-presidente não especifica quem seriam os candidatos moderados, mas não é preciso ser genial para eliminar Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) – os “tais radicais”. Ou como, curiosamente, escreveram Época e IstoÉ em suas matérias de capa, a “polarização” entre o antipetismo e o antibolsonarismo. Deduz-se que a conciliação segundo FHC esteja em Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Henrique Meirelles (MDB) e Alvaro Dias (Podemos). Ciro Gomes (PDT)?. Ele não veste a carapuça. “É muito mais fácil um boi voar de costas. O FHC não percebe que ele já passou. A minha sugestão para ele, que ele merece, é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”, debochou Ciro Gomes, em campanha no DF.

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No dia seguinte ao debate promovido pela CNBB, em Aparecida, Ciro Gomes fez uma visita à Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida. “A minha sugestão para ele (FHC), é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”. (Foto: Reprodução/Twitter)

Mais sutil, Marina Silva disse que “fazer um discurso para que haja uma união e dizer que o figurino cabe no candidato do seu partido talvez não seja a melhor forma de falar em nome do Brasil”. O ex-tucano Alvaro Dias sugeriu, em tom irônico, que o primeiro passo rumo à unificação das forças de centro deveria ser a renúncia à candidatura de Alckmin. Ah, Alckmin elogiou a carta publicada por Fernando Henrique, mas disse que não vai seguir a sugestão do ex-presidente. “Não vou procurar candidatos. A ideia é uma reflexão junto ao eleitorado”, desdenhou o tucano, em campanha em Recife. “A carta de FHC chegou tarde. Ao lado do túmulo da candidatura de Alckmin, enterraram-se as esperanças do ex-eleitorado tucano. No epitáfio, lê-se o seguinte: “Não contem mais comigo”, interpretou o analista Josias de Souza (Leia aqui).

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FHC, no Twitter, depois de divulgar carta no Facebook: tentando explicar o que não deveria exigir explicação

Pouco depois de divulgar o texto no Facebook (Leia aqui), FHC reafirmou no Twitter o apoio a Alckmin. “Enviei carta aos eleitores (oi?) pedindo sensatez e aliança dos candidatos não radicais. Quem veste o figurino é o Alckmin, só que não se convida para um encontro dizendo ‘só com este eu falo'”, tuitou FHC. O candidato do PSDB – embora tenha quase metade do tempo de propaganda eleitoral na TV -, está estagnado nas pesquisas de intenção de voto e não tem conseguido deslanchar para poder brigar por um lugar no segundo turno. Em entrevista na Folha de S.Paulo no dia 02/09, o ex-presidente tucano afirmou que Bolsonaro antecipou a tradicional disputa entre PT e PSDB para o primeiro turno. Alguém mais viu isso?

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Avanço impressionante: Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360  já mostra Haddad tecnicamente empatado com Bolsonaro no primeiro turno. (Foto: Ricardo Stuckert/PT)

Voltando à briga de rua, talvez FHC não estivesse se dirigindo aos moribundos candidatos de centro – mas aos que seguem de pé. Quer dizer, menos Bolsonaro. No mundo real, depois de Ibope e Datafolha, Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360 (Leia aqui), realizada nos dias 19 e 20/09, divulgada na noite desta sexta, 21, indica que Jair Bolsonaro tem 26% das intenções de voto para presidente e permanece na liderança da corrida ao Palácio do Planalto. A novidade é que agora Fernando Haddad registra 22% e já aparece em empate técnico com o capitão. Ciro tem 14%. Os “centristas” de FHC – Alckmin, Marina, Meirelles, Amoêdo e Álvaro Dias somam, juntos, 17%. Votos brancos, nulos e indecisos estão em queda.

Datafolha diverge de Ibope e encolhe Haddad. Só Haddad.

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Haddad concede entrevista a Renata Lo Prete, no Jornal da Globo, e dessa vez consegue falar. Ele reconheceu a importância da figura de Lula na transferência de votos, mas lembrou a força do PT, repetiu que não haverá indulto ao ex-presidente (pauta criada pela mídia)  e disse que desconfia de “dois pesos e duas medidas” nos processos contra o PT e os demais partidos.

Fernando Haddad concedia uma entrevista ao Jornal da Globo – civilizadíssima sob o comando da âncora Renata Lo Prete, sem as interrupções seriais de William Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional, alguns dias antes -, na madrugada de quinta, 20, enquanto o Datafolha vazava nos primeiros minutos do dia sua mais recente pesquisa de intenção de voto para a eleição presidencial. A pesquisa do Datafolha foi feita na terça, 18, e quarta, 19, enquanto a do Ibope, divulgada na véspera, aferiu a intenção de voto do eleitor entre domingo, 16, e terça, 18. Há, portanto, a coincidência de um dia entre as pesquisas, com a vantagem, em termos de atualidade, por assim dizer, para o Datafolha em relação a quarta. Ainda assim, a pesquisa mais recente parece ter um delay em relação à outra – o que certamente será explicado por Carlos Augusto Montenegro e Mauro Paulino como metodologia, conjuntura, etc. Afinal, a margem de erro é a mesma. Fato é que no Ibope não havia mais dúvida e Haddad, subindo em uma semana 11 pontos, alcançava 19%, deixando Ciro estacionado em 11%, praticamente cravando um segundo turno com Bolsonaro (28%). No novíssimo Datafolha, Bolsonaro tem os mesmos 28%, mas Haddad tem 16% e Ciro 13% – portanto, tecnicamente empatados. Entre uma pesquisa e outra, oito pontos de diferença viraram três. Não há diferença significativa entre as duas pesquisas em se tratando dos demais candidatos. Como nenhum fato novo explica um encolhimento de Haddad em um dia, há que se perguntar: quem está errado?

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Imagem postada por Jair Bolsonaro no Twitter. Dessa vez ele não falou, mas procurou passar para o eleitorado uma ideia de progressiva melhora, o que é essencial para que não o vejam como incapacitado e descarreguem o voto útil em Alckmin ou Marina.

Os intervalos das pesquisas não são idênticos – mas são próximos -, e é possível comparar  os espaços de tempo – levando em conta que o Datafolha tem uma pesquisa a mais. No Ibope, Haddad tinha 8% (11/09) e cresceu para 19% (18/09). No Datafolha, Haddad tinha 9% (10/09), data parecida, subiu para 13% (14/09) e, em seis dias, chegou a 16% (20/09). Não bate. Já no caso da rejeição, as pesquisas coincidem. No Ibope, Bolsonaro tem rejeição de 42% e Haddad de 29%. No Datafolha, 43% e 29% respectivamente. A diferença é que no Datafolha Marina tem rejeição maior que de Haddad (32%) e no Ibope menor (26%). Ainda assim, são 6% de diferença entre as pesquisas, acima da margem de erro. Nas simulações de segundo turno, e ficando apenas nos favoritos, o Ibope aponta um empate entre Haddad e Bolsonaro (40% cada) e Ciro (40% e Bolsonaro (39%). No Datafolha, Ciro ganha de Bolsonaro por boa margem, 45% a 39%. E Haddad e Bolsonaro empatam (41%).

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Ibope x Datafolha: repare que o encolhimento expressivo, na pesquisa mais recente, é apenas de Haddad. Alguém vai ter que explicar isso. Arte: Reprodução UOL.

Em outras palavras, pelo Datafolha/TV Globo, Haddad ainda não descolocou de Ciro e Ciro tem mais chance no segundo turno. E vem aí o Vox Populi para desempatar a peleja.

 

O candidato Bonner

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William Bonner parte para o ataque na entrevista-interrogatório com o candidato presidencial do PT. Mais de 60% do tempo ocupado com perguntas, ilações e opiniões. Só ele interrompeu Fernando Haddad 53 vezes.

Não sei qual é o Brasil que William Bonner quer ver, mas certamente não é um em que Fernando Haddad possa responder às suas perguntas. A última da série de entrevistas com presidenciáveis feitas pelo Jornal Nacional (Assista aqui) – abrindo o telejornal e antes que fosse mostrada a pesquisa Datafolha que confirmou o candidato do PT em forte ascensão, já empatado em segundo lugar com Ciro Gomes (mais que triplicando suas intenções de voto de 4% em 22/08 para 13% em 14/09) -, teve jeito de interrogatório. Pior. Dos 27 minutos de entrevista – assisti diversas vezes para cronometrar -, 16 minutos foram com perguntas e interrupções de William e Renata Vasconcellos, sua parceira de palco. 16 minutos! Ou seja, Haddad teve 11 minutos. Em outras palavras, as perguntas e interrupções tomaram 60% do tempo. William Bonner fez 53 interrupções. Renata outras 19. Em diversos momentos falaram ao mesmo tempo que o candidato, impedindo seu raciocínio.

Mas não eram só perguntas. Bonner e sua coadjuvante de bancada no JN fizeram ilações, deram opiniões, citaram números contestáveis, ocuparam o tempo que podiam. Sempre com ar de deboche e colocando-se como porta-voz da verdade, Bonner indignou-se quando, quase perdendo a paciência, Haddad tentou diferenciar denunciado de réu, citando as Organizações Globo e, por exemplo, seus problemas com a Receita Federal.

Mas a palavra, definitivamente, estava com Bonner, que usava frases como  “candidato, isso não se sustenta”, desqualificando suas respostas. Renata, por sua vez, interrompeu uma resposta de Haddad, que foi perguntado, de forma grave, sobre uma acusação intempestiva do Ministério Público sobre obras em sua gestão na Prefeitura de São Paulo, afirmando “Acho que o Bonner já está satisfeito com sua resposta”. No que Haddad respondeu: “Mas eu não estou. Quando é sua honra que está em jogo, você decide, quando é a minha, eu decido”. Bonner não se deu por satisfeito. “Essa situação não é criada pela Rede Globo, pela mídia, pela imprensa. Estou oferecendo uma oportunidade para se contrapor a essa evidência”, disse Bonner, sem explicar como “contrapor uma evidência”.

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Haddad faz cara feia e tenta responder às perguntas-acusações da bancada de apresentadores do JN. Ele deu boa noite a Lula, defendeu Dilma, lembrou as dívidas da Globo com o Fisco e disse a Bonner que quem defendia sua honra era ele. Só 11 dos 27 minutos foram dele.

Haddad ainda tentou argumentar. Golpe parlamentar. Pauta bomba. Citou, mais de uma vez, para um Bonner impaciente, a entrevista do ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, ao Estado de S.Paulo (Leia aqui), reconhecendo que os tucanos cometeram um “conjunto de erros memoráveis” após a eleição de Dilma Rousseff, com reflexos para o próprio PSDB nas eleições deste ano. Entre eles, questionar o resultado eleitoral, votar contra “princípios básicos” na economia, servindo aos interesses do PMDB, e entrar no governo Temer. “Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”, disse Tasso.

Bonner, que abanava a cabeça e franzia o semblante a cada resposta, fez as duas perguntas mais longas, que tomaram mais de 3 minutos. Uma para listar o número de ministros do STF, STJ, juizes e desembargadores nomeados por “governos petistas” – como forma de provar sua tese de que a Justiça é isenta. Mais tarde listou as “promessas não cumpridas” de Haddad, uma a uma, número a número. Em determinado momento, Bonner inverteu, literalmente, os papéis, quando falavam de recessão. “Candidato, o sr me fez uma pergunta eu vou responder”, disse o entrevistador, para, mais uma vez, listar dados que, segundo ele, provariam que a recessão começou e se agravou com Dilma – e não nos últimos dois anos de governo Temer-PSDB. “A presidente Dilma deixou o Brasil na crise onde estamos todos hoje mergulhados”, afirmou Renata. “É fato”, afirmou a dupla, quase em coro.

Mas a obsessão era ouvir de Haddad, em nome do PT, o que chamaram de “autocrítica”, “pedido de desculpas ao povo brasileiro pelos bilhões desviados pela corrupção” e “mea culpa”. Bonner, sem power point para ajudar, defendeu a posição dos procuradores de “corrupção sistêmica” engendrada nos “governos petistas”, o que chamou de “evidências”. “Vamos colocar as coisas nos seus devidos lugares”, repetiu. A insistência dos entrevistadores em que Haddad “pedisse perdão” pelos pecados do PT em duas administrações mostrou bem a importância que parecia ter para a Globo qualquer tipo de admissão de culpa genérica às vésperas da eleição. Devem ignorar, por exemplo, que isso poderia ser reproduzido no horário eleitoral dos adversários de campanha.

A justificativa – que ouvi aqui e ali de gente respeitável – de que os apresentadores do Jornal Nacional usaram estilo semelhante com os demais presidenciáveis, usando e abusando da ênfase e das interrupções, não é justificativa, é defesa de um erro. Sem falar na parcialidade. Como jornalista há três décadas, acho um desrespeito perguntar e não deixar o entrevistado responder, como se só valesse o que você quer ouvir, interrompê-lo a todo instante, e fazer, ao vivo, caras e bocas para as respostas. Não foi feita uma única pergunta sobre planos de governo e soluções para a crise. Preferiram insinuar que Haddad era mais um poste de Lula. Podem se surpreender.

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Quem acabou fazendo o mea culpa foi Bonner, depois de apresentar a pesquisa Datafolha, mostrando Haddad em disparada. “Deixa eu fazer uma correção. Agora há pouco ao divulgar a pesquisa Datafolha nós dissemos que o candidato Fernando Haddad, do PT, OSCILOU de 9% para 13%. Segundo o Datafolha, como o crescimento se deu fora da margem de erro, a frase correta é: o candidato Fernando Haddad CRESCEU de 9% para 13%”.

Em tempo. Ao apresentar a pesquisa Datafolha, William Bonner cometeu um ato falho. Que corrigiu, constrangidamente, no bloco seguinte: “Deixa eu fazer uma correção. Agora há pouco ao divulgar a pesquisa Datafolha nós dissemos que o candidato Fernando Haddad, do PT, OSCILOU de 9% para 13%. Segundo o Datafolha, como o crescimento se deu fora da margem de erro, a frase correta é: o candidato Fernando Haddad CRESCEU de 9% para 13%. Pelo erro nós pedimos desculpas”. Podia ter aproveitado e pedido desculpas pela entrevista nada jornalística e muito pouco democrática que protagonizou, tão ensaiada que, dessa vez, dispensou até ponto eletrônico.